Reprodução
Reprodução

Cândido Portinari em imagens, poesia e canções em novo álbum

João Guilherme Ripper criou um ciclo de composições inspiradas em poemas do pintor, lançado agora em CD

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 16h00

“Nas paradas, nas pequenas estações/ lá estavam mendigos cegos ou sem perna/os meninos apregoando alguma coisa/e as filhas do chefe vendendo café em uma janela”. Cândido Portinari já era um artista celebrado quando, em 1958, começou a flertar com a poesia. Parte de seus versos seriam reunidos em 1964 em um pequeno livro, com introdução de Manuel Bandeira e Antônio Callado. As imagens, no entanto, falaram mais forte e, fora de catálogo, seus poemas tornaram-se pouco conhecidos. Mas ganham nova vida agora por meio dos sons: o compositor João Guilherme Ripper musicou oito deles, reunidos no Ciclo Portinari e Outras Telas Sonoras, lançado em CD pela Biscoito Fino.

Artes plásticas, poesia, música. Três artes se misturam na peça, interpretada no álbum por duas das principais cantoras líricas brasileiras da atualidade, a soprano Gabriella Pace e a mezzo-soprano Luisa Francesconi, acompanhadas ao piano por Priscila Bonfim. “Os cadernos de Portinari me foram apresentados por seu filho João Candido. Eles traziam diversos poemas repletos de descrições de paisagens, locais, pessoas, cores, carregados de uma forte carga imagética. É extraordinário ver como o artista permaneceu pintor quando foi poeta. Nas oito canções do ciclo, busquei recriar musicalmente as sugestões de imagens do autor, como o trem em As Viagens de Trem ou o flautim e a tuba de uma banda em Concerto”, diz o compositor.

Ripper é hoje um dos principais compositores brasileiros em atividade – e sua obra revela uma preferência pela música vocal, manifestada tanto em suas óperas como em outras canções, algumas delas incluídas no CD, como Canção do Porto e Rio Desvelo. “Comecei a compor para cantar os poemas que escrevia. A entrada na música se deu através da paixão pela literatura. Busco a combinação mais natural possível do verso e da música quando escrevo canções ou óperas. Não é tarefa fácil e nem sempre sou bem-sucedido. A ópera contemporânea está cheia de recitativos insípidos e árias onde o texto está vestido com uma música que não lhe cabe, desconfortável como uma camisa dois números menor. Verdi escreveu que, às vezes, o compositor deve ter talento o suficiente para não escrever música e deixar o texto prevalecer.”

O CD tem também duas árias de óperas escritas por Ripper: Diga em quantas linhas, de Domitila, monólogo inspirado nas cartas da Marquesa de Santos; e É preciso morrer, de Piedade, sobre a história de Euclides da Cunha. Ripper também é autor de Anjo Negro, baseada em Nelson Rodrigues, e de Onheama, de tema folclórico, estreada no ano passado no Festival Amazonas de Ópera. Mas, como autor de óperas, diz sentir mesmo uma ligação especial com a temática histórica – tanto que prepara uma obra inspirada em Getúlio Vargas para o Teatro Municipal do Rio. 

“Encontro na história brasileira uma fonte inesgotável de personagens talhados para a ópera”, explica. “Mas o trabalho de pesquisa segue até o ponto em que os fatos biográficos estão devidamente estabelecidos e o perfil psicológico está delineado. A partir daí, é a imaginação que passa a guiar a criação do libreto e da música com total liberdade, sem o compromisso de fazer uma ópera-documentário. A ópera é um universo estranho onde as pessoas cantam em vez de falar, onde elas agem e interagem a partir da dramaturgia criada pelo compositor, onde vemos e ouvimos que nada é real, mas identificamos e sentimos como absolutamente verdadeiro.”

Ouça a faixa As Viagens de Trem, do disco Ciclo Portinari e Outras Telas Sonoras:

TRECHOS:

EU A VI

“Eu a vi, eu a vi/ eu a vi entre as mulheres/ estava todo de branco/ mais branco/ do que aquele carneirinho de neve luminosa”

CONCERTO

“Aos poucos, vinha o escuro e me amedrontava/ os anjos se iam, a música cessava/ o gado: um atrás do outro tomava o seu trilho”

SÓ NESTE QUARTO

“Mas tudo se iluminou/ a lua branca sorria/ acenavam-se as gabirobeiras/ em cada uma eu via tua imagem”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.