PAULO BARROS
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Canções de Carol Naine entram nos tempos sombrios pela porta do humor

Cantora e compositora carioca que vive em São Paulo prepara o terceiro álbum, mais uma vez, destacado pela originalidade das narrações em forma de crônicas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 06h00

Talvez venha do samba o jeito de pensar canção de Carol Naine. Carioca, 38 anos, que se mudou para São Paulo desde que decidiu mudar também de vida, seguindo os passos da namorada paulista e assumindo a música como foco, Carol é ainda um nome a ser descoberto, apesar de seus dois discos lançados, o primeiro com seu nome, em 2013, e o segundo, Qualquer Pessoa Além de Nós, em 2016. Um dos trabalhos de maior originalidade surgido nos últimos anos, sobretudo na condução das letras e no tratamento ‘cabarístico’ dos pequenos arranjos, Carol prepara o terceiro disco. Ela acaba de conquistar o segundo lugar do Festival Nova Era, realizado no Teatro Sérgio Cardoso, das produtoras Dani Godoy e Débora Ribeiro, com a música China in Box. A campeã foi Dissolveu, com Marina Afares e seu belo grupo.

As comparações incontornáveis que já são feitas com Juca Chaves e Luiz Tatit vêm pela força do cronismo em suas letras e pela entrada em temas espinhosos pela porta do humor. E, assim, nasceram canções como Dizputa: “O indivíduo atinge a idade adulta / E adquire o uso da palavra puta / Diz que é uma puta festa, uma puta produção / Que tá um puta sol, um puta calorão/ Que já comeu o acarajé de uma puta baiana / E o hambúrguer de uma puta americana...”. Mais adiante, fecha o pensamento: “O indivíduo atinge a idade adulta / Ganha umas ideias dentro da cuca / Perde uns cabelos a cima da nuca / Mas não aprende que mulher não se disputa.”

Há feminismo, mas não só. Às Senhoras e Senhores fala dos lamentos do século 21, criticando machismos e valores tradicionais; Canção Clichê fala da tentação dos letristas em escrever sobre o amor, caindo inevitavelmente em clichês; e Mitou, uma marchinha carnavalesca, especula o passeio de uma notícia até que ela ganhe o status de “mito”. Das novas, para um disco ainda sem data de lançamento, o conteúdo dos anteriores, que acabou se tornando político mas que só era crônica social quando foi criado, não aparece com tanta evidência. Carol, em Inevitavelmente, fala de como queria ser a folha de uma árvore para “ter apenas a simples função primordial de tão inevitável, inevitavelmente a da respiração.” Claro que vem crítica aí, mas ela exige inteligência do ouvinte. Esporro diz, sobre apenas dois acordes ao piano, “que esporro é a vida quando não se quer viver um dia”.

A diluição do discurso mais frontal nos materiais novos se dá por um cansaço de Carol. “Eu não aguento mais as discussões sobre política”, ela diz. Algumas canções, sobretudo depois da posse do presidente Jair Bolsonaro, acabaram se tornando um território tenso e causando reações em plateias que interpretavam suas músicas como uma provocação. Você Não é Deus, por exemplo, fez pessoas deixarem o show antes da hora. “Rapaz / Deus não é da cor dos meus / Não é do meu sexo, não tem meus apostos / Não aplaude os meus gostos / Deus não vê o mundo como eu / Rapaz / Deus não tem a grana dos meus / Não frequenta festas, nem a minha igreja / Não é gente fina ou modesta / Não é coisa chique ou que não presta / Não liga com reclamação e não protesta...” A canção precisa chegar ao fim para que o ouvinte saiba que o que ela quer dizer é que as pessoas precisam para de pensar que são Deus.

Carol tem uma dicção clara e um belo timbre, o que permite com que sua metralhadora verbal saia com leveza mesmo nas frases mais rápidas. Além dos álbuns autorais, tem um projeto em que interpreta Adoniran Barbosa e Cartola para mostrar suas diferenças. E ser intérprete, além de autora, é algo que a engrandece. Seu estilo é ume delícia de ser visto, segura um show facilmente, mas pode aprisioná-la se cair nas tentações da repetição. O bom é que ela, como ex-cantora de samba na Lapa do Rio, também conhece bem os outros lados de uma canção.

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