Cabe de tudo no CD do Dresden Dolls

É como se fosse uma fusão entre aquelas canções dos anos 20 (um cozido onde entram Jaques Brel, Dietrich, Piaf, Brecht e Weill), com o punk rock sujo que surgiu no CBGB, o clubezinho cult de Nova York. A sensação pode ser resumida na canção Coin Operated Boy, que leva você a lugares tão remotos quanto a França dos anos 60 de Serge Gainsbourg, o porão mais sujo do Village e o Cabaret Voltaire de Francis Picabia. Tudo ao mesmo tempo agora.Pois bem: apesar da descrição esquizofrênica, trata-se tão-somente de uma dupla, e eles são de um lugar bastante esquadrinhado, Boston. É apenas um casal, a compositora, cantora e pianista Amanda Palmer e o baterista Brian Viglione. O disco que acaba de ser lançado no Brasil pela Sum Records, The Dresden Dolls, já tem dois anos, mas condensa toda a esquisitice e ousadia sonora do grupo.Como The White Stripes, eles estão se lixando para as regras do "novo" rock, que produz trios ou quartetos com cabelinhos desarrumados e calças customizadas como se fossem Big Macs. Seu brechó musical tem no estoque o fungo do experimentalismo. Revisitam experiências sempre incompletas, recitais de cabaré e happenings do tipo spoken words, como poetas declamando poemas beats em igrejas abandonadas."Combine a atmosfera enfumaçada de um cabaré da República de Weimar com a fúria do rock n´ roll de Joan Jett, PJ Harvei e The Violent Femmes e você terá uma idéia do que é o Dresden Dolls", escreveu um crítico. É mais ou menos isso.Não que o que eles façam seja absolutamente novidade. Ute Lemper já o faz há um bom tempo. Nick Cave também. Tom Waits também. Seu componente insólito é a sujeira, o fato de que não querem soar como paródia do passado, mas como um tributo ao passado.

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