Cantor relembra João Pacífico

Quem é Leandro e quem é Pacífico?Os mais velhos provavelmente nem se lembrarão do pioneiro da música sertaneja, que abriu caminho para a voga das duplas que tomou conta da cena musical nos últimos tempos.Já os mais novos, filhotes da globalização, não fazem a menor idéia de um contemporâneo de 24 anos que desde moleque se dedica às chamadas raízes. Se não chega a ser um nerd de uma geração musicalmente embalada pela tecno ou o pagode, parece.Aos 15, foi solista de violão num concerto em homenagem ao maestro Eleazar de Carvalho. Aos 16, conheceu Turíbio Santos, que aceitou ser seu tutor musical e deu-lhe o sinal para decolar a carreira. Um dos mais completos violonistas brasileiros, mais respeitado na Europa que em sua terra, Turíbio desafiou o garoto Leandro a mergulhar na obra de outro João, o também desconhecido João Pernambuco, parceiro de Pixinguinha, Donga, Catulo da Paixão Cearense e Armandinho Neves, que foi craque de bola como atacante do Corinthians nos anos 10. Dele se diz que, fascinado por suas composições, Heitor Villa-Lobos ofereceu-se para transcrevê-las em partituras, sugestão negada pelo receio de que elas pudessem ser roubadas. João Pernambuco fez a melodia de Luar do Sertão, certamente a mais conhecida de suas 105 músicas. Interesse de Villa-Lobos - Mas seu feito maior foi o de, através de uma carpintaria musical que revelou para o mundo os violeiros e cantadores das feiras nordestinas do início do século, ter despertado, em Villa-Lobos, o interesse pelo universo genuinamente popular, sistematizado nas Bachianas Brasileiras.Sob orientação de Turíbio, Leandro de Carvalho desvendou o Brasil de João Pernambuco, objeto de sua tese de graduação em música erudita. A empreitada resultaria, mais tarde, no CD João Pernambuco, O Poeta do Violão. O segundo rebento viria, no ano passado, com a gravação Leandro Carvalho Descobrindo João Pernambuco, agora com a intervenção de grupos instrumentais da melhor qualidade, o Quinteto de Cordas da Paraíba e o Quinteto Latino-Americano de Sopros, e uma participação especial de Mônica Salmaso. Apoio de Suassuna - Bem mais elaborado, com arranjos do próprio Leandro e uma cesta de ritmos que incluem tango e polca, além de choros, este segundo CD dedicado à fonte inspiradora teve o apoio decisivo de Ariano Suassuna, orientador do mestrado defendido por Leandro na Universidade Federal de Pernambuco. Para Suassuna, Leandro vem progredindo tanto que pode-se somar, "como compositor, àqueles raros e poucos que estão realizando uma música camerística de primeira categoria".De Pernambuco a Pacífico, foi um passo simples. Leandro conta:"Em 1997, quando estava produzindo um vídeo para o Itaú Cultural sobre João Pernambuco, tive oportunidade de registrar mais de duas horas de imagens do João Pacífico no seu hábitat, um sítio em Guararema, Grande São Paulo. As imagens são fantásticas e podem servir de carro-chefe para um vídeo, tipo ´documentário poético´, sobre a cultura caipira, as relações campo-cidade em São Paulo ao longo do século, através da vida do João Pacífico. A idéia seria contar a história das primeiras duplas sertanejas, dos primeiros anos do rádio, onde o Pacífico fez gravações ao lado de Raul Torres."João Pacífico morreu há dois anos, no limiar dos 90, praticamente esquecido. Autor de Cabocla Teresa e Pingo d´Água, entre outras centenas de músicas, foi definido por Rosa Nepomuceno no livro Música Caipira, da Roça ao Rodeio como o compositor-referência da música que traduziu o Brasil rural, bucólico, romântico, rude, mítico, de onde viera e que tão bem conhecera, um Brasil que também lutou para sobreviver nas capitais voltadas ao progresso e à industrialização.Na obsessão pelas raízes, Leandro de Carvalho chegou aos dois Joões. Pelo meio do caminho, vai colecionando troféus valiosos para quem apenas está começando carreira. Com projeto de estudar regência nos Estados Unidos brevemente, já partilhou estúdio e gravações com dois monstros sagrados do instrumento: Baden Powell (Baden, João Pernambuco e o Sertão) e Turíbio Santos (Turíbio Santos Mistura Amigos e O Guarani - neste, professor e aluno apresentam a protofonia da ópera de Carlos Gomes, além de chorinhos de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth).

Agencia Estado,

10 de setembro de 2000 | 21h42

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