'Candide' mostra atrevimentos harmônicos do compositor

Espetáculo de Leonard Bernstein é regido por Marin Alsop

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 de julho de 2014 | 02h00

Leonard Bernstein sempre deixou claro, em escritos e entrevistas, que a longa e feliz era de mútua dependência entre os compositores e o público terminou em 1914, com a eclosão da 1.ª Guerra, com Debussy, Mahler, Richard Strauss e o Stravinski inicial. Dali em diante, a equação virou compositor x público.

Hoje, os novos públicos interessam-se apenas pela música do passado. Infelizmente, perdemos o gosto pela estreia de uma obra inédita. Na "carta aberta ao leitor" de seu livro A Infinita Variedade da Música, de 1966, Lenny aponta, entretanto, algumas exceções. Obras que romperam o fosso, falaram ao público diretamente, por "motivos não musicais": Porgy and Bess, de Gershwin, a Sétima Sinfonia de Shostakovich, Mahagonny, da dupla Weill-Brecht... O “oceano” separando a música contemporânea do público só fez aumentar, diz ele. E sua atitude sempre foi também claríssima: ele optou pela tonalidade e comunicação com o público, usando todos os seus magníficos talentos

Como maestro, redescobriu Mahler a partir dos anos 1960; como compositor, reafirmou a crença na tonalidade, criando um volume significativo de composições para as quais poucos olham com atenção, muito por causa do dogmatismo xiita das vanguardas experimentais. Foi, porém, como "mediador" entre as infinitas músicas, da vanguarda às populares, para usar a expressão de Peter Burke em Cultura Popular na Idade Moderna, que Bernstein exerceu uma genialidade absoluta. Por este último atributo, ele é, sem dúvida, personagem-chave do século 20.

Uma feliz coincidência colocou, na segunda quinzena de junho, suas duas obras-primas híbridas ao alcance de nossos ouvidos, compostas praticamente sem sequência, em 1956 e 57. A primeira, ao vivo e em cores, com solistas internacionais, coadjuvantes brasileiros, a Osesp e regência de Marin Alsop na Sala São Paulo, entre a última sexta-feira e domingo passados, talvez seja a mais atrevida incursão de Bernstein no domínio do musical/opereta (a qualificação pouco importa).

Desafiando a tudo e a todos, por sugestão de Lilian Hellmann, transformou uma obra literária do século 18, Candide ou O Otimismo, de Voltaire, num suculento e mordaz retrato dos ventos macarthistas que sopravam nos EUA da virada dos anos 40/50. A segunda, a reinvenção de Romeu e Julieta, mergulhando o clássico shakespeariano no esfuziante caldeirão multirracial nova-iorquino dos anos 50, transformou-se em outro musical/opereta de exceção: West Side Story.

Michael Tilson Thomas e sua Orquestra de São Francisco, coadjuvando por excepcionais cantores, acaba de lançar uma versão em CD (disponível para download por módicos US$ 10,99 em iTunes).

Tinha dito uma coincidência feliz, mas, na verdade, são duas. Os dois regentes têm sua história pessoal e profissional bastante ligada a Bernstein. Alsop, 57 anos, foi uma das últimas alunas de Bernstein, nos anos 80. Tilson Thomas, 69, teve uma proximidade maior com Lenny e, cá entre nós, julga-se seu sucessor preferencial.

A Sala São Paulo transformou-se num palco da Broadway com a pequena, porém genial, abertura à Rossini: feérica, nervosa, agitadíssima, não deixa ninguém tirar os olhos da regente e da orquestra. Dali em diante, Lenny demonstrou, por mais de hora e meia, seus extraordinários dotes de orquestrador: sonoridades muito bem urdidas no tecido orquestral, combinações de timbres justas porém quase sempre inesperadas, atrevimentos harmônicos deliciosos. Embora não fosse possível contar com cenários, a direção de cena de Jorge Takla nada ficou a dever, por exemplo, à que se pode assistir em DVD da PBS norte-americana de 2006, em que a mesma Alsop rege a Filarmônica de Nova York numa excelente versão de Candide.

Se houve um destaque maior, este foi, certamente, Paulo Szot, nas peles múltiplas do narrador e do Dr. Pangloss. Vendo sua desenvoltura cênica e se encantando com sua voz e competência, fica fácil concluir por que ele é, hoje, rei inconteste na Broadway. A soprano Lauren Snouffer esteve soberba - sobretudo na hilariante ária coloratura digna de um Rossini matador que Lenny deve ter escrito rindo a cada pirueta colocada na pauta. Lauren, por problemas de saúde, foi substituída nas apresentações de sábado e domingo. Ótimo também o tenor Keith Jameson, no papel-título. Paulo Chamié-Queiroz, o narrador II e também governador, saiu-se bem substituindo Marcos Thadeu na última hora.

Um dos mais suculentos atrativos desde Candide foi a narração de Szot em bom português. Ligações com as maracutaias nativas caíram muito bem. Como, logo no início, quando Szot fala que Voltaire concebeu seu Candide para satirizar os tribunais da inquisição. O texto de Bernstein ironiza os tribunais caçadores de comunistas liderado pelo senador McCarthy nos anos 50 em seu país, mas Szot trouxe a atmosfera macarthista para a nossa realidade com uma frase mais ou menos assim: para quem não tinha nascido naquela época, é como se o deputado Jair Bolsonaro comandasse um tribunal ou nos governasse.

Resta anotar a conclusão de Lenny naquele prefácio acima citado: "Sou um fanático amante da música. Não consigo viver um dia sequer sem ouvir, tocar, estudar ou pensar sobre a música. Sou um fã, um empenhado membro do público musical. E neste papel, sinto-me infeliz (...). Deus me perdoe, mas Simon & Garfunkel me dá mais prazer do que tenho no que é hoje escrito pela comunidade inteira dos compositores de 'vanguarda'." Ele abdicou conscientemente de perfilar com os compositores tecnicamente mais antenados com a evolução da linguagem musical. Preferiu tocar nossos corações e ouvidos, de um modo tão emocional e fisicamente impactante, que é impossível resistir a seus encantos.

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