Caetano Veloso fala sobre a trilha de <i>Ó Paí, Ó</i>

Caetano Veloso apaixonou-se pela peça Ó PaíÓ no início dos anos 90, quis filmá-la e acabou assinando atrilha sonora. Em entrevista, ele contou como foi a experiênciae falou da relação do cinema com a música. Como rolou o convite para fazer atrilha do filme? A Monique (Gardenberg) falou comigo sobremúsicas para o filme desde cedo, pois eu tinha escrito quatrocanções para a adaptação que pensei em dirigir nos anos 90. Masas fitas se perderam e eu não lembrava das músicas. Só "Canto doMundo", que Lázaro canta no filme, foi salva. Monique trabalhoucom o violonista Luiz Brasil (que toca nessa música) até quandosua agenda permitiu. Na finalização, quando Davi Moraes e BetãoAguiar passaram a cuidar da trilha, Paulinha (Lavigne) me pediupara voltar a participar. Daí nasceu a canção nova, em parceriacom Davi, e as conversas com Davi e Betão sobre o tratamento damúsica de todo o filme. Como foi o trabalho com Davi Moraes? Davi é um gênio musical. Junto comBetão, ele me dirigiu na gravação de "Canto do Mundo (que saiuno CD da trilha mas não está no filme). Nós três trocamose-mails e nos encontramos para decidir como distribuir entre oscantores do carnaval baiano os trechos de Protesto Olodum nofinal do filme, ou o que substituiria um trumpete cool-jazz queLuiz tinha colocado em Depois Eu Volto, samba de Batatinha.Quanto à canção título (dos créditos finais), mandei trêshipóteses de letras por e-mail. Ele escolheu uma e pôs música.Na época, ele estava na Bahia e eu, no Rio. Lá, pediu a Jauperique fizesse uma voz-guia, que ficou tão boa que Davi decidiu quecarregaria a música. Depois, no Rio, voltei ao estúdio com Davie Betão para somar minha voz à de Jauperi. Isso dá uma idéia denosso método de trabalho. Você se identifica com algum personagemdo filme? Desde que vi a peça, em 1992, sou apaixonadopelos personagens por causa dos atores. No filme, me identificomais com o personagem do Lázaro porque ele é artista, já nascerevoltado, mas é alegre e terno. Que fim levou a história que você fezao ver a peça do Olodum? Trabalhei num roteiro para cinema com oHermano Vianna e o Sérgio Mekler e a Monique me ajudou naprimeira decupagem para plano de filmagens. Mas desisti daprodução. Cinema tem muitas dificuldades nessa área de produçãoe eu amarelei. Como foi a experiência de fazer atrilha de um musical? Sou louco por musicais. Ó Paí,Ó nasceu deuma peça que é em grande parte um musical, o que livra o filmeda estreiteza do realismo e deixa claro de cara que se trata deuma fantasia. Por isso é que você admite simplificaçõesinaceitáveis num filme realista. Freqüentemente isso significaum atalho para chegar a conteúdos mais profundos sem perdertempo pedindo licença. Para mim, no caso desse filme, foisobretudo uma felicidade trabalhar com esse material tão rico etão injustiçado que é a música de carnaval da cidade de Salvador Tenho o sonho de um dia fazer uma antologia desse tipo. A música brasileira ajuda a divulgar ocinema ou vice-versa? Não há nada como Manhã de Carnaval e AFelicidade fazendo de Orfeu do Carnaval um clássicointernacional. Às vezes uma coisa dá força à outra. Mas aindanão chegamos no ponto. Como isso funciona na divulgaçãointernacional? O cinema brasileiro ainda não se beneficiou danossa música popular como poderia. O prestígio que conquistou noexterior (no período heróico do Cinema Novo de Glauber oumomento atual de Central do Brasil e Cidade de Deus) foi deoutra natureza. Antigamente, eu achava que isso era apenas umsintoma da nossa incompetência cósmica. Hoje, vendo que cinema emúsica têm levadas muito diferentes, acho até que é um bom sinal. Em qual tema de "Ó Paí, Ó" você apostapara virarem hits como aconteceu com as músicas de "Lisbela e oPrisioneiro", "O Coronel e o Lobisomem" e "Tieta"? Cada caso é um caso. Para Tieta, compusapaixonadamente as canções mais bonitas que já fiz para cinema.Adorei esse filme desde o roteiro e dos primeiros copiões. Nãofiquei satisfeito com a mixagem da trilha e lamentei que Cacátivesse de reduzi-lo para uma 1h40: ele era incrível comquase três horas, mas acho um grande filme assim mesmo. A cançãoA Luz de Tieta não era a minha preferida, embora eu adore orefrão. É uma boa música de carnaval, mereceu fazer o sucesso eé minha única música que chega perto do que se canta no novocarnaval baiano. A canção de Lisbela não é minha. É um velho hitque o João Falcão (que fez a trilha do filme) me pediu pararegravar. Não vejo nada assim em Ó Paí, Ó. A canção-títulopegou na Bahia. Tocou no rádio e o pessoal cantava o refrão nocarnaval. Pode ser que atravesse outros carnavais. As situações mostradas em "Ó Paí, Ó"perduram na Bahia? Sem dúvida. No show do Cê, canto Como Doise Dois, que compus em 1970. Um amigo me disse que era espantosocomo a letra parece até mais pertinente agora do que quando foiescrita. É assim, canções, filmes, peças têm um modo misteriosode ficarem datadas. Ó Paí,Ó é sobre uma Bahia que já estavaali quando o Bando lançou a peça - e que vai estar muito tempoainda. Para o bem e para o mal. Como um filme ou uma canção podeminfluir nessa situação? De mil formas. Muito raramente da forma que seacredita que pode acontecer. É misterioso. Claro que podemreafirmar tanto a alegria quanto a revolta. Mas esses conteúdossão motivos temáticos. No fim, o que conta é o que vale um filmecomo filme, uma canção como canção.

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