Caetano lança "Cinema Falado" em DVD e critica governo Lula

Caetano Veloso não está muito convencido de que o governo Lula justifique o entusiasmo que ainda provoca entre a esquerda de todo o mundo. Foi uma das coisas polêmicas que o cantor e compositordisse no fim da tarde desta terça-feira, num encontro com jornalistas, no estúdio da Universal Music, na Barra.Durante anos, Caetano amargou a tristeza que lhe causou a má acolhida dos críticos ao único filme que dirigiu. Cinema Falado, 17 anos depois, está sendo lançado em DVD justamente pela Universal, que fez todo um trabalho de restauração do original, acrescendo ao disco várias horas de material extra.Caetano soltou o verbo. Elogiou o próprio filme,produto da sua lucidez, e não poupou críticas aos críticos, à imprensa nem a colegas diretores. No final, disse que havia sido equilibrado e que, eventualmente, uma ou outra coisa que disse poderia ser usada fora de contexto e provocar discussões.Caetano falou mal de Deus - disse que Deus é sempre nocivo, tanto faz que seja o de Osama Bin Laden ou de outro qualquer. Disse também que seu filme é profético e que antecipa qualidades e problemas que o cinema brasileiro apresenta neste ano em que atinge 20% de ocupação do próprio mercado, a maior taxa de a retomada da produção após a era Collor.Mas o que mais se presta a discussões foi realmente o que Caetano disse sobre política. Ele avalia que o entusiasmo pelo governo Lula sejaresultado de uma crise da esquerda em todo o mundo, que ficou sem projeto após a derrocada do comunismo e a ascensão da globalização. "O desemprego continua muito grande para se ter esperança. A caminho daqui, encontrei aleijados pedindo esmolas na esquina e crianças fazendo malabarismos nos semáforos para ganhar um pouco de dinheiro. Nada disso pode ser consideradoum sintoma de que as coisas andam bem."Ele acredita que o governo fez muita coisa boa nesses 11 meses, mas considera um problema as crises de Lula com sua própria base partidária. "Na tentativa de mostrar internamente que não é de esquerda, o problema está criando para si mesmo."Mas elogiou o colega baiano Gilberto Gil. "Ele deu ao Ministério da Cultura, uma visibilidade e uma importância que nunca teve antes. Tem trabalhado bastante e eu ainda não precisei brigar com ele, como fiz com o Celso Furtado quando pediu a proibição do Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard. Isso não era coisa que um ministro de Cultura fizesse, e eu tive de polemizar com ele. Com o Gil tenho certeza que isso não aconteceria nunca."

Agencia Estado,

16 de dezembro de 2003 | 23h56

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