Calendário do Som em cores vivas

Liberdade é uma expressão que sempre se usou para definir o indefinível na música do múltiplo Hermeto Pascoal. Criador imprevisível e compulsivo, ele chegou ao requinte supremo de compor um tema para cada dia do ano, só para homenagear todas as pessoas do mundo. Incluindo as nascidas no bissexto 29 de fevereiro. Escreveu à mão as partituras de cada um desses 366 temas e as reuniu no livro Calendário do Som. Agora, 27 desses temas chegam a um CD duplo, com o mesmo nome, pela Itiberê Orquestra Família. Hoje e amanhã eles mostram o resultado ao vivo, no Teatro do Colégio Santa Cruz. Produção independente, o CD é distribuído pelo selo Maritaca. A turnê nacional, que começou em novembro pelo Rio, é patrocinada pela Natura, dentro do projeto Natura Musical.A apresentação da Orquestra em Salvador no sábado, foi um dos grandes acontecimentos do 6º Mercado Cultural. Além da alta qualidade da música em si e dos arranjos intrincados, coloridos e de impacto, impressiona como Itiberê Zwarg conduz seus alunos/colegas. À maneira de seu mestre Hermeto, há uma idéia de trabalho coletivo, o que não quer dizer que cada um faça sua parte aleatoriamente. Itiberê lidera com presença de espírito e trata de cada detalhe do conjunto, reservando momentos de destaque para cada instrumentista.O naipe de metais é fortíssimo, o que não impede, por exemplo, que o guitarrista Bernardo Ramos (de 23 anos), exiba seus quesitos de fenômeno, mesmo na condição de ?aprendiz?, como ele se define. De maneira idêntica, a delicadeza das flautas e dos violinos ganha relevo sobre o calor metaleiro numa harmônica e surpreendente teia de timbres e ritmos.Nada é convencional, mas sem exibicionismosNada é convencional, mas Itiberê cuida para que esses procedimentos não se transformem em arroubos de exibicionismo. Desenvolvidos pelos princípios de naturalidade que regem a Escola Jabour, onde Itiberê ensaiou por mais de duas décadas, os improvisadores da orquestra são levados ?mais pela intuição do que pelo virtuosismo pirotécnico?, como diz o maestro.Itiberê usa um método que chama de ?corpo presente?, ou seja: ?Vou criando os arranjos com eles juntos e à medida em que vão tocando e eu escuto me inspiro mais. É uma troca constante.? Experiência semelhante ocorre em relação ao público nos concertos. ?A energia que o grupo coloca ao tocar, a qualidade dessa energia, é muito grande. O público sente isso e devolve na mesma proporção para a gente. É uma grande bola de neve.?Não é à toa que essa carga de intensidade é notável no CD do Calendário do Som. Por sugestão de Hermeto, a Orquestra gravou temas relativos às datas de aniversário de cada um. O primeiro disco abre com 24 de Janeiro (aniversário de Itiberê) e o segundo, com 22 de Junho (nascimento de Hermeto, que participa de quatro faixas).O processo de arranjos dos temas, todos de Itiberê, levou dois anos. A gravação, mais um. ?Colocamos os nomes de todos os músicos em papeizinhos numa cumbuca e fomos sorteando um a um. A cada arranjo concluído sorteávamos outro?, conta Itiberê. Nesse meio tempo, antes de gravar o álbum, eles passaram a tocar os temas prontos nos concertos. ?Quando fomos para o estúdio as músicas já tinham o calor adquirido ao vivo.?Compositor, arranjador, regente, pianista e baixista, Itiberê toca com Hermeto há 29 anos. É o único dos músicos que o acompanham a conseguir manter um projeto paralelo sem deixar o grupo. Foi a partir da experiência como coordenador das oficinas com outros discípulos do ?bruxo? que ele teve a idéia de criar a orquestra. Foi um grande aprendizado, que despertou a vontade de saber tudo sobre polirritmia e harmonia, que agora ele passa adiante. ?Os alunos já sabem também escrever, o que é mais difícil do que ler partitura. Eles podem não ser, até pela pouca idade, grandes improvisadores, mas estão no caminho mais legal do mundo porque fogem dos clichês?, elogia. Nos workshops que realiza por onde viaja com os concertos, Itiberê demonstra na teoria e na prática como funciona esse processo de criação ao lado dos músicos da orquestra. De família mesmo, o grupo (atualmente com 20 integrantes) tem duas filhas do maestro e outra do casamento anterior de sua mulher, Lúcia Casoy. O que prevalece é o conceito de fraternidade ?musical e espiritual?. Não por acaso Hermeto os considera seus netos.Iiberê Orquestra Família. Teatro do Colégio Santa Cruz. R. oboró, 277, 3024-5191. Nesta sexta e no sábado, às 21h. R$ 20.

Agencia Estado,

15 de dezembro de 2005 | 21h27

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