Caminhos da ópera brasileira, por João Luiz Sampaio

Jornalista do 'Caderno 2' lança livro e defende a consolidação, no País, do drama musical como forma de arte

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

27 de março de 2009 | 15h11

Os tortuosos caminhos da ópera no Brasil inspiraram João Luiz Sampaio, repórter do Caderno 2, a organizar uma coletânea de textos em que admiradores da música erudita como ele discutem a trajetória e o futuro desta arte em teatros nacionais. O resultado é o livro Ópera à Brasileira (Algol Editores), conjunto de distintas experiências que será lançado nesta sexta, 27, à noite na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

 

Cena de 'Sansão e Dalila', com regência do maestro Jamil Maluf, exemplo de excelência das óperas dirigidas por brasileiros. Foto: Paulo Pinto/AE

 

Trata-se de uma obra em que Sampaio organizou textos de um punhado de admiradores que, como ele, têm disposição para enfrentar uma luta inglória, ou seja, defender uma política governamental que fomente a criação e a difusão da ópera no Brasil. No texto de introdução, Sampaio, autor de importantes reportagens sobre a área, afirma que nunca se produziu tanta ópera e com tamanha qualidade no País como nos últimos anos. "Mas, quanto mais se produz ópera, mais se descobre, no dia a dia das instituições, os entraves a seu bom funcionamento."

 

A falta de uma política que promova uma produção constante e, com isso, crie hábitos no público, é um dos pecados mais graves. Sampaio, assim como os demais autores dos textos que compõem o livro, defende que a ópera trata essencialmente de temas universais e, ao reunir qualidades de diversas artes, resulta em uma obra extremamente contemporânea, capaz de dialogar com a época atual - e, principalmente, com a emoção do público. Basta, como exemplo, sua própria lembrança: foi uma ópera de Wagner que deixou Sampaio totalmente apaixonado pela arte.

 

Emoção semelhante vivida pelo historiador e professor Renato Rocha Mesquita que, no texto O Olhar do Fã, revela como uma apresentação um tanto precária de O Barbeiro de Sevilha, vista nos anos 1960, foi capaz de lhe despertar nova paixão. Algo tão avassalador que o fã se impõe acumular conhecimentos, buscar detalhes, destrinchar partituras. E, assim, alguns se tornam especialistas, impagáveis em suas análises.

 

É o caso de Lauro Machado Coelho, crítico musical do Caderno 2, que, em seu texto O Triunfo do Bom Senso, enumera importantes observações sobre erros e acertos dos encenadores, especialmente os que deixam a impressão de não terem lido o libreto da ópera antes de conceber o "conceito" da montagem. "Comédia involuntária é o que os diretores provocam com algumas de suas escolhas abstrusas", escreve. "Colocar o pintor Marcello de camiseta, no primeiro ato da Bohème, dependurado num trapézio, cantando ?Rodolfo, io ti dirò un mio pensier profondo: hò un freddo cane!?, só pode suscitar risos."

 

Autor de uma obra seminal, História da Ópera (Perspectiva), coleção que já soma 11 volumes e prevê mais 4, Lauro Machado Coelho é elucidativo também ao comentar sobre o sucesso da transposição no tempo de determinadas óperas. Ou ainda ao afirmar que uma produção bonita não é, necessariamente, sinônimo de uma montagem adequada. "Para se fazer uma boa encenação de ópera, basta ter bom senso e bom gosto", ensina.

 

O aprendizado vem tanto do estudo como da vivência, facilitada, no Brasil, pela boa quantidade de montagens, especialmente em espaços especiais. É o caso do Teatro Amazonas, de Manaus, cujo nascimento se confunde com o auge do ciclo da borracha, no fim do século 19, conforme relata Irineu Franco Perpetuo em Os Novos "Fitzcarraldos". A partir do delírio do personagem imortalizado pelo filme de Werner Herzog, ele traça as desventuras de se levar a ópera ao coração da selva amazônica, como o projeto revolucionário de se montar a tetralogia wagneriana O Anel do Nibelungo, um feito grandioso e à altura de visionários, como os são os autores desse livro.

 

Ópera à Brasileira. Organização de João Luiz Sampaio. Algol Editora. R$ 45, 200 páginas. Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, 3170-4033. Nesta sexta, 27, 19h

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