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Cantora francesa Jeanne Added surpreende pelo improviso vocal de alta qualidade

Além de brilhar em Yes Is a Pleasant Country, Jeanne Added rouba a cena em disco de Trotignon

João Marcos Coelho,

25 de dezembro de 2012 | 22h50

Bastam paciência e curiosidade para encontrar pepitas na web. Hoje temos acesso a praticamente tudo que se faz e grava no mundo inteiro. Foi assim, meio sem querer, que descobri a cantora francesa Jeanne Added, de 32 anos. Também violoncelista e contrabaixista, ela é uma das convidadas do pianista francês Baptiste Trotignon no recém-lançado CD Song, Song, Song (Naïve, setembro/2012). E rouba a cena, deslumbrante, em Du Bist die Ruhe, ou "você é minha paz", um dos mais célebres lieder de Schubert sobre versos de Rückert, o poeta preferido de Schumann e Mahler.

Daí ao garimpo, foi um passo. Primeiro, a biografia deste espanto em termos de música improvisada vocal de elevadíssima qualidade. Jeanne estudou canto e violoncelo no conservatório de sua cidade natal, Reims. Em 2004, foi a primeira cantora admitida no curso de jazz do Conservatório Nacional Superior de Música de Paris – sim, aquele mesmo mítico, fundado no final do século 18, em plena Revolução Francesa, e pelo qual desde então passaram quase todas as grandes cabeças da música clássica francesa. Em 2005 foi admitida em outro estabelecimento de ensino top, a Royal Academy of Music de Londres. Em seguida, mergulhou de cabeça numa carreira livre de rótulos. E tem feito gravações extraordinárias, que pouquíssimos conhecem, com o pianista Bruno Ruder e o saxofonista Vincent Lê Quang.

Reinvenção. Descobri ainda um CD, lançado em 2011 (selo Sans Bruit), com o sugestivo título Yes Is a Pleasant Country. Para se ter uma ideia do que ela faz nesta gema secreta, é só comparar a clássica gravação original, de 1957, de Reincarnation of a Lovebird, do contrabaixista Charlie Mingus, com a de Jeanne. Ela simplesmente recria, reinventa a música.

Começa num uníssono com os voleios melódicos do sax-alto; em seguida, sax e voz brincam com intervalos de terça, ora de quarta; o solo de Lê Quang é admirável, pela exploração do registro superagudo do instrumento, com domínio total de emissão; o improviso do piano, solo, completa a viagem, que retorna ao porto seguro do tema no final.

Mas as ousadias não param por aí. Ora a voz de Jeanne contracena sutilmente com os harmônicos do sax, ora se funde com ele (encante-se com o clássico do alter ego de Ellington, o notável Billy Strayhorn, intitulado A Flower is a Lovesome Thing, onde voz e sax, nus, constroem duas linhas tênues e ao mesmo tempo precisas). As peripécias multiplicam-se: em Strange Feeling, o sax faz longos trinados sobre o tapete anguloso do piano, que jamais se limita ao acompanhamento convencional. O clima é de três vozes autônomas caminhando lado a lado, mas com discursos próprios. Um encanto de sensibilidade e elevadíssima técnica musical.

E por falar em técnica, nos econômicos 1’27’’ de Penchant, Jeanne limita-se a um scat em saltos dissonantes, acompanhada pelo entrecortado sax alto de Le Quang. Espetacular. Jeanne faz o que se pode chamar de lied do século 21. Schubert e Schumann, se ouvissem, certamente adorariam. O CD inclui ainda I Carry Your Heart With Me, sobre versos de cummings, um blues soturno, lancinante, com direito a harmônicos incríveis do saxofone de Lê Quaing. E traz para o século 21 um clássico dos anos 40, I Could Write a Book, estreado por Gene Kelly no musical Pal Joey da dupla Rodgers & Hart.

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