Canções de ninar do mundo inteiro são reunidas em site

Projeto do Instituto Auditório Ibirapuera tem como objetivo criar um acervo de canções e discutir suas origens

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

30 de junho de 2008 | 17h13

Como é que não nos esquecemos das canções de ninar que nossas mães cantavam, se tínhamos bem menos que 2 anos e ainda não decifrávamos o signo da linguagem? Será que chegamos a sentir medo do bicho-papão que estava em cima do telhado, à espreita de uma má-criação? Do bote do boi da cara preta ao insinuarmos uma careta? Ou só sentíamos a melodia tranqüilizadora porque entoada no colo materno? Questões como essas, assim como muitas outras, estão surgindo a partir de uma iniciativa inédita que vem sendo tocada, há cerca de 4 meses de forma mais intensa, pelo Instituto Auditório Ibirapuera: a de montar um acervo de acalantos do mundo inteiro. Veja também:Ouça a canção de ninar 'Dorme Neném'  Ouça a canção de ninar 'Puono Ayntyá Wá'  Ouça a canção de ninar 'Fürs Brüderlein und Schwesterlein'   "Antes de iniciarmos o trabalho, pesquisamos na internet se já havia algum projeto nesse sentido, com o objetivo de reunir canções de ninar de diversos lugares e entender a sua origem. Mas não encontramos nada", conta Mário Cohen, presidente do Instituto Auditório Ibirapuera. É possível que a partir desta terça-feira, 1, dia do lançamento oficial da biblioteca de acalantos pela internet, outras entidades, nacionais ou internacionais, anunciem projetos similares que já vêm sendo tocados nessa área tão inerente à grande maioria dos seres humanos. E isso só servirá para unir esforços na tentativa de compreender como foi mesmo que tudo isso começou. A idéia desse projeto teve início, justamente, a partir de um acalanto. Há cerca de dois anos, Fabiana Marchezi, coordenadora pedagógica da escola do Auditório Ibirapuera, lembrou do acalanto Boa Noite, Meu Bem enquanto tomava banho. "Ocorreu-me, então, que todas as mães do mundo deviam cantar para ninar seus filhos", relembra. A operadora de telefonia móvel TIM, que construiu o Auditório Ibirapuera em outubro de 2005 (e o doou à Prefeitura de São Paulo), desenvolveu um lema que vem ao encontro com a recente iniciativa - "música sem fronteiras". "O acalanto é, sem dúvida, uma música sem fronteiras", arriscou dizer Fabiana em sua lucubração baseada, até então, no empirismo. No entanto, os pouco mais de 90 acalantos que a equipe de pesquisadores do Auditório já coletou ao redor do mundo mostram que, de fato, a afirmação de Fabiana pode mesmo ter um fundamento. O clássico Nana, Nenê, por exemplo, é manifestado com sutis alterações na letra e na melodia tanto no Brasil, quanto em diversos outros países. Em português, é assim mais conhecido: "Nana, nenê/Que a cuca vem pegar/Papai foi pra roça/Mamãe foi trabalhar/Bicho papão sai de cima do telhado/Deixa (o nome da criança) dormir sossegado(a)." Enquanto numa versão espanhola mais enxuta (e um tanto aterradora), cantada pelo biólogo Francisco López, fica assim: "Durma menino/Durma já/Que vem o cuco/E vai te comer." Leandro de Lajonquière, professor titular da Universidade de São Paulo, responsável pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais Sobre a Infância (Lepsi), foi convidado pelo Instituto Auditório Ibirapuera para iniciar um pensamento sobre os pilares do acalanto - e de como eles se transformam com o passar dos anos e de região para região. "A partir da análise da psicanálise, o acalanto se trata de tecer um fio de ordem psíquica e não naturacional. Sem essa fiação - ou filiação - não haveria processo de humanização", afirma. Lajonquière ainda arrisca a dizer que os acalantos, entoados no interior das línguas-mãe, significam muito mais para quem está cantando, em detrimento daqueles que somente escutam. "Quando a mãe canta, ela canta para si mesma: a mãe se tranqüiliza, o filho se tranqüiliza. Ela afaga a criança para que ela pare de chorar, porque amanhã terá de levantar cedo para trabalhar. A letra, assim, acaba se tornando irrelevante e a musicalidade impera sobre o significado daquela história." Essa teoria se reafirma quando assistimos a um vídeo disponível no YouTube da índia Piã, da etnia sateré-mawé, habitante da Amazônia: ela entoa o acalanto Toneke Tontekuku Tow, uma versão indígena para o que conhecemos como Dorme, Nenê, para um macaquinho. "O animal só está ali como suporte", afirma o professor. Um texto de Lajonquière e outro do pianista Marcelo Bratke iniciam o debate e a criação de um pensamento sobre a história dos acalantos, que você poderá ajudar a enriquecer, enviando teses, críticas e sugestões de cantigas de ninar para o site www.auditorioibirapuera.com.br/home_acalanto.aspx.

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