Cantora americana Stacey Kent lança álbum cheio de bossa

'Breakfast on the Morning Tram' conta com canções em francês como 'Samba Saravah' e 'Ces Petits Riens'

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

15 de abril de 2008 | 18h51

Stacey Kent parece que quer passar despercebida. Um jeito discreto, um olhar romântico, os sorrisos que sugerem uma sinceridade desconcertante num rosto lavado, natural. Não se deixe enganar, no entanto, pela suprema humildade da capa desse disco: a nova-iorquina Stacey Kent fez de Breakfast on the Morning Tram (EMI/Blue Note) um dos álbuns mais cheios de bossa da temporada.  Veja também:Ouça trecho de 'Samba Saravah', de Stacey Kent   Cheio de bossa em todos os sentidos: além de gravar em francês Samba Saravah (Samba da Bênção), como na clássica trilha sonora do filme Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch, ela registrou ainda uma preciosidade do repertório bossa de Serge Gainsbourg, Ces Petits Riens (tem outra de Gainsbourg no disco, La Saison des Pluies). Mas como? Uma nova-iorquina gravando em francês? Mas em geral eles não sabem nem dizer bonjour direito! "Meu avô era francês. Eu cresci na França, passei uma boa parte da minha vida em Paris, falando francês", conta a cantora, em entrevista ao Estado por telefone, na tarde de segunda-feira. "E eu devo confessar: eu amo a bossa nova. Lembro até hoje da primeira vez que ouvi meu primeiro disco de bossa. Eu era adolescente, estava jogando baralho com as amigas quando alguém pôs no toca-discos o álbum Getz-Gilberto (álbum de Stan Getz e João Gilberto, de 1964). Eu disse: Deus do céu, o que é isso? Logo logo eu já tinha o meu em casa, e ouço até hoje sem parar", ela contou. Tornou-se uma conversão séria. Ela e o marido, o sax tenor Jim Tomlinson, que também é o maior parceiro musical, adoram a bossa. Ela até consegue dizer, sem trair o sotaque, as palavras "poesia" e "Bahia" da rima de Samba Saravah. "É uma música que cria uma paisagem sonora na minha mente. Eu não falo nada de português, mas adoro as palavras, entendo a emoção que há na música, essa mistura de tristeza e alegria, tristeza e otimismo", afirma. O disco Breakfast on the Morning Tram é a estréia de Stacey Kent pela Blue Note. Parece também que é sua estréia, tal o espanto que causa na primeira audição. Mas ela já está no sétimo álbum da carreira. "Estou mais orgulhosa desse disco do que todos os outros que já fiz. A Blue Note é o selo perfeito de música. Eles se deram conta de que eu precisava de tempo para crescer. Não há cinismo na Blue Note, eles não pegam uma cantora e ficam imaginando como torná-la maior, como vendê-la. Não se trata de ser tolo ou ingênuo. Todo mundo quer vender discos. Mas o interessante é que eles não acham que é preciso manipular, mentir. A arte é o mais importante ali", diz Stacey, fazendo elogio rasgado à nova moradia artística. Um aspecto interessante desse disco é a parceria com o escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, o festejado autor de Os Vestígios do Dia, que ganhou o Booker Prize em 1989. Nomeado pela França Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres, Ishiguro teve um dos seus livros, Never Let Me Go, eleito um dos 100 melhores em língua inglesa pela revista Time, em 2005. Stacey conta como ela e Ishiguro se tornaram amigos e parceiros (ele compôs quatro das 12 canções do disco): "Eu estava na Inglaterra e assistia na TV ao programa Desert Island Discs (programa da BBC 4). Sempre há um convidado especial e era ele naquela noite. Ele escolhe um disco para passar o resto da vida com ele numa ilha deserta. E ele escolheu o meu disco. Quando eu fui ao programa, eu agradeci a ele pela escolha, e um dia minha gravadora entrou em contato com ele pedindo um texto para a apresentação do meu disco. Eu li o texto e não acreditei: mesmo antes de me conhecer pessoalmente, ele sabia tudo sobre mim. Acabamos nos encontrando, viramos grandes amigos. É um homem incrível. Quando o convidei para escrever para meu disco, ele fez quatro canções que dizem o que sou." Stacey Kent passou os últimos 10 anos gravando para um selo indie, Candid, e especializando-se no "american songbook". Tornou-se uma estrela da cena jazzística britânica, cantora residente do mais famoso clube de jazz de Londres, o Ronnie Scotts, e ganhou o British Jazz Award e o BBC Jazz Award como melhor intérprete. "Sempre tive um grande apetite por essas canções, adoro Django Reinhardt, Maria Callas, mas também gosto de Joni Mitchell, Cat Stevens, Elis Regina, Tom Jobim", ela conta. Agora, no entanto, escapuliu das facilidades de um repertório de cartas marcadas e arriscou-se em inéditas, coisa que pode ser temerária. Mas funcionaram bem. Algumas canções têm um lirismo bem exótico, como a primeira faixa, The Ice Hotel. "Construímos tudo com gelo, que é puro e claro/Os sofás, o lobby, até mesmo o lustre/Um termostato garante a temperatura de 5 graus/Que outro lugar no mundo serve tão bem nossas necessidades?/Vamos nos deixar conduzir ao Hotel de Gelo", ela canta, na letra de Ishiguro. "Esse hotel existe, fica na Suécia. Tem até uma capela lá dentro para quem quer se casar. Mas, por trás da simples história de um casal que se encontra no hotel de gelo, há uma metáfora que me agrada: essa dualidade de um relacionamento: frio, quente, sexy, frígido, inverno, verão. Acho que é o que a torna tão reconhecível." Sobre as duas de Serge Gainsbourg, ela é direta: "Serge é aquele tipo de cara sobre o qual sempre falamos a respeito, mas não conhecemos direito. Cantar suas canções é entrar no seu mundo, que também é feito de uma espécie de tristeza otimista, é bossa nova", diz.

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