Acervo Estadão
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Capas de Elifas Andreato definiam o alcance de um álbum

Ilustrações em LPs promoveram o primeiro contato de muita gente humilde com o fino retratismo plástico das grandes exposições

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2022 | 17h07

As capas de LPs ilustradas por Elifas Andreato – e apesar de ele ter feito tantos trabalhos, são elas que ficarão depois de sua inesperada morte, na manhã desta terça-feira, 29 – deram outra dimensão à própria música que vinha no vinil. De expressões tão poderosas, elas passaram a agir no imaginário afetivo construído por anos com uma intensidade capaz de interferir nas sensações. Sem o rosto grande de Martinho da Vila extasiado entre o povo, um povo representado sempre por mãos sem rostos, Canta Canta Minha Gente seria algum outro disco. Sem o malandro deitado no banco da capa de Ópera do Malandro, de 1979, como visualizaríamos com tanta exatidão, mesmo sem assistir ao espetáculo, o personagem de Chico Buarque? Que imagem traria a mesma dor de amor tal qual se canta em Sentimentos e Não Quero Mais Amar a Ninguém do que a de Paulinho da Viola vertendo lágrimas volumosas como leite na capa de Nervos de Aço, de 1973? 

Elifas não ilustrava um álbum, mas participava dele. Sua presença é a de um coautor, um homem que estava ali para ser, como disse Chico Buarque, o “artista dos artistas”, alguém que captasse a alma de especialistas em captar almas para entregá-la ao povo. Ele testemunhou composições sendo criadas, jogou futebol e sinuca com esses criadores, sorriu e chorou com eles e ouviu suas músicas em primeira mão. Sua ilustração não se contentava em servir a um efeito estético, mas buscava sempre a conexão. Suas capas foram o primeiro contato de muita gente desassistida com o fino retratismo plástico das grandes exposições. Impressa em LPs, transportada por paixões nacionais, sua arte visual entrava muitas vezes onde nenhuma outra havia estado.

Elifas, paranaense de Rolândia, filho de pais lavradores, tinha 76 anos e uma lista com mais de 450 capas entregues a obras de Caetano Veloso, Noel Rosa, Tim Maia, Adoniran Barbosa, Carmen Miranda, Pixinguinha, Elis Regina, Chico Buarque, Paulinho da Viola e Martinho, muitas vezes Martinho. Só ao lado do sambista de Vila Isabel foram 36 anos, “com pelo menos um retrato por ano”, como ele dizia, além de direção e cenografia de seus shows. Ele estava internado havia uma semana depois de ter sofrido um enfarte. Havia se recuperado do primeiro susto, falado com o irmão ator Elias Andreato para tranquilizá-lo, e, então, traído pelo órgão que tratou com tanta fidelidade, sofreu uma piora e não resistiu.

Seria fácil compilar o que todos dizem agora, após sua devastadora partida. Mas fiquemos com um pouco do que disseram com ele vivo, há coisa de dois anos: Paulo Cesar Pinheiro: “Nada do que Elifas faz é um risco no papel. É poesia pura”. Zeca Pagodinho: “Eu olhava as capas e via aquela assinatura... A maior glória para mim foi um dia poder contar com essa assinatura nos meus discos”. Martinho da Vila: “Estou certo de que sua arte, o seu caráter e o seu zelo com nossa cultura são uma valiosa contribuição a todos os brasileiros que logo mais irão reconstruir o Brasil”. 

 

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