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Camila Cabello desafia gigantes do pop com o álbum 'Familia'

Contra o vento soprado pelas rockers Olivia Rodrigo e Billie Eilish, cantora vai às raízes cubanas e se coloca em um campo pop híbrido que não se restringe ao reggaeton

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 15h06

As vitórias de Camila Cabello diante das ferrenhas disputas por projeção de pares poderosas como Olivia Rodrigo e Billie Eilish não são apenas musicais. Camila é mulher latinoamericana, nascida em Cuba, e que chegou aos Estados Unidos com seis anos depois de uma viagem de 36 horas com passagens pelo México. Um trauma típico de refugiados, como ela diz. Para fugir das limitações da Ilha de Cojímar, em Cuba, a mãe chegou ao país ainda sem o marido e a colocou em uma escola não bilíngue para poder trabalhar em lojas de departamento enquanto sobreviviam e esperavam a permissão legal para o marido, pai de Camila, entrar nos Estados Unidos.

Camila Cabello se tornou uma menina retraída, tímida, que pouco falava e parecia jamais poder cantar em público, até o dia em que descobriu que poderia fazer isso em seu quarto, trancada e sem testemunhas, olhando apenas para um computador. Quando seus vídeos no YouTube começaram a fazer sucesso, ela resolver ir além. Aos 15 anos, pediu permissão e ajuda aos pais para participar de uma audição do programa The X-Factor, na Carolina do Norte, e seguiu para lá com eles, com a música Respect, de Aretha Franklin, na ponta da língua. E o resto é história.

Agora, sim, faz mais sentido saber de Familia, o álbum que Camila mostra a partir desta sexta, 8, quando já se sabe que ela será uma das atrações grandes do Rock in Rio, em setembro. É seu terceiro disco e, talvez, o mais latinizado de todos depois do estrondo feito com o demolidor hit Havana, em 2017, quando ela tinha 20 anos. Camila vai se tornando grande, vencendo as apostas de baixa longevidade feita por empresários de Miami e apostando em um equilíbrio que parece traduzir o que foi sua vida até aqui: os pés em Cuba, os quadris no México e a cabeça nos Estados Unidos. Familia, Cabello diz, traz todo o valor que ela aprendeu a colocar em cada um de seus familiares e em cada traço de seu passado. Foi muita luta para chegarem até aqui, e parece estar valendo a pena.

Ainda não se faz artistas de alta penetração a partir dos Estados Unidos que cheguem falando apenas espanhol e, apesar de o reggeaton ser o maior fenômeno na música pop desde o quase extinto R&B negro dos anos 90 deixar de dar as cartas, colocando os hispânicos em uma inédita liderança, Camila Cabello se coloca em um espaço novo. Ela não é reggeaton, como a colombiana Karol G, não é nada roquer, o que a distancia de possíveis concorrências como Billie Eilish e Olivia Rodrigo, e passa longe do folk feito por mulheres como a chilena Nicole. E ao mesmo tempo, o que parece ser bom, tudo isso está em Camila.

Familia, a evocação que abre o disco, é um chamamento de trompete mexicano que se tornará logo a faixa Celia, com uma guitarra de calipso africano sobre um ritmo, aí sim, de reggaeton. Psychofreak, nada latinizada, é dividida com a cantora Willow Smith, filha de Will e Jada Pinkett Smith. Uma faixa insossa, esquecível, de passagem. Mas logo vem Bam Bam, o que pode ser o melhor de tudo, e não só por ter Ed Sheeran requebrando seus quadris britânicos mas por trazer algumas das delícias que só os cubanos têm. Seguimos então com La Buena Vida, um flamenco pop bem desenvolvido, e dois instantes para se conectar com jovens que querem sua porção de sofrência norte-americana: Quiet e Boys Don’t Cry. Ainda haverá bons momentos antes do álbum acabar, entre a euforia e a lucidez, com No Doubt, Don’t Go Yet e Lola (com o rapper cubano Yotuel). E algo que faltava, um folk a la Sheeran ou, para lembrar de seu ex-namorado, Shawn Mendes: Everyone At This Party.

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