Cada um na sua no Free Jazz

A primeira noite do Free Jazz Festival seguiu à risca o slogan da marca de cigarros que patrocina o evento: Cada um na sua mas com alguma coisa em comum. Irving Mayfield fez um show considerado por muitos o melhor do dia, Greg Osby, com seu jazz escolástico, não se saiu tão bem. O Sonic Youth deixou seus fãs boquiabertos com um repertório eclético. A decepção ficou mesmo com Sean Lennon, cuja apresentação apenas comprovou que certas características do indivíduo independem da genética. O ponto de convergência, que trouxe unidade ao festival, foi o fato de os artistas se mostrarem extremamente simpáticos à música brasileira. Pouco antes das 20h, horário marcado para o início das apresentações do Free Jazz em São Paulo, o público ainda era pequeno. Em grande parte, jovens enfileirados na espera pelo show do Sonic Youth. Um telão instalado entre os palcos Main Stage e New Directions transmitia cenas de antigos espetáculos. De Rafael Rabello, Paco de Lucia a Pat Metheny e Stanley Jordan. Minutos depois, a movimentação dava conta que Irvin Mayfield começara a desfilar suas composições no palco New Directions. De fato. O trompetista, nascido em New Orleans há apenas 22 anos, membro de uma das sensações do jazz atual, a banda Los Hombres Calientes, baseou seu espetáculo em composições de Irvin Mayfield, seu álbum de estréia. Fez um grande show, no qual a técnica apurada não suplantou a emoção. A recíproca é verdadeira.Na seqüência, após um pequeno intervalo, Greg Osby subiu ao palco. Dois motivos contribuíram para que seu show não recebesse os mesmos elogios por parte do público. A ótima abertura que fizera Mayfield, e o excesso de zelo que o saxofonista Osby parece manter quando está no palco. Suas composições e interpretações são corretas e bem estruturadas. Os membros de sua banda são virtuosos. No entanto, e por isso mesmo, pela ausência de espírito libertário, a apresentação não agradou. Vale a frase da amiga: ?Acadêmicos demais?. Main Stage - Sean Lennon tocara no Rio ao lado de Arnaldo Baptista, líder dos Mutantes, Panis et Circenses. Como poucos conheciam o trabalho do filho de John e Yoko, a expectativa era pela possível aparição de Arnaldo para uma canja, o que não ocorreu. Sean baseou-se em canções de Into the Sun, seu álbum de estréia. Na ordem tocou Yellow Moon, uma baladinha despretensiosa, Day Dream e Paper Plane. Não vale continuar. Em certos momentos parecia que o cantor e guitarrista estava apresentando a mesma música. Os saltos, as progressões harmônicas seguiam ordem alguma, tão somente um caminho encontrado pelo músico, caminho esse que se repetiu até a exaustão. E sempre ficava aquela sensação gozada de ?eujáouvissoantes?. Tudo bem, porque mesmo com o show morno de Sean, no qual o público foi pequeno, a noite estava salva. Os nova-iorquinos do Sonic Youth, já quarentões, deram uma aula de rock contemporâneo. E mostraram, de uma vez por todas, que o gênero para progredir precisa se despir de seus preconceitos estéticos e buscar novas referências em outras possibilidades musicais. O Sonic Youth, por exemplo, se alimenta ouvindo a música erudita contemporânea, de John Cage e outros. Mas aos fatos, são eles que importam. No repertório procuraram perpassar os diferentes momentos da carreira. Abriram com Tom V., com Trurston Moore rolando no chão e Kim Gordon num sensual vestido cor-de-rosa. Na seqüência destaque para Bullet in the Heather, Side2Side, a velha e ótima Teenage Riot e a nova e ótima NYC Ghosts & Flowers. Entre uma canção e outra, muitos improvisos, como é usual. Barulhos ensurdecedores e engrandecedores. Nesses momentos parece que a banda leva a música pop até o limite do indigesto. Quando o público começa a esboçar reação, o quarteto (em São Paulo um quinteto porque Jim O?Rourke participou tocando baixo) volta para os compassos binários e todos saem felizes. No cenário de palco, comedido, apenas uma projeção de imagem. Uma esquina de Nova York, com seus carros e pessoas em transito, passando para sempre ficar. Após os espetáculos Dj Marky comandou a mesa de som e colocou o público jovem presente para dançar com muito drum?n?bass. Hoje o festival prossegue no Rio e em São Paulo. No Museu de Arte Moderna do Rio, na noite de encerramento deste que pode ser o último ano de Free Jazz, os destaques são os revolucionários jazzistas do Art Ensemble o Chicago e o tecno-indiano de Talvin Sight. No Jockey Club, em São Paulo, quem comanda a noite é o músico francês Manu Chao. No palco Club, João Donato, o cubano Chucho Valdés e o contra-baixista Ray Brown mostram como fazer bom jazz

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