FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Cainã Cavalcante ajuda a definir o novo violão brasileiro

Músico cearense de 28 anos lança primeiro álbum solo e autoral em show hoje (12), no Sesc Pinheiros, com autoridade para estar entre os grandes instrumentistas do País

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2018 | 03h00

O violão de Cainã Cavalcante vem de um universo em expansão, um mundo onde a crise vive do lado de fora e os muros são substituídos por pontes. Um planeta da cabeça pra dentro em que saudades e memórias se tornam algo como A Vida no Sertão, a esperança nos dias de dureza se materializa em Que Seja Leve e o impacto da sanfona de um amigo como Bebe Kramer, inspira um Forró Gaúcho.

Esse violonista de 28 anos, afilhado de Patativa do Assaré, vem de Fortaleza. Ganhou seu primeiro cachê na música aos nove, com uma apresentação no Centro Cultural Banco do Nordeste, e está em seu quarto álbum, o primeiro solo. Cainã é um alento. Além do frescor que as nove faixas de Corrente exalam em um meio instrumental que se torna resistência em um contexto de retração conceitual na Cultura, ele mostra que a ação ainda pode mover o que parecia impossível de sair do lugar.

Seu álbum é fruto do financiamento coletivo, com R$ 35 mil captados quando o necessário eram R$ 28 mil (o nome de cada ser humano que acredita em sua música está escrito no encarte do disco). E assim ele sustenta o sonho. Um primeiro show em São Paulo de sua fase solo será hoje, às 20h30, no Sesc Pinheiros. Antes, ele passou pelo Rio, Uberlândia e Uberaba. Depois, virão Fortaleza e Recife.

A música nova de Cainã também é sinal dos tempos, extraída de uma base de informações abrangente e que resulta em uma musicalidade que não se guarda em repartições. “Meu pai me fazia ouvir uma fita cassete que tinha (o violonista) Sebastião Tapajós de um lado e Beatles com Rolling Stones do outro.” O choro está por lá, diluído, assim como o forró, o sertão, a chuva, a lágrima e as manhãs de sol com suas lembranças e suas canções. Uma visível mudança de comportamento com relação à música instrumental feita até os anos 1990, passada como que por pedágio pelas sonoridades criadas por Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, uma brasilidade orientada e legitimada pelo jazz. Muitos se deram bem assim, outros se perderam. Alguns tentam até hoje.

Cainã tem a velocidade de um Yamandú, um de seus mestres e a quem dedica a faixa Vento Sul, com menos força de explosão. O bom é que suas frases soam mais limpas do que as que os arroubos de Yamandu produziam no começo de carreira. Cainã cuida mais das melodias. “São elas que me pegam. Claro que a técnica é importante, mas só faz sentido se estiver alinhada à musicalidade. Se fosse pelo ego, acho que eu estaria me traindo.”

Forró Gaúcho tem muitas notas, mas nenhuma ali é jogada fora. A métrica e a harmonia do gênero não precisa de moldes em sua espécie de canção instrumental. Ouvi-la imaginando uma letra sobre a melodia é tentador. Aliás, uma ideia a letristas destemidos: usem a música instrumental de Cainã para criarem um projeto de canção. A voz de sua música instrumental é das mais belas.

Balanço Zona Norte, uma divisão de samba, vem para homenagear o cantor e compositor Tito Madi (morto em 26 de setembro, aos 89 anos) e a cantora Leny Andrade, outra gigante em sua formação. E chegam Corrente, a ‘canção’, com um movimento de baixos compondo uma melodia belíssima, uma peça que já pode se considerar clássica. E mais Canção da Noite, Mar de Saudade, PoiZé, Vento Sul, Que Seja Leve e A Vida no Sertão. 

A música de Cainã Cavalcante deve mudar, já que São Paulo, onde ele vive há menos de dois anos, não passa ileso no coração de um compositor. Ouvi-lo agora assim, ainda cearense e ainda sertanejo, se torna quase que uma obrigação.

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