Bruna Moraes e seus ritmos brasileiros

Com apenas 18 anos, cantora faz show de lançamento de seu 1º disco

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2014 | 15h00

Quem estiver na plateia do Tom Jazz nesta quarta, 22, pode vivenciar o ar o "efeito Susan Boyle". Assim como quem não deu crédito à desajeitada senhorinha escocesa antes de sua impressionante audição no programa Britain’s Got Talent – quando cantou I Dreamed a Dream, em abril de 2009 –, enganam-se os que julgarem Bruna Moraes pelos seus 18 anos, 1,53 m e sua carinha de quem acaba de chegar ao mundo.

Bruna faz show de lançamento de seu primeiro álbum, Olho de Dentro. Lançado em novembro do ano passado, o disco tem sete das 11 faixas compostas por ela, só ou com parceiros, e quatro regravações. Com a maturidade de quem já tem alguns anos de estrada, a paulistana mescla ritmos brasileiros – samba, baião, chorinho – e usa, sem esforço, a variação de tons a favor de sua interpretação.

É tanto talento para tão pouca vivência que Bruna nem atribui o sucesso a ela. “Canto desde os 12 anos, então isso nasceu comigo. Não tenho mérito por isso, não vivi fazendo de tudo para que isso acontecesse”, diz. Com uma ligação forte com a umbanda, a compositora acredita, por vezes, receber as canções em letra e melodia.

Foi o que Bruna diz ter acontecido com Zóio de Foia, faixa assinada por ela e que abre o disco. Em uma visita a um terreiro, ela conversou, por meio de um terceiro, com uma entidade, que lhe ditou parte da letra. “Em casa, percebi que as palavras encaixavam exatamente com uma melodia que eu tinha feito havia muito tempo. Fiz uma oração, chamei a entidade e terminamos a música juntos”, lembra.

Quando compôs Chorei num Samba, em parceria com Ítalo Lencker, Bruna usou palavras que nem conhecia na época, tendo que pesquisar os significados posteriormente. “Pode até soar prepotente, mas é como se eu fosse o instrumento de um ser divino.”

Não é sempre, no entanto, que as letras chegam a Bruna. Com a primeira música composta aos 11 anos, seu repertório conta com apenas 15 canções. Seja recebendo as palavras de alguma entidade ou escrevendo-as de inspiração própria, o processo de composição é quase sempre no mesmo local: o banheiro. É que, em uma casa com dois irmãos menores, dois cachorros e uma barulhenta mãe descendente de italianos, lá é o único cômodo onde ela pode se trancar e ter privacidade. “Levo uma xícara de café, um maço de cigarros, cinzeiro, caderno, um celular para gravar e o violão. A pia fica cheia de coisas”, ri. Segundo ela, as composições só vingam quando vêm de uma vez, sempre após uma inspiração muito forte que a deixa inquieta até que ela coloque tudo no papel.

Apesar de o pai de Bruna ter sido baixista de uma banda de baile dos anos 1980, foram os amigos da rua que a fizeram ingressar no mundo da música. Como muitos deles tocavam violão, ela quis logo dominar o instrumento para participar das rodinhas. Entrou, em 2006, em um curso extracurricular na escola e, em um ano, percebeu que estava tocando muito melhor do que todos.

No ano seguinte, ingressou, por meio de um processo seletivo, na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), em que deu sequência aos estudos de violão popular. Entre os 14 e os 16, Bruna já cantava em bares, sempre acompanhada dos pais. “Muitas vezes fui ‘virada’ para a escola porque cantava até tarde na quinta-feira. Eu estudava de manhã. Quase repeti por falta em várias matérias”, lembra a menina que concluiu o ensino médio e, por enquanto, não pensa em fazer curso superior.

Influências. Dividida entre o que a galera escutava e os tesouros brasileiros que encontrava, Bruna ouvia modas de viola, Fresno, Simone e Fábio Júnior. Tudo mudou quando ela ouviu o primeiro disco de Maria Rita e, por intermédio dela, descobriu Elis Regina. “Aí minha cabeça explodiu. Comecei a ouvir Tom Jobim, Chico Buarque, tudo muito rápido.” Com timidez, ela admite que ouvir Ana Carolina a fez entender que o negócio dela era a música, mas que a cantora não tem mais nada a ver com o seu trabalho. Nomes como Noel Rosa, Guinga, Rosa Passos, Moacir Santos, Toninho Horta, Leny Andrade e Mônica Salmaso também passaram pelos ouvidos de Bruna.

Duas temáticas são bem presentes nas músicas de Olho de Dentro: o amor e a natureza. Às vezes mistura ambas, como na romântica Muito Mais (“O desejo de pressa abre meus armários / incendeia as vestes / (...) / como uma onda de água e sal), ou na tranquila Na Vazante (“E é correr pra ver chuva se esconder no mar / e é só ver você pra querer cantar). “O mar é a minha imagem-mor. É gigante, forte, destrói assim como constrói, tem maré, calmaria e, ao mesmo tempo, ele é água. E o amor é a matéria-prima do poeta”, reflete. Para ter a proteção de um orixá, Bruna empresta o grave de sua voz à faixa Iansã.

Entre as regravações, consta Sem Fantasia, canção de Chico Buarque gravada por ele em duo com Maria Bethânia. Ao lado de Lenine Guarani, seu namorado, Bruna, faz uma versão em tango. A intérprete também aceitou uma oferta da gravadora, que detém algumas músicas de Taiguara (pai de Guarani), e resolveu gravar a inédita Levante do Borel. Trata-se de um samba-enredo sobre negros que o compositor criou para a escola de samba Unidos da Tijuca, mas que não foi aceito.

BRUNA MORAES - ‘OLHO DE DENTRO’

Tom Jazz. Avenida Angélica, 2.331, Higienópolis, telefone 3255-0084.

4ª (22), 21 h. R$ 50. 

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