Caetano canta músicas norte-americanas em CD

Dez anos depois de Fina Estampa, álbumdedicado ao cancioneiro hispano-americano, Caetano Velosodebruça-se sobre a grande canção norte-americana do século 20,que considera a mais bonita do mundo. Com título extraído dafaixa It´s Alright Ma (I´m Only Bleeding), de Bob Dylan, oálbum A Foreign Sound (Universal) chega simultaneamente àslojas do Brasil e Estados Unidos na semana que vem. "São tantosque já gravaram esse repertório, que não sei se muita gente vaidar importância a isso", desdenha Caetano. "A escolha dorepertório foi difícil, porque são muitas canções de altaqualidade e fiquei com pena de deixar algumas de fora. Quemgosta de mim vai gostar daquilo, mas o disco acabou ficandolongo demais. Ninguém vai ouvir inteiro." A data foi apenas coincidência, mas, na entrevista de1.º de abril, um dia depois dos 40 anos do golpe militar, Caetanolembrou dos episódios que o levaram a ser preso e exilado e fezpiada dizendo que "o dia da mentira é o dia da imprensa",referindo-se ao 1º. de abril. "Posso dizer que foi umaexperiência que determinou o rumo de minha vida. Talvez nãoestivesse lançando disco nenhum se não tivesse havido a prisão eo exílio. Já disse isso algumas vezes. Tinha vontade de deixarde fazer música porque acho que não tenho talento suficientepara isso, mas naquele momento não tive forças para dar umaguinada no meu destino e fazer só filmes." Como se sabe, ele não compactuou com a hegemonia daesquerda que se instalou nas artes em decorrência do golpemilitar. "Criou-se a idéia de que você tinha obrigação de ter umpassaporte de esquerda, senão não seria aceito. O tropicalismose insurgiu contra isso também. O tropicalismo era de centromesmo, porque acho que a obrigação do artista é estar sempremuito acima do muro, e não em cima." Muitas vezes adiado, o disco dedicado ao repertórioamericano vem sendo acalentado pelo cantor desde quando morou emLondres, exilado, de 1969 a 1972. "Não tive nenhuma razão que medeterminasse lançá-lo agora. A não ser que tomasse a decisão denão fazê-lo numa das várias vezes que desisti dele para sempre."Caetano coloca seu sotaque em 23 faixas que somam mais de 75minutos, numa seleção classificada por ele de "alienígena". TemBob Dylan, Kurt Cobain, Irving Berlin, Duke Ellington, ColePorter, Elvis Presley, George e Ira Gershwin, Paul Anka, StevieWonder, Jerome Kern, Richard Rodgers, Arthur Hamilton assinandomaravilhas que "já foram cantadas pelos melhores", segundoreconhece o cantor. "Não supunha que pudesse fazer nada derelevante. Pode ser que minhas gravações suscitem alguminteresse enviesado. Não espero mais do que isso", conclui. Oshow de lançamento chega a São Paulo no dia 14 de maio e fica naSala São Paulo por três fins de semana. O nó do disco, segundo Caetano, é Feelings, de MorrisAlbert e Louis Gaste, que o cantor dedica a David Byrne. "É umafalsa canção americana feita por um brasileiro, que se tornou umstandard moderno da música americana. Até o Offspring já gravouem versão meio punk rock. Eles devem achar até hoje que se tratade uma canção americana." Caetano a equipara a CucurucucuPaloma e Recuerdos de Ypacaraí, que gravou em Fina Estampa."São canções que saíram do fundo do subdesenvolvimento. Cantar asério, sem paródia, como fiz, é uma superironia dasuperironia." Como contraponto paródico surge Carioca ("TheCarioca"), canção que foi indicada para o Oscar e embalou oprimeiro número de dança de Fred Astaire e Ginger Rogers nomusical Voando para o Rio (1933). As referências se entrelaçam. Cry me a River, euqueria que tivesse surdo e tamborim, porque é como se fosse umsamba do Monsueto, tanto a letra como a música, a idéia, oestilo." Caetano queria que o disco tivesse essas lembranças dostratamentos de bossa nova que a música americana importante vemganhando ao longo das décadas. "Isso é clichê. Não quis fazerisso, mas também não quis evitar. Tenho tudo a ver com isso,quis fazer o meu comentário a respeito." "Tive vontade de fazer um disco só de sambas novos meus e outrode canções sentimentais, também inéditas, por causa de recentesgrandes sucessos de outros autores do gênero gravados por mim.São desejos que estão aqui dentro ainda." Ele refere-se aSozinho, de Peninha, e Você não me Ensinou a te Esquecer, deFernando Mendes, esta gravada por ele na trilha do filmeLisbela e o Prisioneiro, no ano passado. "Gosto de música quetoca no rádio. Sou muito passivo para música. É uma coisa quevocê consome involuntariamente. Ao contrário de um livro ou deum quadro que você escolhe para ler ou apreciar, a música estáem todo lugar, não adianta. Acho errado isso, mas é o queacontece." Sobre ser solicitado a se manifestar a respeito de tudo,Caetano disse que não se nega a revelar suas opiniões quando astem. Não significa que tudo o que diz deva ser levado a sério.Defendeu a importância cultural do funk carioca, ratificou odesprezo pela falsa nobreza que os críticos dão ao rock("historicamente é lixo") e apontou o ótimo Brasileirinho, desua irmã Maria Bethânia, como o melhor disco do ano passado. Nãose furtou, no final, a criticar o governo Lula. "Estou de sacocheio desse governo que é mais mantenedor do queexperimentador." Sobre insinuações de que estaria em declíniocriativo como compositor, demonstrou impaciência. "Estouenvelhecendo, talvez os neurônios não funcionem mais", disse,bem-humorado.

Agencia Estado,

02 de abril de 2004 | 18h32

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