Caetano Veloso, só elogios para SP

Caetano Veloso elogiou o público paulistano, durante entrevista coletiva hoje à tarde. Lembrou dos tempos em que viveu em São Paulo, nos anos 60, falou de música e de política. A entrevista contou também com a participação dos paulistas Jair Rodrigues, Jair Oliveira, Nando Reis, José Miguel Wisnik e Rappin? Hood, seus convidados para o show de sábado, na esquina das Avenidas São João e Ipiranga. ?O tropicalismo não se faria sem São Paulo, sem a colaboração dos artistas daqui e sobretudo sem o público daqui?, disse. ?Com o público e os músicos do Rio teria sido impossível ? muito reacionários. O Rio era o filtro de tudo como deveria ser o Brasil, tinha aquele jeitinho, tudo de muito bom gosto. O público também era meio sabido?, disse. ?O paulista não: vai de coração aberto, reage espontaneamente, então aceita os desafios da novidade.?Rita Lee foi lembrada de raspão. Quando perguntado se paulista sabia fazer festa, Nando Reis respondeu: ?Acho que sim.? Ao que Jair Rodrigues retrucou: ?Acho, não. Tenho certeza.? Caetano arrematou, rindo: ?Alguém tem de responder a Rita Lee.? Quase toda a entrevista transcorreu em clima de bom humor e descontração. Caetano só franziu o cenho ao enveredar pela política. ?Tenho amor e muita atenção pela potência que é São Paulo. Nada no Brasil se resolveria se não passasse por aqui. São Paulo se destaca do Brasil, principalmente pela pujança econômica. Isso também atrai também ao perímetro urbano uma situação de extrema violência da pobreza, que não é a pobreza criminal como em nenhuma outra cidade do país. São problemas, promessas e exigências de grande magnitude, que o Brasil tem de se mostrar à altura.? Caetano aproveita para reclamar que há anos vem falando de sua simpatia pelas idéias de Mangabeira Unger, coordenador da campanha de Ciro Gomes à Presidência, a respeito dessas questões, mas a imprensa se recusa a publicar. ?Eu não entendo por que toda vez que eu falo dele não sai nada. Espero que agora pelo menos algum jornal alternativo publique. Ele é o único cara que mantém a direção visionária. Pode ser que seja maluco, fala com sotaque estrangeiro, tudo bem. O que ele fala é o que me interessa.?O cantor lembrou ainda os tempos em que chegou à cidade e disse que o que disse em Sampa ?está dito?. ?Claro que São Paulo hoje é diferente de quando eu cheguei aqui, mas o que teria de mudar na letra, Jair Oliveira já mudou?, disse. Jair compôs Uma Outra Beleza, samba inspirado em Sampa, incluído no repertório do show de amanhã. Nessa espécie de troco a Caetano, ele defende, por exemplo, a elegância das meninas paulistas, em resposta à ?deselegância discreta de suas meninas?. Caetano admite que hoje as aparências mudaram. ?Quando eu cheguei aqui achei a cidade feia, provinciana, aquele sotaque parecia de estrangeiro, os cartazes de cinema pintados à mão eram de muito mau gosto. As mulheres eram muito feias. Hoje são mais bonitas que as do Rio, mas não eram. Hoje tem Daslu, São Paulo Fashion Week.?Esta é a segunda vez que o cantor baiano se apresenta no cruzamento das avenidas que retrata em Sampa. A primeira vez foi em dezembro de 1995, para comemorar os 50 anos do Banco Itaú. Na ocasião, o patrocinador investiu R$ 150 mil no evento, R$ 30 mil dos quais foram para os bolsos de Caetano. O custo da produção do show de amanhã, patrocinado pela Petrobrás e pelo Banco do Brasil, está em torno de R$ 800 mil. Cerca de 1.400 profissionais estão envolvidos no evento. O presidente da Anhembi e do Comitê São Paulo 450 Anos, Celso Marcondes, garantiu que ?não há dinheiro público envolvido?. Não quis revelar o cachê de Caetano, mas especula-se que seja em torno dos habituais R$ 100 mil que cobra por show.O repertório só começaria a ser definido depois dos ensaios de Caetano com os convidados. Além de Sampa, outras duas canções, que serão interpretadas por todos os participantes, estão garantidas: São São Paulo, de Tom Zé, e a antiga valsa Lampião de Gás. Caetano vai cantar acompanhado apenas de seu violão, com eventuais intervenções dos músicos acompanhantes de seus convidados. ?É um show despojado, não é um espetáculo de Las Vegas. No entanto, é muito grande em conteúdo. O significado desta apresentação é muito mais aprofundado do que da outra vez, não só pelos 450 anos, mas porque em vez de só cantar as músicas referentes à cidade, divido o palco com gente que faz essa música?, disse Caetano.Polêmica - Marta Suplicy tentou encerrar a polêmica em torno das declarações de Rita Lee fazendo uma declaração à cantora. ?Primeiro, sou contra o patrulhamento ideológico. E segundo, amo a Rita. Mas chega de patrulhamento, gente. Ela é debochada, debocha dela mesma e a gente tem de aceitar?, disse.Para a prefeita, as declarações de Rita Lee são a marca da sua irreverência. ?Ela é querida pelos fãs justamente porque é irreverente.?Marta evitou comentar uma possível reação do público no show que a cantora fará em comemoração ao aniversário da cidade. ?Cada um reage de um jeito. Eu só posso falar como eu reagi?, disse. E voltou a elogiar a roqueira. ?Ela é a cara de São Paulo.?

Agencia Estado,

22 de janeiro de 2004 | 21h52

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