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Caixa reúne gravações históricas de Agostinho dos Santos

Oito LP's gravados pelo cantor entre 1958 e 1966 são relançados com textos originais dos encartes

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2014 | 20h20

Às 14h30 do dia 11 de julho de 1973, o piloto do Boeing 707 da Varig, Gilberto Araújo da Silva, emitiu um alerta verde para a torre de comando do aeroporto de Orly, na França. Poucos segundos depois, ele enviava outra mensagem, desta vez de alerta vermelho, informando que havia fogo na aeronave.

Em seguida, uma das maiores tragédias da aviação brasileira se confirmaria. O avião, que saíra do Rio com destino a Londres, com escala em Paris, caiu num enorme campo de cebolas, a poucos quilômetros do centro parisiense, resultando na morte de 122 dos 134 passageiros do voo 820. A perda para os familiares se estendeu também para fãs da música brasileira, já que o passageiro de número sete daquele avião era Agostinho dos Santos, um dos cantores mais respeitados no País na virada da década de 1950 para a de 1960.

Mais de 40 anos depois da morte do artista, discos gravados por ele entre 1958 e 1966 são relançados em duas caixas com oito CDs pelo selo Discobertas. O material dos boxes traz o repertório de oito LPs, além de gravações menos conhecidas, pinçadas de discos de 78 rotações e compactos. 

Entre as raridades, está, por exemplo, a interpretação de Agostinho para Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), lançada em um 78 rotações em dezembro de 1958, poucos meses depois da primeira gravação do samba-choro feita por João Gilberto. As caixas trazem também preciosidades como Ontem, versão em português para Yesterday, dos Beatles, Noite Feliz (Franz Gruber), além de outros clássicos da fase bossa nova do cantor, como Desafinado (Jobim e Newton Mendonça) e O Barquinho (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli).

Ao longo dos últimos anos, as gravações de Agostinho foram relançadas em diversas coletâneas. Agora, o que chega ao público são reedições fiéis dos discos de carreira daquele que é considerado um dos crooners mais completos do país no século 20. As caixas relançadas agora também reproduzem na íntegra os textos originais das contracapas da época, que, além de elogios rasgados ao artista, apresentavam um contexto musical do período. No texto do LP Agostinho Espetacular (1958), por exemplo, Hélcio Carvalho de Castro define o cantor da seguinte maneira: “Filho do povo, Agostinho dos Santos canta para o povo. Não se complica na procura desesperada de ‘nuances’ enganadoras e falsas”.

Além desse disco, que traz Balada Triste (Dalton Vogeler e Esdras Silva), sucesso na voz de Agostinho, o cantor paulistano defende um repertório extremamente variado, com nomes como Dolores Duran (A Noite do Meu Bem), Noel Rosa (Palpite Infeliz), Luiz Bonfá e Antonio Maria (Manhã de Carnaval), Lupicínio Rodrigues (Eu Não Sou de Reclamar), Johnny Alf (Céu e Mar), Durval Ferreira (Moça Flor), Guerra Peixe (Um Olhar, Um Sorriso), entre outros.

“Ele foi o grande crooner daquela fase anos 50/60, em que havia toda uma tradição de cantores boleristas, mas que também exigia um ecletismo no intérprete para cantar bossa nova, romântica ou com balanço. Ele soube transitar muito bem nessa fase e merece ter sua obra reavaliada e inserida num contexto que parece ignorar Agostinho até agora”, diz Marcelo Fróes, da Discobertas.

Exemplo dessa versatilidade de Agostinho é a quantidade considerável de temas latinos gravados pelo artista, com destaque para um álbum gravado pela RGE a pedido da Venezuela, onde o cantor fazia sucesso. No repertório, o crooner enfileira boleros como Solamente Uma Vez (Agustín Lara), Noche de Luna (Gonzalo Curiel) e Amor de Mis Amores (Maria Teresa Lara).

“Ele tinha aquela voz aveludada, uma personalidade própria de cantar, muito original pra época. Passeava por todos os estilos musicais como o samba, a bossa nova, o rock. Tinha um timbre de voz inconfundível, um vozeirão, uma das maiores vozes que nós já tivemos”, conta o violonista e neto de Agostinho, Thiago dos Santos, que ajuda a preservar a obra do avô com um blog e com o Centro Cultural Agostinho dos Santos, em São Bernardo, dirigido por Nancy Santos, filha do músico.

Nancy, aliás, foi parceira do pai na faixa Paz Sem Cor, relançada ano passado também pela Discobertas em uma caixa que trazia discos de Agostinho lançados originalmente entre 1967 e 1973. Com uma tiragem de apenas 500 exemplares, aquele box deve retornar às lojas.

“Paz sem Cor me emociona muito. Meu avô cantaria essa música no festival na Grécia, para onde ele estava indo quando infelizmente faleceu naquele acidente de avião. Meu avô e minha tia fizeram a música lembrando que meu pai foi vítima de preconceito quando era criança em um clube de esportes de São Paulo, esse disco me emociona muito”, lembra Thiago.

A faceta de compositor de Agostinho também é lembrada nas duas caixas. São de autoria dele canções como Forças Ocultas e Distância É Saudade.

No dia seguinte à queda do avião em Paris, em 1973, jornais brasileiros diziam o seguinte sobre o cantor: “‘Não soube aproveitar o sucesso. Não ganhei o dinheiro que deveria. Mas eu sempre fui tolo. Nunca quis apelar’, costumava dizer aos amigos que estranhavam o ostracismo em que vivia, apesar de ser considerado por muitos o melhor cantor do Brasil”.

"Ele foi o meu padrinho musical", diz Milton Nascimento

Foi Agostinho dos Santos mesmo que inscreveu suas músicas no 2º Festival Internacional da Canção? Como foi essa história? 

Eu estava um pouco decepcionado com o clima de guerra entre os artistas e o público que encontrei em 1966, no Festival Berimbau de Ouro, e prometera a mim mesmo jamais participar de outro concurso. Agostinho, que tinha me visto tocando num bar em São Paulo, queria tirar isso da minha cabeça e, um dia, chegou e disse que ia fazer um disco novo e que precisava de três músicas para, junto com o produtor, escolher uma. Gravei Morro Velho, Maria Minha Fé e Travessia, e, em vez de colocá-las num álbum, Agostinho inscreveu no festival, escondido de mim. A primeira pessoa a me contar que eu tinha classificado as três músicas foi Elis Regina, que havia encontrado numa tarde na rua. Ela chegou pra mim e disse: “Parabéns, você está no festival!”. E eu respondi que não tinha feito inscrição nenhuma. Daí ela falou: “Nossa, então tem outro Milton Nascimento!”. Aquilo quase me matou, saí dali pensando um monte de coisas, que teria que mudar de nome, etc... Até que eu escuto uma risada atrás de mim, era o Agostinho rindo da minha cara. As três músicas foram classificadas, Maria Minha Fé na voz de Agostinho, e as outras duas comigo cantando. Travessia acabou ganhando o segundo lugar e eu ainda levei o prêmio de melhor intérprete. Agostinho é o responsável por tudo isso, eu jamais teria participado de outro festival se não fosse pelo plano montado carinhosamente por ele. Ele foi meu padrinho musical e uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Qual a importância e o legado deixados por ele para a música brasileira? Ele foi um dos precursores do canto moderno no País?

Sem dúvida! Agostinho foi um dos grandes astros da música brasileira enquanto esteve conosco, mas infelizmente partiu muito cedo. Essa foi uma das maiores perdas da minha vida, assim como Elis. Sem falar que o Agostinho era um cara com muitas preocupações sociais, e pouca gente comenta isso. Foi ele que me levou ao Clube Aristocrata, em São Paulo, um clube só de pretos que era muito ativo no cenário político da época. E um dos caras mais respeitados naquele meio de artistas, músicos e intelectuais era justamente o Agostinho.

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