Caetano Veloso realiza sonha de criança e vira professor

Cantor dá aula, fala do novo CD, 'Zii e Zie', da crítica de Tom Zé e faz críticas ao projeto da meia-entrada

Brás Henrique, de O Estado de S. Paulo,

26 de novembro de 2008 | 20h23

O cantor Caetano Veloso realizou na tarde desta quarta, 26, em Ribeirão Preto, um sonho de criança: foi professor por quase duas horas. Mas a aula foi diferente, interativa, via satélite. E para cerca de 40 mil alunos, de 280 pólos da rede ligada ao Sistema COC de ensino em todo o Brasil. "Foi muito boa a experiência", disse Caetano, que falou de um tema que entende, viveu e gosta: "Da Bossa Nova ao Tropicalismo". Pelo acordo com a instituição, e a pedido dele, a aula será disponibilizada a toda a rede pública do País. Caetano também falou, depois, de seus novos DVD e CD, além de seu blog, e procurou minimizar a crítica do amigo Tom Zé, que o ofendeu num show, domingo (23), no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.  Veja também:Blog de Caetano Veloso   Sentado num banquinho, quase imóvel, apenas gesticulando e com a típica fala mansa, Caetano falou sobre os anos 1950 e 1960, do tema da palestra-aula. Ele espera que as informações que transmitiu ajude muitos estudantes. Até se comunicou rapidamente, via satélite, com a irmã Claria Maria, que estava em Salvador assistindo. Com os vários compromissos agendados, nem encontrou o amigo Gilberto Gil, que faria um show à noite no Theatro Pedro II. Caetano disse que teria que viajar para continuar os trabalhos de estúdio de seus novos projetos. "Não é incrível? Não vi o Gil", comentou Caetano, que ainda não viu o show Banda Larga Cordel do amigo, mas recentemente o viu no Gil Luminoso, no Rio. O COC investiu, via Lei Rouanet, R$ 300 mil no projeto da aula e também dos sites de Caetano (www.obraeprogresso.com.br), sobre o DVD e o CD em produções, e de Guel Arraes, que dá uma aula de cinema pela internet. Caetano disse que aprova a novidade tecnológica, como Gil, que incentiva o público a gravar seus shows e exibi-los no ciberespaço. "Cada um vai se adaptando aos poucos, e achei que as companhias de disco não acompanharam ou não foi possível para elas, acabar com aquela estrutura, mas não entendo de produção, de dinheiro", explicou Caetano. E ele lembrou que em seu blog incluiu as músicas em produção, gravadas ao vivo, com o mesmo arranjo que terá no CD. "Está tudo disponibilizado", disse. O novo CD já tem nome: Zii e Zie. Ou, traduzindo do italiano: Tios e Tias. Motivo: "Vi escrito numa tradução para o italiano de um livro do escritor turco Ohran Pamuk (Istambul), que ganhei de presente de uma moça italiana." E acrescenta: "A gente olha e não consegue entender qual a língua, achei bonito..." Caso Tom Zé Caetano Veloso estava sorridente ao responder à crítica de Tom Zé, que no domingo (23), em seu show, soltou a frase: "Caetaaanoo, vai tomar no ..." Tom Zé refutou o elogio de Caetano ao seu CD "Estudando a Bossa Nova-Nordeste Plaza". "Ele recusou os meus elogios, disse que não quer cair nos braços do grupo baiano agora, e que quando estava passando necessidade, ninguém ajudou ele; uma maluquice, eu adoro o Tom Zé, achei besteira ele dizer isso", disse Caetano. "Quando saiu o Ce (CD de Caetano) no ano passado, ele (Tom Zé) escreveu um artigo elogiando, eu não reclamei (risos)." E acrescentou: "Não sei porque eu não posso elogiar o disco dele, aliás não elogiei muito, elogiei um pouquinho." Questionado sobre a posição de Tom Zé, Caetano justificou que nunca recebeu pedido de ajuda do amigo baiano, que levou a São Paulo em 1968, e que fazer sucesso ou não depende do mercado fonográfico. Ele também citou outros nomes que também não tiveram sucesso, como Zé Abreu, Jorge Mautner, Walter Franco e até Arrigo Barnabé. "Um milhão de pessoas pode dizer assim: eu não estou fazendo sucesso e as outras pessoas que estão fazendo sucesso me abandonaram. Tenho amigos, como o Jorge Mautner, e ele não ganha dinheiro, ele não faz sucesso", mencionou Caetano. "Tom Zé tem o Maracatu Atômico que é um sucesso, mas o Zé Abreu, meu amigo de Salvador, não vende disco, não faz sucesso popular, é um criador enormemente experimental, convivo com ele o tempo todo, adoro, e ele não ganha um tostão com música, mas faz aquilo, insiste..." Caetano comentou que não sabia que Tom Zé estava na miséria, como escreveu em seu blog, segundo leu o cantor baiano. "O Tom Zé é maravilhoso, adoro ele, adorava antes, adoro ainda, ele é o que é, mas não sou responsável pela vida dele, nunca fui. Eu trouxe ele da Bahia, naquela altura, esforcei, investi, insisti, e ele veio e terminou dando certo, afinal de contas. Depois fez uma criação muita boa, que não dava dinheiro." Caetano citou que Walter Franco "está esquecido, abandonado há anos". "Mas o que eu posso fazer?", indagou-se. Sobre Arrigo Barnabé, citou que esse teve certa notoriedade e hoje não tem presença no comércio da música. "Não sei se eu devo exigir que o Chico Buarque ou Milton Nascimento socorram o Arrigo Barnabé, não entendo esse problema, não vejo as coisas assim..." Para Caetano, o mercado é quem faz o sucesso. E por fim, perdeu a paciência e suavemente encerrou a entrevista. "Sinceramente eu não dou muita importância a isso, eu não dou. Eu sou muito orgulhoso, eu acho que sou assim, porque eu sou. Se eu fizer sucesso ou não fizer sucesso, eu não dependo desta m..." Meia-entrada  Caetano não gostou da idéia de limitar em 40% a meia-entrada nos espetáculos culturais. "Há algumas perversões nessa questão que já vem há algum tempo", disse ele, referindo-se a shows em capitais, muito caros, para compensar os ingressos de meia-entrada. "Acho que se tem meia, tem que cobrar, mesmo que todos paguem, sou contra isso." O cantor espera que diminua o número de carteiras falsas de estudantes e não concorda com os produtores que elevam os preços para compensar o risco de ter quase que só vendas de meias-entradas. "Existem mil possibilidades, não sei..." E brincou: Eu só pago meia, porque sou idoso. Vou com meu filho de 11 anos e compro duas meias e não entro na fila." Filme A ex-mulher de Caetano Veloso e produtora de cinema, Paula Lavigne, disse que o COC poderá ser um dos patrocinadores do filme O Bem Amado (que terá Marco Nanini como Odorico Paraguaçu), que está em fase de captação e pré-produção. As filmagens começarão em janeiro. Chaim Zaher, dono do COC, tem intenção de patrocinar, mas falta chegar a um acordo sobre valores. "Tem muito a ver com educação", disse Zaher, sobre o filme, que já foi novela e seriado da TV Globo entre os anos 1970 e 1980. Zaher também pretende estender a aula interativa, com outros artistas, personalidades e políticos, mas não divulgou para quando.

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