Cantoras destacam sambas raros em seus CDs

Regravar por regravar repertórioantigo não tem nada de relevante. O tempo todo os intérpretesbuscam nos porões da memória alguma ligação com o passado. Sem serexclusivamente sambistas, elas têm feito importantes(re)descobertas. Geraldo Pereira, Haroldo Barbosa, Ataulfo Alves, AssisValente, Noel Rosa, Cartola, Herivelto Martins, Dorival Caymmi,Zé Ketti, Candeia, Nelson Cavaquinho e até Chico Buarque sãoalguns dos que têm tido seu baú revirado. Esse cancioneiro sedifunde entregue ao talento vocal e interpretativo de ZéliaDuncan, Mônica Salmaso, Olivia Byington, Teresa Cristina,Adriana Maciel e Carmen Queiroz. A carioca Olivia Byington (que se apresenta até sábadono Baretto, do Hotel Fasano, tel. 3896-4066) tem formaçãoerudita e revelou-se como cantora de pop-rock. Até que em 1997lançou um disco inteiro dedicado ao repertório de Aracy deAlmeida, A Dama do Encantado. O CD acaba de ser relançado pelaBiscoito Fino. Olivia também lançou há pouco o CD Canção doAmor Demais, em que recria na íntegra o clássico de ElizethCardoso de 1958. No show ela canta jóias como o samba-de-brequeMenina Fricote (Marília Batista/Henrique Batista) e o brejeiroQuando Esse Nego Chega (Haroldo Barbosa), também gravado agorapor Zélia. "É tudo riquíssimo e uma delícia de ouvir.Melodicamente esses sambas têm uma estrutura perfeita. Não é àtoa que a produção dos anos 30 se chama de época de ouro dosamba. Não tive intenção de me aproximar do estilo de Aracy. Eembora o disco tenha um toque retrô, é para as platéias dofuturo. Reviver esses sambas é uma maneira de ventilar, fazrenascer", avalia Olivia. Nascida no Paraná e criada no interior de São Paulo,Carmen Queiroz, como Olivia, tem o samba como um dos tesouros dainfância. "Ouvi muito no rádio gente como Dalva de Oliveira,Ataulfo Alves, Geraldo Pereira (de quem regravou a obscuraPedro do Pedregulho), Nelson Cavaquinho", conta Carmen, quelançou o CD Do Meu Jeito, produção independente. Das referências não tão antigas para essas cantoras, asmais fortes são Clementina de Jesus e Clara Nunes, que tem todosos discos relançados em uma caixa da EMI. É de seu fabulosorepertório que Carmen foi buscar Novo Amor (Chico Buarque) eAdriana Maciel pinçou Juízo Final (Nelson Cavaquinho) para oCD Poeira Leve (Deckdisc). Adriana também gravou um Chico raro A Televisão. Nas demais faixas divide-se entre clássicos deNoel, Monsueto, Cartola e composições dos anos 70 como Sambados Animais (Jorge Mautner e dois de Tom Zé (Tô, tambémgravado por Zélia, e Só, do antológico álbum Estudando oSamba). O projeto de Adriana é uma espécie de reestudo dogênero. O disco não é nem tradicionalista nem cai no popmodernoso. "É legal recuperar essas músicas não para fazer igual mas como inspiração. Pensei que o disco ia agradar só a quemtem mais de 30, mas descobri que os adolescentes é que estãogostando mais", conta. "As letras de antigamente tinham umrefinamento e uma naturalidade que não se vê na música feitahoje. É bacana um adolescente ouvir isso hoje". Já Mônica Salmaso em Iaiá (Biscoito Fino) e TeresaCristina, com o Grupo Semente, em A Vida me Fez Assim(Deckdisc), uma no começo e outra no fim de seus CDs,reverenciam Clementina. Ambas, como Carmen, também avançam peloterreno rural, além do samba, e cantam com delicadeza. A ligaçãose completa com a participação de Teresa na faixa que encerra oCD de Mônica - Na Aldeia (Silvio Caldas/De Chocolat/Carusinho) uma preciosidade. "Clementina é um objeto de estudo, é um bancode cultura brasileira, sou absolutamente louca por tudo o queela gravou", diz Mônica. Outra jóia rara é Sorri (Elton Medeiros/Zé Ketti), queTeresa incluiu em seu CD. Depois de um impecável álbum duplodedicado a Paulinho da Viola, ela se revela compositora de mãocheia, mesclando seus sambas inéditos com os de gente comoWilson Moreira, Nei Lopes, Candeia, Mauro Duarte, Silas deOliveira e Manacé. "Existia um certopreconceito da classe média de que para cantar samba você tinhade ser negro, ter uma aparência um pouco rude. Isso estámudando." Com Eu me Transformo em Todas (Universal), Zéliadedicou-se a um trabalho que o especialista Hermínio Bello deCarvalho chama de "meio retrotransgressor", já que fez atravessia para um gênero incomum a seu estilo pop-folk. E foilogo radicalizando sobre o lado oculto de Herivelto Martins(Meu Rádio e Meu Mulato), Wilson Batista e Germano Coelho(Boca de Siri), entre outros, além dos sempre bem tratadosLuiz Tatit, Itamar Assumpção. "Quisbrincar sem compromisso didático, em homenagem à minha memóriarecente e remota", diz Zélia, lembrando que Cida Moreira, MônicaSalmaso e Cristina Buarque também lhe servem de parâmetro. "Oque faz me sentir próxima delas é o amor pelo ofício, quediferencia de outras cantoras que só juntam coisas. E o discotambém desmitifica o lance de dizerem que não há repertório paragravar no Brasil. É só não ter preguiça que se encontra." Parece mais do que coincidência que tantos estejam sedebruçando sobre valores ocultos do passado. E isso não selimita a essas e outras cantoras bambas, como Miúcha, BethCarvalho, Cristina Buarque (que a vida toda foram atrás domelhor samba de qualquer época) e Letícia Coura. O grupo Cordãodo Boitatá, o cantor Marcos Sacramento e instrumentistas comoHenrique Cazes e Hamilton de Holanda também estão firmes noprocesso de revalorização de acervos que têm apelo de sobra paracair no gosto popular. Só não (se) toca quem não quer. Clique para ouvir trechos das canções: Pedro do Pedregulho, de Carmem Queiroz Quando Esse Nego Chega, de Olivia Byington Boca de Siri, de Zélia Duncan A Televisão, de Adriana Maciel Na Aldeia, de Mônica Salmaso Sorri, de Tereza Cristina Regresso, de Clara Nunes

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