DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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'Jogar conquista do povo pela janela é um grave erro', diz criador da Virada Cultural

Carlos Augusto Calil lembra que foi a população quem escolheu o centro como sede dos shows principais e recorda de um episódio comovente de 2006, quando a festa foi realizada uma semana depois dos ataques do PCC em São Paulo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2016 | 18h22

Carlos Augusto Calil foi o homem que desenhou a primeira Virada Cultural para o governo de José Serra, em 2005. Ao saber da intenção de se redimensionar as atrações, levando parte da festa para Interlagos, ele lamenta e lembra das origens de um projeto inspirado nas Noites Brancas de Paris. “A Virada só tem sentido se for realizada no Centro. Seu objetivo sempre foi promover o encontro das pessoas de todas as classes sociais de São Paulo na única data em que isso era possível.” Sobre levar mais atrações para a periferia, uma estratégia que já havia sido adotada em edições anteriores, diz: “A ideia  é a ocupação do espaço público. Quando se leva as atrações para a periferia, você está desestimulando as pessoas a irem para o Centro.”

Ele conta que, quando o projeto surgiu, não havia grandes shows nem verbas maiores do que R$ 5 milhões. “A ideia de se fazer tudo acontecer no Centro veio pelo valor simbólico que ele tem. E, como um milagre, conseguimos fazer com que famílias inteiras fossem para as ruas nesses dias.”

Calil recorda que a abertura da primeira Virada foi marcada para as 14h, no Museu do Ipiranga. “E nada aconteceu”, diz. A produção aprendeu que as pessoas queriam o centro. “Colocamos a abertura então às 18h na região central e funcionou.” A segunda Virada, de 2006, foi histórica. Uma semana antes, o grupo criminoso PCC (Primeiro Comando da Capital) havia ordenado uma série de ataques a policiais em São Paulo. O clima na cidade era de guerra e o fracasso da festa estava anunciado. O então prefeito Gilberto Kassab manteve a decisão de fazer  a Virada. Na hora marcada, as pessoas começaram a chegar, silenciosamente. “Aos poucos,  começaram a transparecer que não estavam com medo. Ali ficou claro que a Virada não era um projeto político, mas uma festa da cidade.”

A violência começou a dar as caras na Virada com a expansão de seu raio de atuação. Ela ganhou o Parque Dom Pedro (que chegou a fazer revistas na plateia) e alguns shows se tornaram mais midiáticos. Os governos passaram a adotar estratégias junto à Polícia Militar e, mesmo assim, tiveram dificuldades. Em 2013 os arrastões se alastraram sobretudo entre meia-noite e uma da manhã. A segurança mudou as operações para os anos seguintes e começou a sufocar os pontos de roubos. Os shows foram tirados da Sé, o contingente foi aumentado, alguns palcos menores suspenderam suas atrações e as luzes de led iluminaram pontos críticos como a Praça da República. A Virada de 2016 pareceu chegar a um equilíbrio inédito entre segurança e diversão, mas pode ter sido a última. “Jogar uma conquista da população pela janela me parece um grave erro”, diz Calil.

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