TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Capão Redondo reforça sua resistência cultural

Bairro que já foi o mais violento de São Paulo conta com uma das programações mais criativas da cidade, com projetos criados e mantidos pelos moradores há quase 20 anos, como o festival de rap 100% Favela, que será neste sábado

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 18h33

Uma força se movimenta à revelia das previsões, à margem das estatísticas e ao contrário das apostas, a partir das artérias que saem do Terminal Capão Redondo e seguem abrindo ruas e avenidas entre casas sobrepostas como pagodes chineses na zona sul de São Paulo. Se seguissem o curso da lógica urbana, os jovens que habitam essas vias estariam onde os números querem jogá-los desde 1996, quando o 47.º Distrito Policial do Capão registrou 233 casos de homicídio e deu ao bairro a condição de região mais violenta de São Paulo. De repente, quem sobrevivesse à violência estaria estigmatizado. 

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A forte reação em cadeia de uma população colocada contra a parede pelas perspectivas pode ser uma das explicações que levam a região a ter, 23 anos depois, uma das maiores concentrações de projetos culturais independentes do poder público. Ideias que vão da literatura à gastronomia, com investimentos em polos de educação, hortas comunitárias, bibliotecas, oficinais, blocos de carnaval com trabalhos sociais, festas de ruas e ao menos uma delas, a Crash, voltada para a comunidade LGBT. A música rap, desde o “efeito espelho” provocado pelos Racionais MCs, há 31 anos, quando crianças e jovens avistaram um caminho possível nas carreiras artísticas ou na indústria que elas passaram a criar, inspira a maioria dos festivais.

Um dos maiores será neste final de semana, sábado, 28, em uma rua, Adoasto de Godoi, continuação da Avenida Sabin, que se torna um rio de gente. O 100% Favela foi levantado há 19 anos por dois irmãos MCs, Ylsão e Tó, que formam com o DJ Alê o grupo de rap A Cúpula Negredo, ou apenas Negredo. Na laje sobre a sede de sua loja de camisetas e artigos da banda construída com ajuda de Mano Brown, que também autoriza a venda de produtos dos Racionais, Ylsão falou com a reportagem ao lado de outras lideranças. As atrações deste ano, que seguem por toda a noite até a manhã de domingo, serão Mano Brown com seu projeto setentista Boogie Naipe, Thaíde, Amanda Negrasim, Big da Godoy, Negreta e vários outros rappers, além do escritor Ferrez e do poeta Sérgio Vaz, outros filhos do Capão reconhecidos por obras de respeito.

“Eu fui a um show de rock há quase 20 anos, com luzes, som, tudo de primeira, e pensei: Precisamos levar isso para a periferia”, conta Ylsão. Eram tempos duros, ainda mais duros, em que não havia nem a estrutura mínima com a qual eles contam hoje. Surgiu então o componente que move a gente que já tem o não como certeza. “Não tinha dinheiro, mas isso não era novidade.” Um político soube do projeto e prometeu ajudar, mas, depois de tudo contratado e do palco armado, ele desapareceu. “Deu tudo errado naquele ano. Choveu, as barracas saíram voando.” Mas os irmãos seguiram em frente.

Na segunda edição, Ylsão foi buscar aliados na paróquia da região. Os fiéis cediam a mão de obra e os organizadores faziam a arrecadação de alimentos. O padre, mesmo ressabiado, atendeu ao pedido e foi fazer uma oração no palco dos rappers. Em dois dias, três toneladas de produtos estavam prontos para ser distribuídos aos próprios moradores, algo que a igreja levaria três anos para arrecadar.

Outros projetos.  Thata Alves é uma escritora, autora de três livros, e idealizadora, há cinco anos, do Sarau Da Ponte Pra Cá, no Campo Limpo. Além de programar lançamentos de autores independentes da periferia, ela faz um trabalho de redescoberta de dignidade com pessoas em situação de rua, convidando-os para se juntar ao público, sobretudo nas vivências gastronômicas com pratos temáticos brasileiros. Ela diz que sua experiência de mãe, mulher negra e periférica, norteia suas inspirações nos projetos e nos livros que escreve. Um deles, Troca, traz poemas e versos como “Perdoa as mães negras, se é que as mesmas cometeram pecados matando seus filhos para não se tornarem escravos”.

A seu lado, Aline Anaya é também escritora, slammer, como são chamados os improvisadores das batalhas de poesia, e educadora ligada a crianças com aulas de literatura. “Preferimos usar com os pequenos a pedagogia de favela, é como nos comunicamos melhor e tratamos de questões de gênero e identidade.” Ela atende cerca de 160 crianças com seus projetos, número próximo dos pequenos atendidos também pelo projeto Capão Cidadão, de Paulo Magrão, outra liderança no bairro. Ao lado de Ione Dias, ele atua no premiado polo cultural que conta mais recentemente com uma horta criada nos terrenos antes abandonados de uma escola pública. Magrão quer reativar ainda a Feira de Pacificação do Ser, com a prática de boxe e de rap no mesmo espaço.

Sabrina de Lana cuida do Bloco do Beco, um dos primeiros blocos carnavalescos da periferia, que leva para as ruas até quatro mil pessoas. “Gastamos até R$ 25 mil por edição, e só conseguimos um patrocinador em cima da hora neste ano”, conta. 

Louis Gustavo é responsável por outro ponto sensível, atendendo à comunidade LGBT com oficinas de DJs, designer, fotografia e costura. A cereja de seu bolo são as duas festas Crash que organiza por mês, abrindo espaço para artistas do bairro se apresentarem e atraindo até 600 pessoas por edição. “O início foi difícil, as pessoas não entendiam a proposta, mas aos poucos a gente se impôs”, acrescenta. 

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