Caixa de CDs é a mina de ouro do papa do suingue, Jorge Ben

No total, são 13 álbuns clássicos, lançados pela Philips entre 1963 e 1976, em mais uma compilação de raridades

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

02 de dezembro de 2009 | 05h00

Jorge Ben e seu indispensável e incomparável violão em 1969, ano em que lançou 'País Tropical' em LP de tintas tropicalistas, com arranjos de Rogério Duprat. Foto: Arquivo/AE

 

 

SÃO PAULO -  Bons tempos aqueles em que Jorge Ben Jor era "só" Jorge Ben. Nada de saudosismo, porém. Seus álbuns lançados pela Philips nas décadas de 1960 e 70 são clássicos - atemporais, portanto. Sempre tocam nas festas de som vintage, nunca saíram das pistas de bailes de samba-rock, nem dos players caseiros de dezenas de jovens músicos, que até hoje se inspiram neles. Fora de catálogo há muito tempo, 13 álbuns que Ben lançou entre 1963 e 1976 voltam remasterizados e reunidos na caixa Salve, Jorge!, da Universal.

 

Em 1967, Ben lançou O Bidu (Silêncio no Brooklin), pela gravadora AU, além de compactos que hoje são raridades, com A Minha Menina, Queremos Guerra, Salve-se Quem Puder e Tê Tê Tê Tê Tereza. Isso tudo ficou de fora da caixa, mas o que tem já é uma imensa e valiosa mina de ouro do papa do suingue - para quem se interessar em garimpar boa parte do que de melhor se fez na música pop afro-brasileira. Todos os discos já tinham saído em CD, mas a maioria sem muito cuidado, naquela pavorosa série Colecionador, e logo sumiram de circulação.

 

A caixa inicia-se e encerra com dois álbuns históricos, inovadores. Obrigatório em qualquer discoteca básica de música brasileira popular, Samba Esquema Novo, de 1963, é o revelador álbum de estreia. Como diz o título, Jorge Ben criava ali uma nova batida para o samba, pós-bossa nova, fazendo do violão um instrumento de ritmo, dispensando o contrabaixo da orquestra, como comentou Armando Pitigliani na contracapa do LP. Foi com essa batida original que o nome Jorge Ben virou um estilo em si. No repertório, pelo menos três clássicos instantâneos: Mas, Que Nada!, Chove, Chuva e Por Causa de Você, Menina.

 

Quando África Brasil (1976) foi relançado em CD na série Samba & Soul, Charles Gavin comentou que tudo o que sempre se quis saber sobre samba-rock estava naquele disco. Misturando o suingue do samba com funk e rock pesado, Ben evoluía na mistura que ele próprio criou e que até hoje ferve nas pistas para casais de dançarinos malabaristas rodopiarem. O disco de 76 abria e fechava com dois tijolaços: Ponta de Lança Africano (Umbabaraúma), regravado pelo Soulfly décadas depois, e a faixa-título, remake de Zumbi. Foi nesse disco que ele também registrou uma das inúmeras versões de Taj Mahal, sempre parecido, mas diferente.

 

Outro dos mais importantes dessa fase é A Tábua de Esmeralda (1974), que tem Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas, Hermes Tri e Errare Humanum Est, com letras de temática e referências existencialistas e mágicas, como a tábua que dá título ao disco, cujo texto foi escrito pelo faraó egípcio Hermes Trismesgisto, homenageado também em África Brasil. Tem também a sensacional gravação original de Zumbi e outros hits - Minha Teimosia, Uma Arma pra te Conquistar e O Namorado da Viúva, entre eles.

 

Em 1964, o compositor lançou dois álbuns, Sacundin Ben Samba (o que menos gerou hits) e Ben É Samba Bom, em que misturava samba, gafieira e bossa nova, surpreendendo mais uma vez. Poucas vezes ele gravou composições alheias, e nesse álbum acertou em cheio ao trazer para seu universo sonoro Oba-la-lá, de João Gilberto, e Onde Anda o Meu Amor, de Orlan Divo e Roberto Jorge. Outros destaques do álbum são Descalço no Parque e Bicho do Mato, em cujo suingue Elis Regina também mergulhou e deu banho.

 

Big Ben (1965) deixou para a posteridade Quase Colorida e Agora Ninguém Chora Mais, entre outras que viraram cult no meio do samba-rock. Salto para 1969, com o álbum homônimo de capa tropicalista e um punhado de sucessos: País Tropical, Cadê Tereza, Take it Easy My Brother Charles (que levanta mais do que Viagra em qualquer festa), Bebete Vãobora, Charles, Anjo 45, Crioula. O mago da Tropicália Rogério Duprat assinou os arranjos de Barbarella e Descobri Que Sou Um Anjo. De Força Bruta (1970) se destacam Oba, Lá Vem Ela, Mulher Brasileira e O Telefone Tocou Novamente.

Negro É Lindo (1971) tem uma de suas mais sensuais e felizes canções de amor, de letra cinematográfica, Que Maravilha, em dupla com Toquinho, em versão mais lenta do que a do parceiro. Ben (1972) é outro dos mais fecundos, mais parecendo uma compilação de greatest hits: Morre o Burro, Fica o Homem, O Circo Chegou, Paz e Arroz, Domingo 23, Quem Cochicha o Rabo Espicha, Caramba!... Galileu da Galiléia, Taj Mahal, entre outras. De tirar o fôlego, um dos prediletos de Caetano Veloso, que tantas vezes gravou e incensou Ben. Fio Maravilha foi consagrada por Maria Alcina no Festival Internacional da Canção daquele ano, mas depois Ben passou a cantar "Filho" Maravilha, porque o jogador de futebol recorreu à Justiça contra ele.

 

Em 1973, Ben entrou em estúdio para gravar alguns pot-pourris (ou medleys) com seus clássicos em 10 Anos Depois. Como 12 anos antes, em 1975 também lançou dois álbuns, Solta o Pavão (destaque para Zagueiro e Jorge de Capadócia) e um dos mais espontâneos, cultuados e inusitados desse período: Gil & Jorge. No estúdio, ele e Gilberto Gil, fundindo profundas referências da música negra de Rio e Bahia, sem necessariamente fazerem samba, juntaram seus impressionantes violões, fazendo uma enérgica jam session com eventuais participações de Djalma Corrêa (percussão) e Wagner (baixo). As longas versões de Quem Mandou (Pé na Estrada) e Taj Mahal, de Ben, Jurubeba e Filhos de Gandhi, de Gil, são hipnóticas. Uma síntese de afro-brasilidade, que merece ser celebrada. Salve, Jorge!

 

Peças raras

 

Ficaram de fora da caixa Salve, Jorge! dois álbuns nunca lançados em CD: Tropical (1977) e o ao vivo À l’Olympia (1975), que Jorge Ben gravou no exterior, depois foram editados aqui. Em compensação, o box traz uma boa compilação de raridades em CD duplo, sugerida pelo pesquisador Rodrigo Faour. São faixas que Ben lançou em compactos ou foram incluídas em álbuns coletivos, como é o caso de A Lua É Minha, de 1972, a sensacional Jazz Potatoes (1973), incluída na trilha da novela Beto Rockefeller, Sem Essa n.º 5, incluída no álbum Máximo de Sucessos n.º 13, Tô Com Deus, Tô com Amor, do LP Orações Profanas, e Lá Vem Salgueiro (1972), do álbum Quando o Carnaval Chegou. Além de várias faixas inéditas, há também versões ao vivo e takes alternativos de canções incluídas nos álbuns de Ben, como Mas Que Nada (em duas versões), Descalço no Parque, Dorothy, Sai de Mim Mulher e Olha a Beleza Dela (Olha o Balaio Dela), entre outras. Algumas realmente valem o selo de raridade, outras são meras curiosidades para fãs mais radicais. Mano Caetano, que Ben gravou com Maria Bethânia em 1972, por exemplo, não é raridade nem na Capadócia. Já saiu na caixa de Bethânia. Mas, enfim, é muito boa.

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