Marcos de Paula/ Estadão
Marcos de Paula/ Estadão

Caixa com quatro álbuns documenta os primeiros passos solos de Moraes Moreira

Discos lançados entre 1975 e 1979 evidenciam a formação da personalidade do cantor e compositor

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2014 | 03h00

Há 40 anos, Moraes Moreira tomou uma decisão: sair do sítio onde morava com seus companheiros de Novos Baianos no Rio. Casado e com dois filhos, achou que era hora de conquistar um espaço para si e sua família, continuando no grupo. Os outros membros recusaram. Para eles, só a vida em comunidade caracterizava a união musical.

Com um pouco de medo, tristeza e algumas músicas no bolso, Moraes decidiu seguir seu caminho. Os primeiros passos dessa jornada estão documentados no box Moraes Moreira Anos 70, com os quatro álbuns iniciais de sua carreira. Lançados originalmente entre 1975 e 1979, evidenciam a formação da personalidade do cantor e compositor como artista solo.

"Foi um recomeço difícil. As pessoas com quem eu fazia música ficaram para trás. A solução era mostrar a minha cara", lembra Moraes, que incorporou em seu trabalho pitadas de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, ídolos ouvidos quando criança em Ituaçu, no sertão baiano. A cidade onde Gilberto Gil passou parte da infância e juventude, bebendo da mesma fonte.

Moraes decidiu fazer uma "declaração de afirmação" em seu primeiro disco solo, que chegou às lojas em 1975. Para acompanhá-lo, convocou músicos que futuramente formariam A Cor do Som: Dadi (baixo), também recém-saído dos Novos Baianos, Armandinho (bandolim, guitarra, craviola e guitarra baiana), Mu Carvalho (piano) e Gustavo Schroeter (bateria). O samba com toques roqueiros, um dos alicerces de seu antigo grupo, passou a dividir espaço com ritmos regionais e sons do trio elétrico de Dodô e Osmar.

Não por coincidência, o primeiro disco de Moraes leva apenas seu nome. A faixa de abertura, Desabafo e Desafio, reforça em versos a ideia de personalidade e desejo individual. "A foz do rio/ a minha voz/ a minha vez/ a vez de nós." Entre as faixas, a regravação de Se Você Pensa é a mais curiosa. O arranjo foi feito ainda nos anos 1960, quando o artista tocava em bailes na Bahia. Ouvida hoje, é possível identificar recados aos antigos companheiros, como "o seu orgulho não vale nada". Segundo ele, inconscientemente, pode ter sido essa a intenção, ainda que a ideia tenha sido simplesmente homenagear Roberto e Erasmo Carlos, os autores.

Moraes Moreira obteve uma repercussão modesta, passando a ser cultuado no decorrer dos anos. Possivelmente por conservar algo de Novos Baianos, já que inclui músicas feitas com Galvão no início do grupo, Chinelo do Meu Avô e Anda Nêga. "O disco ficou para a posteridade. Mas mostrei que podia continuar fazendo música, sem que o rótulo de ex-novo baiano me seguisse", afirma Moraes, que consolidaria sua personalidade solo em Cara e Coração (1977). É o álbum que traz Pombo Correio – tema instrumental de Dodô e Osmar letrado por Moraes que foi usado na abertura do Jornal Hoje e em propaganda dos Correios – e Davilicença. "Armandinho é a base do disco. Praticamente todas as músicas são conduzidas por ele. Sua sonoridade me segue até hoje", ressalta.

Reencontros e aproximações definitivas norteiam o disco seguinte, Alto Falante (1978), outro de pouco impacto comercial. Pepeu Gomes volta a tocar com seu colega de Novos Baianos, dando suporte a Armandinho, que no álbum fica "apenas" com o bandolim e a guitarra baiana. Espírito Esportivo, que fez parte da trilha da novela Pai Herói, é quase um duelo entre ambos. Abel Silva e Fausto Nilo, com quem Moraes iria compor futuramente Festa do Interior e Bloco do Prazer, respectivamente, ampliam o leque de parceiros. "Abel é um poeta carioca, vê a coisa urbana, enquanto Fausto, assim como eu, é do interior, se formou ouvindo artistas populares no serviço de alto-falante. Mas ambos sabem dar valor à palavra", analisa Moraes.

O último álbum do box foi o que obteve maior repercussão. Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira (1979) fez sucesso por conta da faixa-título e de Chão da Praça. De todos, é o mais carnavalesco dos três. No ano da anistia, Moraes extravasou ainda mais sua alegria. "Nos Novos Baianos, nem a ditadura nem os comunistas viam valor no que a gente fazia. Mas chegou uma hora em que achei que o Brasil ia mudar, com mais tolerância, e isso acabou se refletindo em mim", diz Moraes. Para ele, a caixa vai do início ao fim de sua maturação como artista solo. "Comecei com certo receio e, no final da década, já estava plenamente seguro. Mas isso só aconteceu porque havia boas pessoas junto comigo." Palavra de quem, desde o começo, soube o que é a vida – e a música – em comunidade.

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