Marcelo Brammer/Divulgação
Marcelo Brammer/Divulgação

Caetano Veloso e Teresa Cristina mostram ter mais em comum do que aparentam em show em SP

Cantora relembrou Cartola e anfitrião recuperou músicas menos conhecidas do seu repertório na noite desta quinta-feira, 17, no Espaço das Américas

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2016 | 07h44

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos / Surpreenderá a todos, não por ser exótico / Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto / Quando terá sido o óbvio”, canta Caetano Veloso em Um Índio, música que abre seu set individual em Caetano Apresenta Teresa, show criado para promover o lançamento mundial do CD e DVD no qual Teresa Cristina canta Cartola e que acaba por transcender uma divulgação pura e simples. Os versos servem como mote do que este encontro, que chegou a São Paulo em única apresentação na quinta-feira, 17, no Espaço das Américas, simboliza: ambos têm mais em comum do que aparentam. São dois artistas que representam escolas diferentes – ela, o renascimento do samba tradicional carioca; ele, a MPB forjada nos festivais –, mas que não se prendem aos seus dogmas.

As cortinas se abrem e Caetano vem ao palco para anunciar Teresa, que inicia o show ao lado do ótimo violonista Carlinhos Sete Cordas. A primeira das nove músicas de sua parte solo, que não chegou a 30 minutos, é O Mundo é um Moinho. Ao final, o clássico ganha citação de Over The Rainbow, eternizada por Judy Garland em O Mágico de Oz. A heterodoxa conexão da obra de Cartola com o filme de Victor Fleming tem como consequência um belo momento, amplificado pela segurança da intérprete. Há espaço para a ironia em Tive Sim, no qual ela expõe o caráter machista da música, invertendo seu sentido ao cantá-la dirigida a um homem, e até mesmo uma homenagem a Mangueira, rival da sua Portela, com Sala de Recepção. Em tom de brincadeira, Teresa pede para que ninguém filme o número ("Se fizerem meme, eu processo").

Teresa foi a cereja do bolo em um show dominado por seu anfitrião. Caetano, acompanhado apenas por seu violão, cantou 20 músicas. Disse que não queria repetir as mesmas que vinha cantando na vitoriosa turnê com Gilberto Gil, intenção levemente traída com as inclusões de A Luz de Tieta e Desde Que o Samba é Samba. Não há o que perdoar, pois o grande trunfo de seu set é o resgate de canções pouco lembradas de seu cancioneiro. Tudo joia rara. Algumas delas dialogam com o universo do samba que Teresa representa, caso de Os Passistas e A Voz do Morto. Antes de cantá-la, Caetano contou que a compôs por encomenda de Aracy de Almeida, grande intérprete de Noel Rosa – e os “oh!” proferidos pela plateia quando seu nome foi citado fazem supor que ela continua a ser lembrada como a jurada ranzinza de programas de calouros.

Bahia, Minha Preta, feita para Gal Costa, finalmente aparece na voz de seu autor. Provocador, Caetano ressignifica a tropicalista Enquanto Seu Lobo Não Vem, baseada nas manifestações contra a Ditadura Militar, afirmando que “é uma canção de convocação às ruas”. De nada adiantaria, porém, recuperar lados B se Caetano não fosse um ótimo intérprete, característica reafirmada à medida que o tempo passa. Ganham com isso as alheias Cucurrucucú Paloma, Love For Sale, esta cantada a capella, e a popular Sozinho. Houve um pequeno momento de comoção. Ao fim de seu set, Caetano relê Força Estranha. Ao cantar ter visto muitos cabelos brancos na fronte do artista, a plateia aplaude. Hoje, aos 74 anos, esse artista é ele.

Ao fim do show, Caetano e Teresa ficam juntos no palco, ao lado de Carlinhos. Como 2 e 2, música do baiano gravada por Roberto Carlos, e Desde que o Samba é Samba, parecem ter sido escolhidas para ressaltar o que une os dois. Influenciado por João Gilberto, o defensor de primeira hora da Jovem Guarda está no palco com uma sambista fã de heavy metal que gravou, em 2012, um tributo ao Rei ao lado da banda Os Outros. E o samba também é um dos esteios do repertório de Caetano. Basta lembrar de Samba Em Paz, gravada em seu primeiro compacto. A capacidade dos artistas transitar por diversos estilos, no formato voz e violão, fez deste um grande show. Não só em termos de duração: em pouco mais de duas horas, o público ouviu 34 músicas.

Repertório:

Set Teresa:

O Mundo é Um Moinho (Cartola)

Corre e Olha o Céu (Cartola/Dalmo Castello)

Alvorada (Cartola / Carlos Cachaça / Hermínio Bello de Carvalho)

Preciso Me Encontrar (Candeia)

Cordas de Aço (Cartola)

Tive Sim (Cartola)

Acontece (Cartola)

Sala de Recepção (Cartola)

As Rosas Não Falam (Cartola)

Set Caetano:

Um Índio (Caetano Veloso)

Os Passistas (Caetano Veloso)

Luz do Sol (Caetano Veloso)

Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso)

Esse Cara (Caetano Veloso)

O Leãozinho (Caetano Veloso)

Menino do Rio (Caetano Veloso)

Minha Voz, Minha Vida (Caetano Veloso)

Cucurrucucú Paloma (Tomás Méndez)

Reconvexo (Caetano Veloso)

Love for Sale (Cole Porter)

Bahia, Minha Preta (Caetano Veloso)

Tá Combinado (Caetano Veloso)

Enquanto seu Lobo não Vem (Caetano Veloso)

A Voz do Morto (Caetano Veloso)

Abraçaço (Caetano Veloso)

Força estranha (Caetano Veloso)

Branquinha (Caetano Veloso)

Sozinho (Peninha)

A Luz de Tieta (Caetano Veloso)

Set Caetano e Teresa

Tigresa (Caetano Veloso)

Miragem de Carnaval (Caetano Veloso)

Como 2 e 2 (Caetano Veloso)

Desde que o samba é samba (Caetano Veloso)

Bis:

Odara (Caetano Veloso)

 

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