CAROLINE BITTENCOURT/DIVULGAÇÃO
CAROLINE BITTENCOURT/DIVULGAÇÃO

Cantor e compositor Lira traz sua veia poética e psicodélica a São Paulo

Em seu 2º disco solo, ‘O Labirinto e O Desmantelo’, pernambucano intensifica os experimentalismos

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2015 | 05h00

Em 2010, a banda Cordel do Fogo Encantado, fundada na cidade pernambucana de Arcoverde, encerrava sua carreira. Seu líder e compositor Lira iniciava, ali, sua trajetória solo, endossada pelo álbum Lira, com produção de Pupillo (do Nação Zumbi), seu primeiro disco nessa condição, lançado em 2011. De lá para cá, o músico fez um mergulho na própria obra durante a turnê inspirada naquele trabalho, marcado pelo viés poético, lírico, pela psicodelia e pelos experimentalismos. 

Mesmo com o disco Lira na estrada, o músico arcoverdense confabulava o segundo álbum, que já batizava informalmente de Vol. 2. Esse seu segundo disco solo é lançado agora, mas sob novo título: O Labirinto e o Desmantelo, tirado da faixa homônima, parceria dele e Pupillo, que novamente assina como produtor. 

Em São Paulo, Lira faz show de lançamento neste sábado, 9, e domingo, 10, no Sesc Vila Mariana. “Ele começou sendo construído dentro da ideia de um volume 2, porque mantive, com a produção de Pupillo, elementos que surgiram no meu primeiro disco, principalmente ligados à instrumentação”, diz Lira. 

“Na verdade, percebo que aprofundamos e, no momento em que esses elementos do Lira, dos instrumentos harmônicos, das melodias que eu estava desenvolvendo, passaram a abrir para outros caminhos também, comecei a perceber que o disco merecia um título original, que ele estava conseguindo ter uma vida independente do primeiro. Escolhi o título de uma das músicas, que, na minha visão, abraçava todas as outras canções.”

Lira concretiza os avanços, lembrando que, no primeiro disco, foi montada uma banda base que gravou todas as músicas. Já, neste novo disco, houve uma primeira fase em que três canções foram feitas com a mesma instrumentação – quando ele ainda sustentava a ideia do Lira Vol. 2. “Depois, abrimos para cada música um universo que a gente achava que ela pediu.” Como o encontro da bateria eletrônica de Pupillo com os violinos de Pedro Mibielli feito em Jabitacá (de Lira, Junio Barreto e Bactéria). Ou o standup drums de Pupillo combinado com instrumentos de sopro, como tuba, trombone e trompa, em O Mergulho, composição de Lira. “Fui por caminhos por onde eu não tinha ido, e são composições que me exigiram uma interpretação também inédita no meu trabalho.”

Assim como havia feito no disco anterior, quando convidou Angela Ro Ro e Otto para cantar em Valete, desta vez, Lira faz duo com Céu na faixa Filtre-me (de Lira, Céu e Pupillo) – a cantora aparece ainda no coral de outras canções do novo álbum. “Nesse disco, eu queria repetir um dueto com uma voz feminina e fiquei feliz de ter sido com Céu”, afirma Lira, que fez com ela shows no Sesc Pompeia no ano passado. Os dois também dividem a letra da canção, outra novidade no modus operandi do músico. “É interessante, porque poucas vezes aconteceu de eu dividir a letra de uma música e Filtre-me surgiu da letra de Céu. A melodia também é uma sugestão dela.”

Com o Cordel do Fogo Encantado, o processo de composição de Lira já era em propulsão, mas naturalmente se intensificou na fase solo. E lhe deu a possibilidade de conduzir as letras em primeira pessoa, o que antes, como membro da banda, e, portanto, de um coletivo, ficava difícil de personalizar. “Nos trabalhos com o Cordel, não me sentia no direito de falar sobre minhas ilusões, minhas visões sobre o mundo. Eu utilizava personagens que representassem os nossos anseios, as nossas ideias.”

Para Lira, o compor é um momento solitário, em que ele fica “girando numa música por dias”. “Fico sempre imaginando ela despregada também da melodia, tenho uma preocupação muito grande por um acabamento da poesia, da letra.” Na adolescência, ele começou declamando poesias. Participava de encontros de repentistas, em várias cidades, e viajava com os cantadores. Mas foi no Cordel que ele descobriu a composição. “Na banda, que montei com os amigos da minha cidade, a ideia era criar uma música para essa poesia ser dita.”

O repertório de O Labirinto e o Desmantelo foi ganhando corpo ao longo dos últimos dois anos, mas Lira diz que não compõe apenas pensando num possível próximo disco seu. “Observo que, nesse tempo, canções minhas foram gravadas por algumas intérpretes, algo com o qual eu sonhava muito no passado que acontecesse.” A roqueira Pitty gravou Lágrimas Pretas, com os 3 na Massa; Elba Ramalho, em seu recente álbum, Do Meu Olhar Pra Fora, regravou Nossa Senhora da Paz, um clássico do Cordel; e no também novo disco de Gal Costa, Estratosférica, ela faz sua versão também de Jabitacá. 

Por causa desse registro de Gal, Jabitacá ainda não está disponível na versão digital do disco – só entra no CD físico, no mês que vem. Também não consta no repertório do show. Isso para preservar o ineditismo da canção prometido à intérprete, cujo novo trabalho será lançado no dia 26. As outras dez canções do novo disco de Lira estarão no show, assim como músicas do álbum Lira e do Cordel, com novos arranjos. “Vou lançar essa música só no futuro. Farei esse gesto pela importância de Gal como intérprete, e pelo grande prazer de ser interpretado por ela. Vou deixar essa música para ser lançada por ela.”

LIRA

Sesc Vila Mariana. Teatro. Rua Pelotas, 141, Vl. Mariana, 5080-3000. Hoje, 21 h; amanhã, 18 h. R$ 7,50/ R$ 25. 

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