Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso, 60 anos

O cabelo grisalho ele acha triste,mas o cabelo pintado ele evita, por considerar feio. Essecomportamento, um linha fina entre o diagnóstico e a resignaçãoparece ser um retrato simbólico do hoje sexagenário cantor ecompositor Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso. Ele nasceu no dia 7 de agosto de 1942 em Santo Amaro daPurificação, Bahia - para onde foi comemorar o aniversário nestaquarta-feira. "Quando eu tinha 20 anos, eu pensava assim: umhomem de 60 anos é um velho", disse, em entrevista à televisão."Hoje eu tenho 60, e não é o que eu penso de mim." Apesar do retiro baiano, a data não passará em brancasnuvens. O canal por assinatura People & Arts fará naterça-feira, no restaurante Pitanga, em São Paulo, o lançamentode Caetano Veloso - Uma Verdade Tropical, especial que vaiao ar no dia 24, naquele canal. A "MTV" também anuncioualgumas homenagens, como o novo clipe do cantor, da cançãoMagrelinha que será exibido amanhã, às 12h30. E aindatributos nos programas Supernova MTV, Nação MTV eÁlbum MTV, com clipes, especiais e entrevistas. Há mais de 30 anos, Caetano catalisa um jogo de forçasparadoxal na cultura brasileira. O cantor e compositornotabilizou-se, ao longo da carreira (além de pela música, éclaro), por um desejo manifesto de influir na formação de uma"consciência nacional", ao mesmo tempo que professadesinteresse filosófico por esse conceito. "Dentro do Brasil, há gente que pensa que não temosidentidade e que devemos buscar uma; há gente a quem agradarialivrar-se do Brasil, de sua mulatez, de sua desconhecida línguaportuguesa, de sua desordem, sua instabilidade, sua pobreza esua má distribuição de renda; há os que, por outro lado, mesclamnacionalismo com patriotismo e exaltam a inexistência de vulcõestufões e terremotos e a paz racial e pensam em defender asoberania nacional contra o imperialismo norte-americano e ocolonialismo cultural europeu. Não me enquadro em nenhum dessesestereótipos. Creio que a maioria da população brasileiratampouco. Ainda que alguns mesclem um pouco de cada um dessesvícios, a reação direta, a reação inconsciente, o movimentoessencial dos brasileiros em geral segue a realidade da situaçãoque acabo de descrever", disse o cantor, em uma esclarecedoraentrevista ao diário argentino Pagina 12 - uma das rarasentrevistas recentes nas quais não se perdeu em exercícios deboxeur com sparrings imaginários. O que Caetano tem feito, ao longo do tempo, é tentarexplicar essa ambivalência, esse "estar em cima do muro" quedetecta em si mesmo e na natureza nacional. Às vezes, invocandoleituras históricas da questão. "A escravidão permanecerá pormuito tempo como a característica nacional do Brasil. Elaespalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade",citou, em Noites do Norte, revitalizando um leituraprotosociológica de Joaquim Nabuco. Por compulsão, Caetano busca oponentes. Já fezmanifestos bradando contra a irresponsabilidade dos brasileirosno trânsito, contra os que passam no sinal vermelho edesrespeitam as regras. Ao lançar seu mais recente disco (Noitesdo Norte), o fez pela Internet, pretendendo ensinar aosresenhistas de jornal como portar-se diante de obras musicais,que, a seu ver, são analisadas apressada e superficialmente, emgeral. Passa pitos e faz carinhos, como um ACM da MPB, magnânimoe maternal, rígido e compreensivo. Num dia ele é fernandohenriquista, corresponde-se com opresidente, faz-se o interlocutor de uma classe média"intelectualizada" junto ao poder no qual acreditou. No outrodia, ferido em sua íntima privacidade - furtaram-lhe um caminhãode instrumentos musicais -, ele se insurge e declara apoio àoposição, encarnada em Lula."Quem roubou terá idéia dos variados valores? Quem comprará oque da mão deles? Por quanto? Com a imoral distribuição de rendabrasileira e a cultura do desrespeito pelo convívio social,vemo-nos acuados por nós mesmos. Agora é fazer os mais belosshows possíveis em Fortaleza e Recife, pensar em fazer showsfechados de grandes empresas para poder pagar o prejuízo, ler oMangabeira Unger e votar no Lula", escreveu Caetano, nummanifesto apressado.Mais tarde, passada a indignação inicial, se declararia maispróximo de Ciro. Quando Caetano foi recentemente ao programa do JoãoGordo (o Gordo a Go Go, na "MTV"), um notório antagonista,sua intenção manifesta foi a de encarar o detrator, reconhecendoo local como o terreno minado das suas oposições. Seu ego é queo trai, às vezes: no João Gordo, repetiu argumento de que "nadadisso existiria" se não fosse ele e Gil e sua geraçãotropicalista. Não fosse ele, seria outro - quem sabe melhor,menos professoral, alguém que ficou no caminho por conta de umadose a mais de ácido ou por ter sido menos diplomático em seusembates. "Nem Tom Jobim nem João Gilberto necessitaram opor-se aAry Barroso ou a Dorival Caymmi. Nem Gil nem eu necessitamosnunca nos opor a João e Tom. Não me agrada incentivar muito essamoda de hoje em dia de os jovens necessitarem declarar-seinimigos dos que os precederam", diz o músico. Música comercial - Por conta dessa idéia, ele, comoGilberto Gil, adotaram feroz defesa da música comercial baiana(axé music e afins), como forma de reconhecer uma saúdemercantil e um sistema de ascensão social no País semelhante aofutebol. Gravaram com pagodeiros e defenderam publicamente agrande vitalidade e autenticidade de Ivete Sangalo e DanielaMercury. Mais que isso: Caetano procurou desqualificar a tarefacrítica de separar o joio do trigo. "Não sei se a instância crítica se perdeu nojornalismo; só sinto que, com freqüência, pelo menos no Brasil,os suplementos de espetáculos e cultura se parecem muito compress releases de companhias discográficas ou de agência deartistas, e os críticos, que querem mostrar-se liberados domercantilismo, não fazem mais do que alimentar preconceitosmesquinhos: dão abrigo a esses preconceitos em nome de uma lutacontra o enfoque comercial dos diários para os quais trabalham.E, em realidade, ao fazer alarde desses preconceitos, não fazemmais do que tornar seus diários ainda mais comerciais." Caetano trabalha com um conceito amplo do que sejapopular, algo que não admite a seleção, e que também não parecepressupor uma dialética, um enriquecimento contínuo - pelo fazer- do objeto artístico. "Sou naturalmente popular. De formação. Sei cantarcanções populares desde que aprendi a falar. Gosto delas. Nãonego o termo MPB: renego o uso que se faz dele. Aqui no Brasil,MPB (que significa simplesmente Música Popular Brasileira) setransformou no nome de um gênero musical. É como se fosse ogênero mais nobre. E, como é muito variado e não tem nenhumaunidade que admita sua caracterização como gênero, o critériotermina baseando-se naqueles preconceitos de classe que guiam acrítica pretensiosa (...) A complexidade conceitual daconstrução de minha música nasce exclusivamente da consciênciaque tenho dessa situação, e do meu gosto. As idéias do poetaOswald de Andrade, e inventor do estilo antropofágico, têm tudoa ver com isso. Ele insinuou uma atitude vital, luminosa,antiprovinciana, inimiga dos preconceitos e dos cercos do bomgosto que impulsionou muito a geração tropicalista." Abrangente na definição musical, empresário cioso desuas estratégias de marketing e sempre pronto a esgrimir porsuas idéias, Caetano Veloso é um artista fundamental da culturabrasileira que só foi avaliado até agora em ensaios, livros,volumes "oficiais", bajulatórios. Nunca se examinou sua obra eseu pensamento com rigor. Às vezes, é preciso que ele vá para longe para que sejavisto com alguma isenção. "Estou seguro de que se inventamtradições. Pensava assim antes de ler Borges. Em 1959, em SantoAmaro, pensei claramente: João Gilberto modificou todo o passadoda música brasileira. Deu outro sentido a Caymmi, a HeriveltoMartins, a Ciro Monteiro e a Ary Barroso. Inventou um OrlandoSilva que canta melhor que o Orlando Silva que conhecíamos. Eleinfluiu nos arranjos escritos por Pixinguinha e Radamés Gnatallinas décadas de 30 e 40."

Agencia Estado,

06 de agosto de 2002 | 16h36

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