D. Tonia Grecco, camareira do Teatro Municipal de São Paulo que atua na ópera "Thais", de Massenet
D. Tonia Grecco, camareira do Teatro Municipal de São Paulo que atua na ópera "Thais", de Massenet

Camareira, ex-atriz Tônia Grecco volta ao palco na ópera 'Thaïs'

Aos 75 anos, ela foi descoberta pelo diretor da produção, em cartaz no Municipal de São Paulo

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 18h00

O alto-falante dos bastidores do Teatro Municipal avisa: “Bailarinos, atores, Tônia, para o palco”. A voz soa urgente. Mas dona Tônia não parece preocupada. De longo vestido preto, os cabelos brancos penteados para trás, ela se recosta na cadeira do camarim. “Temos tempo.” Do lado de fora, os atores passam rapidamente pelo corredor. Mas ela insiste, com a tranquilidade de quem está habituada ao palco. “Temos tempo ainda. Onde estávamos mesmo?”

Estávamos no dia, há cerca de um mês, em que ela chegou para trabalhar. Guardou suas coisas e subiu para a cúpula do Municipal, onde aconteciam os primeiros ensaios da ópera Thaïs, de Massenet. As camareiras, ela explica, participam de todo o processo, desde o início. “Meu horário normal é à tarde e à noite. Eu chego e fico até o final do ensaio, costurando. Mas nessa ópera me mandaram vir cedo. E eu obedeci.”

Depois do ensaio, hora do almoço, sua supervisora a abordou: dona Tônia estava sendo aguardada na sala do maestro. “Vou ser mandada embora?”, ela perguntou. “Não sei, acho que não, vai lá.” Ela foi e, na sala, encontrou não apenas o maestro John Neschling, mas membros da equipe de produção e o diretor de Thaïs, o italiano Stefano Poda. “Estou sendo demitida?” – repetiu a pergunta. O alto-falante volta a soar. Bailarinos, atores, Tônia, para o palco. “Agora eu preciso ir.”

Vinte minutos depois, ela está de volta ao camarim. E continua a história. Não, ela não estava sendo demitida. “Eles me disseram: Tônia, senta. É o seguinte: na montagem, há um papel destinado à Thaïs idosa. O Stefano a viu nos bastidores e pensou: é ela. Você aceita? Só tem uma coisa: você vai ter que ficar nua no palco.” Dona Tônia sorri um riso maroto. “Eu disse para eles: olha, estou com 75 anos, nem tudo está no lugar. Mas eles queriam uma resposta logo. Então falei: tá bem, vamos.”

Do lado de fora, as colegas de trabalho a esperavam, ansiosas. Mas ela havia sido orientada a não contar nada para ninguém. Aos poucos, no entanto, todas descobririam que a amiga estava deixando as agulhas de lado. E se preparando para voltar ao palco. Sim, voltar: dona Tônia, antes de trabalhar como camareira, foi atriz. “Eu não saio contando isso aqui pelo teatro, porque as pessoas podem achar você metida e isso eu nunca fui. Algumas até já sabiam, mas sou discreta.”

A carreira nos palcos de dona Tônia teve início aos 14 anos, em São Paulo. “Eu comecei no Balé da Record, dançando. Mas, aos poucos, fui fazendo uns papéis, também.” Trabalhou na Excelsior, na Globo, na Manchete: “Fiz até show com o Sammy Davis Jr., no Copacabana Palace”. No palco, peças a perder de conta, “desde os tempos de Jardel Filho”. Mas não hesita quando indagada sobre o momento mais marcante. “A peça Armadilha para um Homem Só, com a Maria della Costa.”

Há oito anos, porém, ela se viu em uma situação difícil. “Perdi tudo, tudo. Isso mexe com a gente. Mas eu queria ficar perto do teatro. Então virei camareira.” Trabalhou com Claudia Raia, Marília Pera, Regina Duarte, Arlette Salles, Laura Cardoso, Rosamaria Murtinho, “só nomões”. Em 2012, chegou ao Municipal. Mora ali perto, em um pequeno apartamento. “Eu sempre vivi a minha vida. Sou o que sou, e o que tenho eu mereço, não importa que não seja muito. Hoje, recebo essa oportunidade de estar no palco, mas isso acaba. E eu volto para o meu trabalho, feliz.”

A conversa com dona Tônia aconteceu durante o ensaio geral da produção, que fica em cartaz no Municipal até o próximo domingo. Ela, no final das contas, não precisou entrar nua no palco. Mas isso não diminuiu a emoção de voltar à cena. Qual a expectativa dela para a estreia, que aconteceria dois dias mais tarde? “Eu acho que vou chorar. Tem uma cena muito bonita, a Thaïs mais velha entra e recolhe os sapatos do chão, lembrando do passado. Ali, eu sinto as emoções de tudo o que fiz, de tudo o que fui.” E ainda é, dona Tônia.

Thaïs, uma personagem feita de silêncio e desejo

Montagem de Stefano Poda recusa narrativa linear

A cena se repete com frequência na ópera do final do século 19, revelando um dos grandes temas da arte do período: um homem se aproxima do encontro com uma mulher – e o faz consciente de que o episódio poderá significar sua própria destruição. É assim em Sansão e Dalila, em Werther, Carmen, Manon. E em Thaïs, no início do segundo ato, quando Athanaël se aproxima da cortesã para convertê-la e pede a Deus: “Senhor, faça com que a força de seus encantos não triunfe sobre minha vontade”.

Na montagem da ópera em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo, no entanto, a cena serve como exemplo bem acabado justamente da intenção do diretor Stefano Poda de evitar qualquer alusão direta ao período histórico em que a obra foi escrita – ou à Alexandria do século 4.º em que se passa a história. Os dois personagens atuam diante de uma parede feita de fragmentos de corpos humanos. São olhos, peitos, ouvidos que não formam um todo coeso – e nesse sentido sugerem uma realidade que não é corpórea, evocando um outro espaço, mais essencial, da experiência humana.

Essa parece ser a chave para se compreender a produção de Poda, reforçada pela cenografia construída com a noção de permanência da arte na cultura ocidental (estamos falando da própria sobrevida da ópera em pleno século 21?), sugerindo um espaço cênico atemporal. No contexto da suspensão do tempo, ganha vida o que não é linear. O corpo se submete ao silêncio. Resta o desejo – e a percepção que temos dele. Este é um dos grandes temas de Massenet e, aqui, o diretor se aproxima do criador. 

Do ponto de vista musical, foi muito bom o desempenho da Sinfônica Municipal sob regência de Alain Guingal, seja em momentos isolados, seja no arco interpretativo que subentende os contrastes da escrita de Massenet; no caso do Coral Lírico, os elogios precisam se estender ainda ao bom desempenho cênico, notável também na atuação dos bailarinos do Balé da Cidade. 

Como Thaïs, a soprano Ermonela Jaho soube construir com delicadeza e sensibilidade a transformação da personagem – características que faltaram ao Athanaël do barítono Lado Ataneli, de poucos coloridos e desatento às necessidades estilísticas do repertório francês. / J.L.S.


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