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Caixa mostra Jorge Mautner pop dos anos 80 com um registro inédito ao lado de Gil

Quatro discos lançados pelo selo Discobertas cobrem a fase com intenções mais radiofônicas do poeta, que vai de 1981 a 1988

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2015 | 03h00

A linha do tempo de Jorge Mautner chega aos anos 1980. Depois da série 'Três Tons' reconstituir, no ano passado, os três primeiros álbuns do artista, lançados no início dos anos 1970, 'Anos 80 – Zona Fantasma', realizada pelo Selo Discobertas, traz quatro discos gravados sob um cenário completamente diferente. Agora, as gravadoras não estão mais abertas ao experimentalismo, o Rock in Rio consagra o rock nacional como a bola da vez, as emissoras de rádio FM entram no jogo e as tesouras da censura enferrujam.

Mautner e os homens que o cercam tentam tudo logo de cara, em 1981, quando produzem 'Bomba de Estrelas'. As rádios FM se tornavam um fenômeno e entrar em sua programação é um desafio. Produzido por Chico Neves e Liminha, 'Bomba' reembala o artista com arranjos pop da época, domesticam suas métricas e escalam uma constelação. Gilberto Gil, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Amelinha e Robertinho de Recife. As parcerias e a poética de Mautner rendem um disco com momentos sublimes, como os sambas 'A Força Secreta Daquela Alegria', com Gil; e 'Tá na Cara', com Moraes Moreira. Apesar da operação em estúdio, nada emplacou.

Marcelo Froes, responsável pela reedição do projeto, que conta ainda com outros três discos – 'Anti Maldito' (de 1985), 'O Poeta e o Esfomeado' (inédito, mostrando show-manifesto feito ao lado de Gil, em 1987) e 'Árvore da Vida' (de 1988) – observa as diferenças do Mautner dos anos 1970 para os 1980. “Discograficamente falando, os discos dos anos 70 pareciam mais intuitivos, gravados em oito canais quase ao vivo no estúdio. Nos anos 80, os discos já eram mais produzidos, em 24 canais, dá para perceber ele se divertindo bem em Anti Maldito.”

O tratamento comercial é intensificado em 'Anti Maldito', produzido por Caetano Veloso. Os sintetizadores chegam com força logo em 'Cinco Bombas Atômicas' e a forma fica mais justa para a voz. É interessante ouvir o cabo de guerra travado nas entrelinhas. Enquanto a produção puxa o artista para uma linguagem mais abrangente, sua própria essência parece tornar o projeto de domesticação uma utopia. O indomável Mautner não cabia nas rádios da década de 80.

Os textos das capas são assinados pelo jornalista do Estado, Renato Vieira. Olhando para trás, ele analisa os dois primeiros discos, de 1981 e 1985. “São dois discos bem produzidos, além de diferentes entre si, e a linguagem do Mautner, que é universal, se encaixou perfeitamente com a sonoridade de cada um. Ouvidos sob a perspectiva do tempo, 30 anos depois, eles continuam atuais. Mas, nos anos 1980, além da questão mercadológica começar a superar a musical, o BRock dominou o mercado. Acho que as tentativas foram válidas, o timing é que foi errado.”

'O Poeta e o Esfomeado' é um registro com força de documento, uma gravação de 1987 com Mautner, Gil e o percussionista Reppolho que lançavam, durante uma temporada que incluiria 49 shows (Gil foi sozinho ao último, em Cuba, já que Mautner estava doente), um movimento poético-político, que não foi à frente, batizado de Figa Brasil. E 'Árvore da Vida', assinado com o parceiro de anos, Nelson Jacobina, fazia uma limpeza estética, recolocando Mautner de volta aos braços da liberdade de sua voz, de seu violino e do violão de Nelson Jacobina. “Minha vida foi falar da grandeza da cultura brasileira e de um holocausto, nunca mais. Não faria nenhum disco diferente”, diz Mautner. 

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