Buddy Guy traz seu blues ao Brasil

A bordo de um dos mais festejadosdiscos de sua carreira, Sweet Tea (Zomba Records), aterrissano Brasil no dia 20 o bluesman Buddy Guy, um dos remanescentesde uma era de ouro do gênero (junto a B.B. King). O guitarristaestá no auge. Foi indicado para mais um Grammy por seu álbum, nacategoria Melhor Blues Contemporâneo (ele já tem quatroprêmios); tocou em outubro do ano passado na homenagem àsvítimas do World Trade Center, ao lado de Eric Clapton (a músicaera I´m Your Hoochie Coochie Man) e tem sido bajulado portodas as publicações especializadas, da Guitar Player àRolling Stone. Aos 66 anos, ele parece que tem 20. Está com uma agendade concertos plena: no dia 17, ele toca em Athens, na Georgia.No dia 20, já está no Rio de Janeiro, no ATL Hall. No dia 21,toca no Credicard Hall, em São Paulo. No dia seguinte, é a vezde Porto Alegre, no Auditório Araújo Viana. Sem respirar, quatrodias depois volta ao palco nos Estados Unidos, no Filmore deDenver, Colorado. "Lembro-me que toquei pela primeira vez no MaksoudPlaza, em 1985, e desde então vocês não pararam de me convidarpara tocar em São Paulo e eu não sei explicar bem a atração, seiapenas que faço o melhor que posso e que todo mundo é muitoamigável comigo", disse hoje o guitarrista, falando portelefone dos Estados Unidos. Buddy Guy vem com um sexteto - duasguitarras, bateria, baixo, saxofone e teclados. "Ouvi muita coisa ao longo da minha vida: Howlin´ Wolf,T-Bone Walker, e poderia falar aqui por uma hora sobre isso",disse. "Poderia ter tocado gaita ou bateria, mas o fato é quecaí de paixão pela guitarra e essa é a minha história." Uma desuas poucas queixas em relação ao mundo da música é que o bluesainda é, segundo ele, um gênero restrito ao gueto. "Vivemos ainda a mesma situação de sempre; somentealgumas rádios tocam o blues, não há artistas do gênero em showsde televisão e as novas gerações não têm contato com nossamúsica", afirma. "O passado do blues não chega às novasgerações também por que o mainstream está morrendo e os novosbluesmen não viram aquilo que nós vimos, e talvez nem queiramsaber", pondera. "Muddy Waters, T-Bone, John Lee Hooker;somente eu e B.B. King ainda estamos na estrada." Buddy Guy gravou Sweet Tea como um desafio para simesmo. Ele se lembrava muito remotamente do som do blues donorte do Mississippi, um som mais rústico e cru do que o que seacostumara em suas recentes turnês, cheias de produção e efeito."Eu cresci na região, mas não tocava aquilo havia muito tempo" lembra. "Então, o produtor (Dennis Herring) me levou aoestúdio e me disse para esquecer o jeito que estava acostumadode gravação, que não haveria muita tecnologia à disposição,gravaríamos coisas mais acústicas." Mesmo as canções que iria gravar não eram muitofamiliares. "Disseram que eu ia gravar a música de JuniorKimbrough e eu disse ´Junior quem?´", lembra-se. JuniorKimbrough tinha 62 anos quando gravou o primeiro disco e morreuem 2000. Antes, ele teve seu disco "All Night Long"considerado o melhor álbum de blues do ano pela "RollingStone". Sua trajetória é considerada simbólica do anonimato emque viveram boa parte das lendas do blues - o próprio Buddy Guyquase passou batido pela calçada da fama. Nascido em 30 de julho de 1936 em Lettsworth, Louisiana,George "Buddy" Guy ficou 15 anos sem um contrato com umagravadora - até 1991, quando lançou o festejado Damn RightI´ve Go the Blues. Até hoje ele não se sente muito à vontadepara comentar assuntos que sejam alheios à música. Ao serquestionado sobre qual foi sua reação ao saber que sua companhia Zomba Records, tinha sido comprada pela BMG, explica. "Olha,isso pode ser notícia, mas não para mim, porque eu apenas tocominha guitarra, não tenho controle sobre os negócios que osempresários fazem em suas companhias de discos." Sweet Tea é um disco centrado na tradição, mas quetambém representa uma interessante ponte entre dois extremos dadiáspora do blues. Buddy (assim como Otis Rush) é um dosexpoentes do som de Chicago, e foi diretamente responsável pelainfluência que o blues exerce na música inglesa. Em 1957, deixousua cidade natal para estabelecer-se em Chicago, tornando-semúsico de apoio para gente como Muddy Waters, Sonny BoyWilliamson, Little Walter e Howlin´ Wolf. "Quando Little Walter, Muddy e Wolf me quiseram paratocar com eles, aquilo é que foi meu Grammy", lembra. "Era omais alto que poderia ir; cara, falar com homens como aquelesera sentir faltar o chão sob os pés, e era como eu me sentiaquando estava em torno deles." Naqueles anos, Buddy teve um contrato com a ChessRecords e tornou-se parte da "colonização" musical daInglaterra, para onde partiu nos anos 60. Fez apresentaçõesprecedidas por shows de um iniciante Rod Stewart e influencioubarbaramente guitarristas como Keith Richards, John Mayall eEric Clapton (há quem diga que mesmo Hendrix aprendeu algumacoisa dele). Ao mesmo tempo em que tem essa carga de experiência,Buddy Guy conhece como poucos a tradição do blues rural, já quenasceu e cresceu no Sul da Louisiana. Ao imprimir sua velocidadenum esquema musical de grande dose de repetição, ele produziualgo original e vigoroso. A banda que o acompanhou em Sweet Tea também ajudoua tornar o som do álbum absolutamente diferente: estavam láBobby Whitlok (do grupo Derek and the Dominos), Jim "Jimbo"Mathus (do grupo Squirrel Nut Zippers) e o baterista Spam (dabanda de James "T-Model" Ford) e o baixista David Faragher. Oálbum tem nove canções, e apenas uma é composição de Guy - boaparte das outras pertenceram ao repertório de Fat Possum. "O disco me levou de volta às origens", diz oguitarrista. De volta a Lightnin´ Slim, a primeira grandeinfluência, por exemplo. "Eu estava no primário quando o vitocar pela primeira vez e decidi que seria músico", lembra."Algum tempo depois, nós nos tornamos amigos e eu toquei comele." Buddy Guy ganhou quatro prêmios Grammy em sua carreira.Em 1991, 1993 e 1995, ganhou por Melhor Álbum de BluesContemporâneo. "Para mim, é uma categoria política", diz."Contemporâneo ou o que quer que seja, para mim é sempre oblues, não tem essa divisão." Em 1996, ele levou outro demelhor performance instrumental de rock pela participação noálbum "SRV Shuffle", um tributo all-star ao guitarrista StevieRay Vaughan, o homem que repôs o blues no centro das atenções nocomeço dos anos 80.

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