Ana Krepp
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Volta de Caetano e Gil a Londres teve protesto e pouca conversa

Dupla, que não se apresentava junta desde 1994, volta com turnê à cidade onde viveu exilada na ditadura

Ana Krepp , Especial para o Estado

01 Julho 2015 | 23h24

Foi na noite do dia mais quente do ano, até agora, em Londres, que chegou a bater os 33 graus, que Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram show da turnê Dois Amigos, Um Século de Música na cidade onde eles viveram exilados do Brasil, no fim dos anos 1960 e início dos 70. 

 Antes mesmo do início da apresentação desta quarta, dia 1.º, houve um protesto na entrada do teatro Eventim Apollo, realizado por cerca de 20 pessoas do movimento In Mind, contra o show de Caetano e Gil em Tel-Aviv, marcado para o dia 28 de julho. Carregando bandeiras e cartazes, o grupo distribuiu panfletos ao público. 

Os baianos, que não se apresentavam juntos desde 1994, com o espetáculo Tropicália Duo, abriram o show com Back in Bahia. “Ela foi a primeira escolha que fiz e sugeri a Gil. É um modo de começar a história. É um momento do meio do caminho que diz tudo sobre o antes e o depois. Cantá-la em Londres, para nós, traz mais significados. Adensa tudo. Canto também Nine Out of Ten, que fala de meus dias em Notting Hill Gate”, conta ainda Caetano. 

Gil e Caetano pouco falaram com a plateia, formada majoritariamente por brasileiros. E quando o fizeram, sempre em português. Depois de tocarem a nona canção, Nine Out of Ten, Caetano chegou a brincar com a mudez de até então. “A gente nem deu boa-noite para vocês.” E foi contestado por Gil. “É que é tão natural, como se a gente tivesse dito há muito tempo. Essa cidade foi uma das poucas casas que eu tive.” 

De aí em diante voltaram apenas a tocar, e nada mais foi dito. Uma bandeira da Palestina chegou a ser pendurada durante a apresentação no balcão, acima da plateia inferior, mas logo foi retirada. E nenhum protesto chegou a acontecer durante o show.

Foram 29 canções tocadas ao longo de duas horas com interrupções recorrentes da plateia, que, com gritos e declarações, saudava a dupla. Sampa foi a que arrastou o coro mais alto da noite, seguida de Andar com Fé e Toda Menina Baiana. Duas inéditas na turnê que começou na semana passada, em Amsterdã, London London e Tree Little Birds, foram escolhidas especialmente para o show na capital inglesa.

Apesar da grande variedade de músicas compostas e cantadas em inglês pelos dois, o setlist da turnê internacional chamava a atenção pela pouca quantidade de canções nesse idioma. “Sei pouco inglês. Depois que voltei de Londres, fui ficando cada vez menos capaz de entender o inglês falado. Isso meio que me desautoriza a escrever letras em inglês”, conta Caetano. “Gosto de Nine Out Of Ten – e lá está aquela oscilação entre ‘them’ e ‘they’, que me parece natural, mas a respeito de cuja correção não estou nada seguro.”

Na semana passada, um vídeo em que explica o uso da crase foi compartilhado em sua fanpage no Facebook confirma que sua preocupação com o uso correto da língua não se aplica somente ao inglês. “Mesmo em português, canto, em geral, na linguagem coloquial comum. Bem, há um samba em que uso mesóclise (forma hoje abandonada, mesmo na escrita, de forma triste, sendo substituída por coisas horrendas como ‘encontrará-se’). Mas repito ‘deixa eu cantar’, misturo você e tu (como os cariocas fazem) e reproduzo erros rurais e urbanos gostosos.”

Com mais 15 apresentações marcadas pela Europa até o dia 2 de agosto, Caetano diz que tira energia para fazer shows dia sim dia não e viajar por tantos países “principalmente pela alegria de estar perto de Gil e vê-lo feliz”. Aconselhado a parar quando tinha 50 anos, o cantor garante ainda não querer se aposentar. “Ter uma excursão puxada a essa altura significa que temos intensidade profissional. É gostoso ter êxito profissional aos 70”, acrescenta.


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