Cake oferece uma alternativa pop

Na prateleira da lojas de discos, Pressure Chief periga passar por um velho disco do Cake. A identidade visual dos trabalhos da banda californiana - a cargo do seu próprio líder, o vocalista, violonista e tecladista John McCrea - é tão forte que todas são muito parecidas em seus desenhos a três cores, cafonas e chinfrins, em seus informações datilografadas numa Remington portátil. Contudo, não nos deixemos levar pela sensação de ?déjà-vu?: o lançamento da Sony Music constitui o melhor CD do Cake desde Fashion Nugget (1996), o dos sucessos The Distance e I Will Survive. McCrea acertou em cheio de novo. Criou uma coleção urgente de canções que são uma mistureba ao mesmo tempo singela e intrincada de pop, rock, soul, country, mariachis e, mais pronunciadamente do que nos outros álbuns, eletrônica e música-clássica-revista-pela-discoteca. Nada pretensioso, apenas um climão Hooked on Classics. Quase todas as 11 faixas de Preassure Chief são tão dançantes quanto melancólicas, adequadas à hipotética espelunca de beira na fronteira dos EUA com o México onde a banda senta praça há dez anos. Ao fundo, afinal, há sempre o trompetinho abolerado de Vincent di Fiore. Se, em Fashion Nugget, o Cake relia, de uma maneira hilariante e destemperada o velho ?hit? de Gloria Gaynor (que, graças ao grupo, acabou sendo exumada para festas em danceterias ao redor do globo) dizendo que ia sobreviver contra todas as evidências, aqui a escolha de um ?cover? ganchudo recai sobre Guitar Man, chorumela do grupo Bread, soft-roqueiros dos anos 60 e 70. McCrea acrescenta tons dramáticos insuspeitados na composição de David Gates, eterna presença em FMs sem imaginação. Esta, porém, não é a música que puxa o novo CD. A tarefa fica com a eremita No Phone, sacudida pelos acordes de guitarra do co-autor Xan McCurdy e pelo baixo supimpa de Gabriel Nelson. Entende-se: o balanço sempre atrai a audiência. Há outra música particularmente dançante em Pressure Chief, a derradeira, Tougher than It Is, parceria de McCrea com Nelson, rasgada por um solo de trompete. Além de botar os esqueletos para sacudir, essa faixa cumpre a função de amenizar um pouquinho o clima depois de tantas canções sobre solidão, desamor, poluição. "Algumas pessoas tornam a vida mais difícil do que ela é", canta McCrea, naquele característico jeitão coloquial. Pouco antes, em End of the Movie, uma curta balada country, ele falava de pessoas que mesmo abandonadas pelos amigos e espezinhadas pelos inimigos se recusam a deixar o cinema antes do fim do filme. Bela metáfora para a desistência e/ou o suicídio. Consigo eleger duas favoritas no excelente lote de Pressure Chief: Take It All Away e Dime, emendadinhas antes da sufocada Carbon Monoxide, recado ao país poluidor-mor que não assinou o Protocolo de Kioto. A primeira é quando os toques disco-sinfônicos se tornam mais audíveis graças a um falso ?pizzicato?, aquele pinçamento das cordas de uma orquestra (só que não há orquestra nenhuma por perto, claro, isso seria anti-Cake). Como I Will Survive, essa é uma lavagem de roupa suja. "Vá em frente e destrua isso", recomenda McCrea à (des)amada. "Melhor trazer um exército." Dime é ainda mais desolada, ao falar de um cara que se sente uma moeda de 10 centavos de dólar desprezada. "Sou um presidente do qual você não se lembra sendo chutado por aí", define a letra, melodramaticamente. Para levar a música adiante, o Cake encontrou um ?riff? no sintetizador recauchutado que gruda na memória como uma praga. A gente fica assobiando a seqüência de acordes dias afora. Impossível dizer quais de seus quatro membros pôs o ovo em pé: todos tocam teclados. E também não é por falta de baterista oficial que seus discos seriam disrítmicos: McCrea e Di Fiore se viram na percussão e McCurdy e Nelson, na bateria. Muito bem, aliás. Este espírito de cooperativa é audível nos enxutos 36 minutos do CD gravado num estúdio caseiro da sua Sacramento natal. Pressure Chief renova a sugestão de Motorcade of Generosity (1994), Fashion Nugget, Prolonging the Magic (1998) e Comfort Eagle (2001): é possível fazer música que seja simultaneamente pop e alternativa.

Agencia Estado,

23 de novembro de 2004 | 22h09

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.