EFE/Santiago Felipe/One Little Indian/The Shed
EFE/Santiago Felipe/One Little Indian/The Shed

Cantora Björk estreia concerto pop feminista com coro e projeção de vídeo

O mais recente espetáculo ao vivo de Björk, 'Cornucopia', é definido pela artista multimídia como teatro digital ou um concerto pop de ficção científica

Melena Ryzik  , The New York Times

14 de maio de 2019 | 03h00

“Uma girafinha albina”. É assim que as flautas soam, de acordo com Björk. (A propósito, essa é uma criatura real e em grande parte, muda.)

Há sete flautistas, todas mulheres, na mais recente ‘extravaganza’ ao vivo de Björk, Cornucopia. Ela mencionou as girafas como uma maneira de traduzir sua visão sonora para seus colaboradores. “Tipo, elas são meio peludas e são meio limpas”, disse ela sobre os animais, “mas elas não são tão limpas quanto você imagina, porque na verdade são girafas”. 

“Se isso faz algum sentido”, acrescentou.

Como uma artista iconoclasta – uma cantora experimental punk transformada em pop, visionária multimídia, queridinha desleixada dos desajustados em moda e protofuturista com uma fixação duradoura na fusão de natureza e tecnologia – Björk, de 53 anos, está acostumada a explicar os saltos que sua imaginação dá. De alguma forma, vindo de sua voz cadenciada, isso funciona. A flauta, por exemplo, era seu instrumento de infância, mas ela se rebelou contra os compositores clássicos e aprendeu o trabalho contemporâneo e atonal – um material que soa como um peleteiro.

Cornucopia, um importante trabalho encomendado pelo Shed (galpão), a nova instalação para as artes no Hudson Yards, lado oeste de Manhattan, é caracteristicamente ambicioso – anunciado como o “mais elaborado concerto já encenado por Björk até hoje”. Inclui um coro de 50 jovens islandeses, uma câmara de reverberação feita sob medida, hipnotizantes projeções de vídeo, som de 360 graus cuidadosamente posicionado e vários instrumentos sob medida, alguns usados por meros momentos.

Björk chama isso de teatro digital, ou um concerto pop de ficção científica. Mas também é uma maneira de entrar em sua cabeça. Que, no momento, está focada em um futuro feminino alternativo, feminista e esperançoso; o show é baseado em torno da música de seu último álbum, Utopia. “É como um conto de fadas, eu acho”, disse ela, “ou veja, propositalmente extática e meio cáustica”.

Ela falou durante um jantar na semana retrasada, em uma pausa nos ensaios, vestida com uma longa capa plissada em calêndula bifurcada e flores roxas, sobre um macacão bem justo combinando; uma luva pendia de seu pulso enquanto ela comia. 

Nós nos sentamos em um espaço com vista para o teatro e sem nenhuma razão aparente – exceto, claro, o fato de estar jantando com Björk. As luzes da sala foram ficando aos poucos mais fracas, até que nós nos encontramos discutindo esperança, utopia e feminilidade na escuridão total. (Parecia estar certo.)

Alex Poots, o diretor artístico do Shed, encomendou Cornucopia e relaxou enquanto Björk o desenvolvia nos últimos anos. “Ela tem uma abordagem pródiga da criatividade”, disse ele. “Existe uma combinação de real rigor e punk, que monta essa explosão de criatividade, porque jamais se torna séria ou segura. Há sempre esse anseio de reinventar.”

Ele esperava que Björk fosse um dos primeiros artistas comissionados do Shed. “Eu ficaria muito chateado se nós não parecêssemos relevante para ela”, disse. Ele a apresentou pela primeira vez em 2011, quando a atraiu para o Manchester International Festival, onde era diretor artístico anteriormente, com a produção conceitual de seu álbum Biophilia. Isso gerou um projeto educacional infantil de longa duração e tornou-se um ponto decisivo na sua carreira; ela praticamente não fez uma turnê tradicional desde essa época.

“Martha Rosler”, a artista feminista, “fala sobre o futuro voando sob o radar”, disse Poots. “E certos artistas como Björk estão muito atentos mantendo os olhos bem abertos. Ela é alguém que deixa as perguntas em aberto em vez de dar muitas respostas e instruções.”

Volta ao otimismo. Utopia, lançado em 2017, foi o retorno de Björk ao otimismo, ao entusiasmo e à possibilidade romântica – seu “álbum Tinder”, como ela às vezes o chama brincando. Feito em colaboração com o venezuelano DJ Arca, foi inundado pelo canto dos pássaros, melodias ao acaso e as flautistas, todas músicas islandesas, que a seguiram até o Shed. O álbum foi uma resposta a Vulnicura, o sombrio álbum de 2015 que ela fez após o fim de sua relação de uma década com o artista Matthew Barney, o pai de sua filha adolescente.

Vulnicura foi para mim basicamente muito, muito triste”, disse ela. “Assim como o inverno na Islândia, pedras no chão, sem plantas – você sabe, a melodia estava literalmente no chão. Não deu grandes saltos.”

Já a sua visão para Utopia, em contraste, era como uma varredura em 3D de fogos de artifício, explodindo sobre uma luxuriante ilha (simbólica) no céu. Musicalmente, ela e DJ Arca “falaram muito sobre isso, e nós queríamos que os sintetizadores soassem como flautas, e as flautas soassem como pássaros, e os pássaros como sintetizadores”, disse Björk. “Sem nada segurando isso.”

Lucrecia Martel, uma celebrada cineasta argentina que está fazendo sua estreia teatral em Nova York dirigindo Cornucopia, foi encarregada de encenar a visão de Björk. Questionada sobre a metáfora da girafa-flauta, Martel riu. “Muitas de suas explicações são nesse estilo”, disse ela, através de um tradutor. “E às vezes é um pouco difícil entender o que isso realmente significa.”

Ainda assim, ela seguiu a liderança de Björk. Björk fez os arranjos musicais, e Martel acrescentou o que chamou de materialidade e fisicalidade, por exemplo, projetando vídeo (de Tobias Gremmler) em cortinas em vez de telas, criando transparências e a capacidade de artistas modificarem o visual pelo toque.

Às vezes, Björk apresentava ideias, particularmente sobre o figurino ou a dramaturgia, que a faziam temer. “Isso é um desastre”, disse Martel. “Mas, quando vejo tudo junto, está incrível.”

Os colaboradores incluem pessoas que estão sempre com Björk, como James Merry, seu codiretor criativo, que fez à mão, para Björk e outros músicos, intricadas máscaras douradas. Os figurinos são na maior parte de Olivier Rousteing, de Balmain. / Tradução Claudia Bozzo

EXPOSIÇÃO DE BJÖRK EM SÃO PAULO

O MIS de São Paulo inaugura no dia 18 de junho a exposição-instalação ‘Björk Digital’. A mostra, que mescla arte e tecnologia, fica aberta até 18 de agosto

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