Caetano Veloso brilha nos EUA

A ensaísta Susan Sontag, ocompositor David Byrne, o cineasta Pedro Almodóvar, a atrizSonia Braga, a cantora Bebel Gilberto, a dramaturga e diretoraJulie Taymor, da Broadway. Na estrelada platéia do show deCaetano Veloso no Beacon Theater, na sexta-feira, em Nova York,faltou pouca gente. Com casa lotada, muita gente de pé, o cantorfalou pouco e cantou a base do seu disco mais recente, Noitesdo Norte, mesclando com um punhado de sucessos conhecidos dosbrasileiros, de Cajuína a Leãozinho. Caetano causou certo frisson na semana passada aodeclarar ao The New York Times que pretendia gravar um discode standards, com canções em inglês. Leonard Cohen, Prince, ColePorter, Harry Belafonte e até Kurt Cobain (o cantor suicida dogrupo de rock Nirvana) estão de fato entre os compositores queele pretende gravar, reafirmou o músico, falando a jornalistasbrasileiros depois do show em Nova York. Seu foco de interesseconsiste basicamente em buscar compositores popularesamericanos. Na turnê pelos EUA, Caetano cantou um standard emcada cidade por onde passou, criando um mini-repertório de cincocanções. Sobre Kurt Cobain, tenham calma: Caetano não virou umgrunge temporão. Ele disse que considera o álbum MTVUnplugged, da banda Nirvana, um tanto chato, mas que ouviurecentemente o disco Nevermind e achou uma obra-prima. Masele contou que só pretende começar a trabalhar neste possívelálbum de covers no ano que vem, após encerrar o ciclo de showsde Noites do Norte. A aproximação do cantor com o circuito culturalnova-iorquino evolui para outras áreas artísticas. Ele está emcartaz na cidade também na trilha do filme Frida, de JulieTaymor, cantando com Lila Downs a canção Burn it Blue. Eletambém tem convites para escrever para um musical. Por enquanto, seu show vai levantando platéias nosEstados Unidos. No dia seguinte, sábado, foi a vez de seapresentar no New Jersey Performing Arts Center. Caetanocontinua hábil em lidar com as expectativas da platéia, e agradaquando manipula o repertório, aproveitando-o de forma dialética.Faz isso quando introduz canções como Manhatã/Manhattan,ponte idiomática marota entre o inglês e o tupi, ou quando cantaLíngua. E mesmo quando se faz mais explicito, como emRock´n´Raul. "Quando eu passei por aqui/ A minha vontadefoi exibir/ Uma vontade fela-da-puta de ser americano/ (E hojeolha os mano...)." Acompanhado pela banda de carreira, com trêspercussionistas, o violoncelista Jaques Morelembaum, oguitarrista Davi Moraes, o baixista Pedro Sá e baterista Cezinha Caetano causou frisson na platéia nova-iorquina, como dehábito. Que cantou com ele Último Romântico, de Lulu Santos,e Desde que o Samba É Samba. E o show não é sucesso só paraos expatriados de costume. No Beacon Theatre, uma espectadorapediu que falasse inglês quando se dirigisse à platéia, porquemetade dela não entendia português. O discurso neo-abolicionista do disco de Caetano, noentanto, parece perder sentido no meio do gestual Carmem Mirandaque o cantor adotou em cena e do ambiente festivo. Tanto que,quando ele acabou de cantar/recitar o excerto de um texto deJoaquim Nabuco, Noites do Norte, alguém da platéia gritou:Lindo. "A escravidão permanecerá por muito tempo como acaracterística nacional do Brasil. Ela espalhou por nossasvastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeiraforma que recebeu a natureza virgem do País, e foi a que eleguardou." Não é nada lindo, assim como a letra de Haiti, de 111mortos pretos, não tem o intuito de embalar jantar à luz develas.

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