Caixa traz todos os Vinicius em 27 Cds

Um dos Vinicius de Moraes - nem os filhos poderiam imaginar - foi hippie. Não que tenha sido visto com calça boca-de-sino fumando cigarros de maconha em festivais de rock. Mas agora, fato comprovado, sabe-se que ele encarnou como poucos, aos 60 anos de idade, o espírito paz e amor. Foi em 1972, quando topou, por razões ainda obscuras, assinar versões em português para canções da ópera rock Jesus Cristo Superstar. Outro Vinicius foi o prevenido, e talvez o único artista-diplomata. Em viagens a serviço do governo federal, no início dos anos 60, comprou um gravador portátil de rolo, então inexistente no Brasil. Com ele, não perderia mais as idéias que lhe viessem à cabeça. Imortalizou, assim, declamações e versões de músicas que, até esta semana, nunca haviam sido divulgadas. O Vinicius sombrio e os outros mais populares, como o bossanovista parceiro de Tom Jobim e Carlos Lyra, o sambista de terreiro, parceiro de Baden Powell, e o dos choros e canções, parceiro de Toquinho - estão, enfim, lado a lado. Todos eles foram parar na caixa Vinicius de Moraes - Como Dizia o Poeta, resultado do esforço de uma pesquisa que levou um ano e que reúne 27 discos e um livreto com letras, algumas fotos e um breve histórico da movimentada trajetória do "poetinha". A novidade, porém, vai custar caro: R$ 550. Embora vasta, a coleção não encerra uma obra completa. Marcelo Fróes, o produtor, não conseguiu a liberação para incluir no projeto gravações feitas por Vinicius no exterior. Ficou de fora, por exemplo, um raro disco duplo gravado em parceria com a portuguesa Amália Rodrigues, em 1968. Desses 27 discos, muitos não estavam mais em catálogo ou jamais haviam sido lançados em CD. Enquadram-se nestes últimos o importante Os Afro-Sambas, gravado com Baden Powell em 1966, e a inauguração da dupla Jobim-Moraes de Orfeu da Conceição, de 1956. Três títulos salvam a caixa de se tornar um mero, embora instigante, "vale a pena ouvir de novo". Em Lances de Vinicius 1 e 2, vêm à tona sobras de estúdio e gravações de fitas de demonstração (demos) com músicas e declamações, provavelmente feitas entre 1960 e 1962. As compilações têm momentos bem especiais. Em A Hora Íntima, Vinicius desmorona-se: "Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Quem dentre amigos tão amigo para estar no caixão comigo? Quem em meio ao funeral dirá de mim: nunca fez mal. Quem, bêbado, chorará em voz alta de não ter me trazido nada?" Os quatro takes encontrados do Soneto de Separação (1, 2, 4 e 5), não usados no LP duplo Antologia Poética, de 77, lembram o último encontro com o parceiro Jobim em estúdio. Três anos depois, Vinicius morreria, vítima de edema pulmonar. Já endinheirado até não poder mais, com Garota de Ipanema sendo regravada pelo mundo todo, Tom Jobim tira um sarro com o poetinha no final da sessão. Ao terminar o último take, solta um "money is beautiful" (dinheiro é maravilhoso), satirizando os que o acusaram de fazer participações em discos alheios apenas por dinheiro. Surpresa, ele foi hippie - Ninguém sabe exatamente o que levou Vinicius, prestes a estrear sua parceria com Toquinho, a aceitar verter para o português o musical Jesus Cristo Superstar, açoitado sem piedade pela crítica internacional quando lançado por Weber e Rice. "Não sabia disso. Nem consta na biografia que escrevi", surpreende-se o escritor José Castello, biógrafo de Vinicius em O Poeta da Paixão, de 94. Feita talvez por dinheiro, talvez por mulheres, talvez por amizade com produtores, o fato é que a produção resultou, para não dizer confusa, esquisita. Por mais que se saiba que o homem que se casou nove vezes dormia um e acordava outro quase todos os dias, ouvir suas letras cantadas em uma ópera-rock de gosto bem duvidoso choca. "Nos reunimos todos os irmãos em casa para ouvir o disco e foi uma grande surpresa. Não imaginava que meu pai havia sido mais hippie que eu", conta Luciana de Moraes, idealizadora do projeto. "Não diria que foi um erro. Talvez tenha sido um dos poucos equívocos de Vinicius. Mas não dá para dizer porque ninguém sabe o que o levou a aceitar isso", opina Fróes. O homem que havia feito Os Afro-Sambas, em 66, era outro. Com Baden Powell ao violão, declamava versos a entidades de religiões afro com grande reverência e propriedade. Mas a história comprova que algo cheira a mais uma genial peça pregada pelo poeta. O fato é que, conforme lembra Silvia Paula, ex-mulher de Baden, Vinicius não havia ainda "entrado" para o candomblé quando sentou-se com o violonista para criar os temas. "Ele só faria isso no começo dos anos 70, quando conheceu a Jesse. Vinicius e meu marido resolveram fazer o disco porque o Baden tinha ido à Bahia saber o que era capoeira e voltou contando histórias de lá. Vinicius, que era um grande estudioso, se empolgou e passou a escrever. Ele não tinha a vivência na religião, mas sabia tudo." Já filho de Oxalá e Xangô, em 1974, Vinicius sai em turnê pelo País com Toquinho e o Quarteto em Cy para homenagear os Pablos - Picasso, Casals e Neruda. As apresentações, que resultaram no álbum Saravá Vinícius!, alimentaram o acervo do poeta com mais um episódio impagável, lembrado aqui por Toquinho: "Ele terminou a declamação de um poema em memória aos três Pablos mandando o ano de 1973 para a p... que o pariu. Foi uma bobagem, mas os militares não gostaram nada." Pelo "comportamento inconveniente", Vinicius ficou proibido de fazer shows por 30 dias. A caixa ainda traz os discos Vinicius e Odete Lara (1963), Vinicius e Caymmi no Zum Zum - ao vivo (1965), Vinicius - Poesia e Canção 1 e 2 (1966), Garota de Ipanema - trilha sonora do filme (1967), Vinicius de Moraes (1967), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o Poeta..Vinicius, Maria Medalha e Toquinho (1971), Toquinho e Vinicius (1971), As canções e a voz de Maria Medalha na Poesia de Vinicius de Moraes (1972), Vinicius Canta: "Nossa Filha Gabriela (1972), O Bem Amado - trilha sonora da novela (1973), Fogo Sobre Terra - trilha sonora da novela (1974), Vinicius e Toquinho (1974), Vinicius/Toquinho (1975), O Poeta e o Violão - Vinicius e Toquinho (1975), Deus lhe Pague (Músicas de Edu Lobo e Vinicius de Moraes) (1976), Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha (1977), 10 anos de Toquinho e vinicius (1979), Um pouco de Ilusão - Toquinho e Vinicius (1980).

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