Amy Lombard/The New York Times
Amy Lombard/The New York Times

‘Cantarei até morrer’, diz Tony Bennett, aos 90 anos

O ícone da música norte-americana, que recebeu homenagens este ano, quer gravar disco em 2017

John Marchese  , The New York Times

18 Dezembro 2016 | 17h11

Na manhã do Dia de Ação de Graças, Tony Bennett acordou numa cama estranha, e no lado errado do Central Park. Há anos, ele mora, com a terceira mulher, num edifício Trump no Central Park South. Mas o casal passara a noite num hotel na Avenida Madison, para evitar o esquema de segurança na área do Desfile do Dia de Ação de Graças da Macy’s. Como Tony, o desfile fez 90 anos em 2016. 

Nesse dia, como ocorreu durante 70 anos de uma carreira iniciada como garçom/cantor em Astoria, Queens, Tony estaria no penúltimo carro alegórico da parada, cantando Santa Claus Is Coming to Town com Miss Piggy. Seu carro ocuparia o segundo lugar da parada em ordem de importância, à frente apenas do de Papai Noel e seu trenó. A performance ao vivo com uma Muppet não estava prevista para ser um ponto alto na carreira de Tony; porém, ele se desequilibrou quando o carro alegórico andou e foi socorrido por um forte abraço da famosa porquinha. A cena viralizou na internet e acabou coroando um ótimo ano para o artista. 

Tony Bennett começou 2016 ganhando seu 19.º Grammy. O Empire State Building foi iluminado em homenagem a ele, com o comutador acionado por sua improvável amiga e parceira de gravadora Lady Gaga. A HarperCollins lançou um novo livro das reminiscências de Tony sobre pessoas importantes em sua vida. E, no dia 20, a rede NBC apresentará um programa especial de duas horas, no horário nobre, em comemoração ao aniversário do cantor. “Não acredito que isso esteja acontecendo”, diz Tony. “Tenho 90 anos.” Desde que a NBC apresentou um especial sobre Bob Hope em 1996, quando o comediante tinha 93 anos, o horário nobre nas grandes redes dificilmente é aberto para homenagens a idosos. Doug Vaughn, da área de programas especiais da NBC, explicou: “Nem todos os que fazem 90 anos merecem essa festa, mas Tony é um ícone de tal porte, uma lenda americana, que dedicar a ele um grande espaço em horário nobre não foi uma decisão difícil”. 

O especial Tony Bennett Comemora 90: O Melhor Está por Vir foi feito a partir de um concerto no Radio City Music Hall, em setembro, com cantores como Stevie Wonder, Michael Bublé, Leslie Odom Jr. e Lady Gaga homenageando Tony. Há participações gravadas de Billie Joe, Elton John e Bob Dylan e segmentos de entrevistas com Tony, além de um número cômico estrelando Alex Baldwin, que reprisou sua imitação feita no Saturday Night Live de um desligado, alegríssimo e superentusiasmado Tony Bennett. 

Baldwin disse que a chave para captar o espírito de Tony Bennett, ângulo caricatural à parte, foi retratar “um cara sem obstáculos no caminho”. “O que acontece é que ele é tão positivo – se eu tivesse seu talento também seria – que a lição que você tira de tudo quanto ele faz é que praticar arte tem de ser algo engraçado, o artista tem de ser engraçado.” 

De fato, deve ser bem engraçado ser Tony Bennett. Em público, seu vocabulário é dominado por três expressões: “grande”, “uau” e “fantástico” – esta, pronunciada com destaque na sílaba “tás”. E as três devem ser eficazes, tendo em vista a bem-sucedida carreira de Tony. Começando com a gravação de Because of You, de 1951, Tony cantou vários hits durante uma década, às vezes, material de segunda, culminando com o best-seller I Left My Heart in San Francisco, de 1962. Nas duas décadas seguintes, ele viveu sob a ameaça de se tornar mais um cantor de cassino, além de problemas com drogas e alcoolismo. Então, afinou o foco artístico, concentrando-se em standards americanos. Ajudado pelo filho Danny, que passou a administrar sua carreira em 1979, Tony voltou à cultura pop ao longo dos anos 1980, vencendo um novo desafio demográfico com o álbum gravado ao vivo, MTV Unplugged: Tony Bennett, de 1994. 

Só em sua nona década de vida, Tony vendeu 10 milhões de discos, incluindo dois álbuns best-sellers de duetos com inúmeros outros cantores. Dois anos atrás, tornou-se o mais velho intérprete a ter um “álbum n.º 1”, o top das paradas, com a gravação, com Lady Gaga, do álbum Cheek to Cheek, de clássicos de jazz com um toque moderno. Tony Bennett conseguiu fugir da armadilha do “rejuvenescimento de carreira” mantendo-se exatamente o mesmo. “Já poderia ter me aposentado, mas simplesmente adoro o que estou fazendo”, disse ele num jantar no mês passado, preparando-se para uma entrevista sobre seu novo livro, Just Getting Started. Em seus shows, “o público enlouquece”, diz Tony. “Eles sabem que tenho 90 anos, mas estou em boa forma. Depois da terceira ou quarta música, perdem o controle e me ovacionam cinco, seis vezes numa noite. Vou para casa muito feliz.” 

Após as longas comemorações de seu aniversário, Bennett planeja continuar trabalhando. Ele tem 30 apresentações marcadas para o primeiro semestre de 2017 e pretende gravar um novo álbum com canções do casal de compositores Alan e Marilyn Bergman. “Posso fazer isso com Gaga, ou talvez só com Bill Charlap”, disse. “Ele não para”, diz o filho Danny. E Tony confirma: “Enquanto minha voz não vacilar e as pessoas gostarem de mim, cantarei – até morrer”.  / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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