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Burt - Maestro hitmaker

Às vésperas de seus 85 anos, Bacharach lança autobiografia e faz turnê pelo País que viu pela primeira vez com Marlene Dietrich

Antonio Gonçalves Filho,

09 de março de 2013 | 07h00

Burt Bacharach completa 85 anos no dia 12 de maio, mas não pensa em se aposentar. Ao contrário. O maestro e compositor norte-americano, autor de grandes sucessos como Alfie e The Look of Love, está em plena atividade. Volta ao Brasil em abril para duas apresentações - a primeira no Rio, dia 18, e a segunda, dia 20, no HSBC Brasil, em São Paulo. Bacharach voltou também ao mundo dos musicais (o mais antigo, Promises, Promises, de 1968, era uma adaptação teatral do filme Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder, remontado na Broadway há três anos). Depois da estreia de Some Lovers há dois anos, em San Diego, Califórnia, ele prepara um novo musical com Elvis Costello baseado na série de cinema Austin Powers, e, em maio, lança nos EUA a autobiografia Anyone Who Had a Heart, contada pelo maestro ao jornalista Robert Greenfield, biógrafo de Timothy Leary.

Bacharach, animado, anuncia todas essas novidades por telefone. Está feliz por ter encontrado Elvis Costello, o marido da cantora canadense Diana Krall, que, desde 1995, tem sido seu parceiro musical mais constante, quando os dois escreveram juntos a canção God Give Me Strengh, tema do filme Grace of My Heart, que levou a dupla a gravar um CD inteiro, Painted from Memory (1998). Costello, fã antigo de Bacharach, foi, de algum modo, o responsável pelo revival do maestro, que, depois desse encontro, gravou o experimental At This Time (2005) ao lado do rapper e produtor Dr. Dre e do cantor Rufus Wainright e - inimaginável - com um repertório que incluía canções engajadas de um compositor essencialmente associado a canções de amor, assinadas por ele e o letrista Hal David, morto em setembro passado, aos 91 anos.

Pela primeira vez, no disco At This Time, arriscou assinar as letras das próprias composições em parceria com o veterano Tonio K. (cujas canções já foram gravadas por Al Green). O disco ganhou o Grammy de 2005 (melhor pop instrumental) e, desde então, Bacharach só faz colecionar prêmios. "Fiquei bastante emocionado ao receber o prêmio Gershwin das mãos de Barack Obama, em maio do ano passado, na Casa Branca", diz o compositor, lembrando o apoio político que concedeu ao presidente em sua campanha pela reeleição. O democrata Bacharach, que se arrepende de não ter sido mais engajado no passado - ele escrevia canções leves em plena guerra do Vietnã -, busca recuperar o tempo perdido apostando em trabalhos mais densos, embora não despreze a grande obra musical popular construída com o parceiro Hal David, gravada por todo mundo que importa no mundo pop e do jazz, dos Beatles a Nina Simone.

"Veja, há dois anos estreamos o musical Some Lovers, que conta a história de um casal em dois difíceis momentos da vida, explorando o paralelo com o casal de O Presente dos Magos, de O. Henry", conta Bacharach. Ele destaca o libreto do parceiro Steven Sater (premiado com o Tony pelo musical O Despertar da Primavera, já montado no Brasil) e comenta: "(Hal) David se foi, mas fui presenteado com novos parceiros como Elvis (Costello), Tonio (K.) e Steven (Sater)".

Sobre a parceria com Hal David e a briga que separou a dupla por dez anos, limitando a comunicação a conversas por meio dos respectivos advogados, Bacharach garante que conta toda a história na autobiografia, cujo conteúdo, adianta ele, vai muito além dos momentos de glória. "Falo de meus quatro casamentos e também de minha filha Nikki, que cometeu suicídio há seis anos." Nikki Bacharach tinha 40 anos e sofria da síndrome de Asperger. Nascida prematura do casamento do maestro com a atriz Angie Dickinson, Nikki morreu sufocada com um saco plástico.

Foi com a ajuda da ex-mulher Angie Dickinson que Bacharach chegou a Hollywood e começou a compor trilhas para o cinema, a primeira delas para o filme O Que É Que Há Gatinha? (What’s New Pussycat?), em 1965. Até 1973, quando escreveu a música de Horizonte Perdido, tudo que tocou virou ouro. Com o fiasco do filme dirigido por Charles Jarrott - definido pela crítica Pauline Kael como uma "utopia geriátrica classe média" - sua carreira no cinema entrou em declínio. Os anos 1980 e 1990 não conheceriam nada parecido com o sedutor tema The Look of Love, o principal composto para o filme Cassino Royale, stravaganza com vários agentes 007 produzida por Charles K. Feldman em 1967. "Fiz a música enquanto Angie (Dickinson) manipulava o projetor com as imagens de Ursula Andress", conta. Cansada de tanto cuidar da projeção caseira (naquele tempo não existia VHS nem DVD), Angie dormiu. Bacharach, hipnotizado pela beleza de Ursula, compôs The Look of Love de uma só tacada. "Um ritmo brasileiro (a bossa nova, provavelmente) entrou em minha cabeça e, de repente, pensei numa introdução com o violão seguido do sax para evocar a imagem sexy de Ursula."

Bacharach, então, já conhecia o Brasil. Ele passou pelo Rio ainda jovem. Tinha 31 anos e veio como diretor musical da diva alemã Marlene Dietrich. A passagem pelo Copacabana Palace está registrada no disco Dietrich in Rio, de 1959, coincidentemente o ano em que João Gilberto lançou seu primeiro álbum, Chega de Saudade, oficializando a bossa nova. Bacharach gravou com Marlene a popular Luar do Sertão, toada de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco que ela canta em português (com sotaque carregado, prolongando o "sertoooon" no final). "Falo na autobiografia também dessa experiência de tocar piano ao lado de Marlene, além de outros fatos curiosos". Um deles diz respeito à amizade com John Cage, seu companheiro de concertos quando estudava composição com Darius Milhaud (1892-1974) na Academia de Música de Santa Bárbara.

"Cheguei a compor uma sonatina para violino, oboé e piano, mas fiquei envergonhado por ser uma peça muito melódica, quando todo mundo na época (anos 1950) estava fazendo música dissonante." Milhaud - também mestre de Stockhausen, Dave Brubeck e Philip Glass - ouviu, gostou e disse que Burt Bacharach, judeu como ele, tinha um talento nato como melodista (a iídiche mama de Burt percebeu isso muito antes de Milhaud e obrigou o garoto a estudar violoncelo, bateria e piano, que ele odiava). Foi, portanto, graças à autoridade da mãe, Irma Freeman, e ao incentivo do compositor francês (cuja passagem pelo Brasil rendeu a célebre Le Boeuf Sur le Toit), que o mundo conheceu canções como Walk on By e Alfie, a preferida do compositor.

Bacharach promete cantar Alfie nos concertos brasileiros, além de outros incontornáveis sucessos - Raindrops Keep Falling on My Head está entre eles. "Quando se faz uma trilha como a de Butch Cassidy and the Sundance Kid (da qual esse é o tema principal), é difícil mesmo seguir adiante", argumenta, justificando seu silêncio como compositor de cinema nos anos 1980 e 1990 - excetuando-se o sucesso de Arthur, o Milionário (1981), ele compôs poucas trilhas no período. Mesmo assim, trilhas suas que estavam totalmente esquecidas, como a do filme italiano Amo Non Amo (de 1979, exibido nos EUA como Together) começam a ser relançadas no mercado japonês, que é louco por Bacharach. É um revival global. Só neste ano, depois do Brasil, o maestro faz uma turnê europeia que passa em junho pela Dinamarca, Inglaterra e Noruega. Disposição não falta ao maestro.

O BÁSICO DE BURT

Reach Out

Lançado em 1967, o disco reúne alguns dos maiores sucessos do compositor ao lado do parceiro letrista Hal David, entre os quais Alfie e The Look of Love

Butch Cassidy and the Sundance Kid

Trilha do filme dirigido em 1969 por George Roy Hill, tem como tema principal a popular Raindrops Keep Falling on My Head

At This Time

Premiado com o Grammy de melhor disco instrumental pop de 2005, marca a virada na carreira do músico com canções críticas

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