Kevin Mazur/Netflix
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Bruce Springsteen volta aos anos 1970 com cordas e lamentos

Em ‘Western Stars’, seu novo disco, o compositor revisita o pop e experimenta gêneros

Jon Pareles, The New York Times

01 de julho de 2019 | 03h00

No meio do enorme catálogo de composições de Bruce Springsteen, Western Stars é uma escapada no espaço e tempo: uma homenagem a uma era pop passada e um retorno a uma de suas fascinações recorrentes – o oeste americano de hoje em dia, como o imaginado e, no início dos anos 1990, habitado por um nativo de New Jersey. Não é um álbum cortejando novos fãs jovens ou reivindicando qualquer espírito da época de 2019. É mais como uma história especulativa alternativa: e se a música de Springsteen tivesse tomado uma direção diferente no início?

Western Stars chega seguindo a autobiografia explícita (Born to Run) e a sinceridade de Springsteen on Broadway. Em vez de tentar estender esse revelador tour de force, o novo álbum segue para outro lugar; é uma experiência de gênero e narrativa. A maioria das músicas tem histórias de outras pessoas, não do próprio Springsteen. Nelas, o oeste da Califórnia, juntamente com Arizona e Montana, podem ser uma promessa de espaços abertos e segundas chances. Mas, mais frequentemente, o horizonte ocidental é o fim da linha, onde os personagens de Springsteen se encontram sozinhos com seus arrependimentos.

A música em si é uma espécie de estudo de personagem. Isso remete a um estilo pop do início da década de 1970 quando Springsteen – agora com 69 anos, cujo álbum de estreia apareceu em 1973 – não tinha nada a ver com a época. Western Stars revisita um som que encontrou um lugar nos estúdios de Los Angeles e em Nashville como meio de colocar cantores country na rádio pop. As elaboradas produções da época – o som de intérpretes como Glen Campbell, Harry Nilsson, Charlie Rich e Mamas and the Papas – envolviam guitarras acústicas e teclados, bateria discreta e meros sussurros de violão de aço country em arranjos de orquestra. 

Em 2019, no entanto, o estilo é um repúdio direto ao pop atual: suave e líquido, em vez de rítmico e fluido, e contando amplamente com instrumentos físicos acústicos (embora no álbum de Springsteen entrem alguns sintetizadores).

Essas primeiras produções do início dos anos 1970 eram, sem qualquer remorso, decorosas, premeditadas, luxuosas e adultas. No entanto, em canções como The End of the World, de Skeeter Davis, ou By the Time I Get to Phoenix, de Campbell, os luxuosos pop hits orquestrais dos anos 1960 e 1970 amorteceram a tristeza e a solidão. Eles estavam a mundos de distância da banda de bares turbinada que se tornaria a E Street Band de Springsteen, e eles estavam claramente de olho no meio da estrada, não na via rápida. O artesanato desses esforços de estúdio era tão modesto quanto substancial; os músicos contratados tinham como meta de servir à música, não serem notados. Como um estudante vitalício da música popular americana, Springsteen percebeu isso claramente.

Em Western Stars, algumas músicas – Tucson Train, Sundown, Stones – soam como se a E Street Band, pudesse ser trocada pela orquestra. Mas Springsteen se esforça para encontrar no idioma escolhido mais do que um meio-termo. Ele canta com frases de respiração longa que não são exatamente sussurradas, mas que se propuseram a sustentar mais do que elas exortam.

Uma das peças centrais de Western Stars é Chasin’ Wild Horses. Seu narrador fez algo horrível em sua juventude, depois saiu de casa para se perder como caubói, perseguindo cavalos selvagens em Montana, às vezes gritando o nome de um amor perdido para um eco vazio. Há uma semelhança estranha, sem dúvida coincidência, com o hit de Lady Gaga-Bradley Cooper, Shallow, mas seu crescente impacto vem do arranjo expansivo.

O arco do álbum – Springsteen ainda trata um álbum como um todo – passa da esperança ao desespero para a tristeza. O álbum começa com Hitch Hikin, cujo narrador facilmente consegue carona após carona. Mas, como de costume para Springsteen, Western Stars não visa ao conforto. Como seu álbum centrado na Califórnia de 1995, The Ghost de Tom Joad, suas músicas retratam pessoas que geralmente passam despercebidas e que têm pouco a perder. A música título, Western Stars, é contada por um ator idoso – ex-estrela de westerns – que ainda está trabalhando, pegando mulheres e ocasionalmente sendo reconhecido: “Uma vez, fui baleado por John Wayne”, ele canta. “Aquela cena me rendeu mil bebidas.”

Muitos dos personagens do álbum são homens tentando se perder no trabalho físico, para suar as memórias de um amor que eles não conseguiram manter. “O trabalho duro vai limpar sua mente e corpo / O sol forte vai queimar a dor”, Springsteen canta em Tucson Train, e essa é uma das poucas músicas do álbum que antecipa um final feliz. Em Drive Fast (The Stuntman), em meio a cordas que lembram Wichita Lineman, o cantor é um dublê que detalha seus ossos quebrados e cicatrizes, relembrando um romance em um cenário de filme B. E, em There Goes My Miracle, há o pequeno indício de uma história por trás da perda: apenas um crescendo orquestral e uma melodia imponente.

No final do álbum, as possibilidades de fuga e renovação desapareceram. Hello Sunshine é o primeiro single do álbum e sua soma. O som é acolhedor: grandes acordes, uma batida leve como um trem passando. Mas Springsteen canta sobre o quão vazia a estrada sem fim se tornou: milhas a percorrer são milhas de distância, ele adverte, e seu refrão é realmente um apelo: “Olá, felicidade, você não vai ficar?” O ritmo da guitarra é um agradável sussurro, a guitarra de pedal aço empresta um brilho dourado e as cordas são um banho morno. No entanto, por mais calmantes que sejam, eles não estão perto o suficiente para tornar boas as coisas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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