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Bruce Springsteen critica o governo e semeia esperança em novo disco

'Wrecking Ball', 17° álbum do músico americano, chega às lojas nesta terça-feira

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

02 de março de 2012 | 21h43

É ano de eleição na América. A crise sufoca, a esperança míngua e Bruce Springsteen surge para cantar o desespero do proletariado. Eis o calendário do "Boss" - ou o "Chefe" - como é conhecido nas bandas de lá o insofismável poeta das massas, guardião lírico da democracia e da liberdade, cuja presença em eventos políticos, dos memoriais de 11 de setembro à posse de Barack Obama, ilustra seu status de semideus no zeitgeist americano.

Bruce lança na terça-feira seu décimo sétimo álbum de estúdio, Wrecking Ball (o primeiro em três anos). Como sugere o título (bola de demolição), o cantor está bravo e tem algumas coisas a dizer ao povo sobre aqueles que estão no poder.

Wrecking Ball se introduz com o single We Take Care of Our Own. Nele, o cantor aponta o descaso do governo com o povo através de referências ao furacão Katrina, às lojas de armas, e ao Iraque. É uma jogada conhecida. Como no clássico Born in the U.S.A, que fala do sofrimento de veteranos de guerra, o cantor usa um refrão ufanista para velar sua crítica. A voltagem é alta, o tom é esperançoso, e o bordão militar "Nós cuidamos dos nossos", que poderia facilmente ser usado pelo exército americano em um vídeo promocional sobre oportunidades de trabalho, transforma-se em uma declaração cínica.

A voz é raçuda. Quanto mais curtida pelos anos (Springsteen tem 62) mais esforço ela requer, mais triunfo ela transmite, e maior é a sensação de que Bruce compreende as dificuldades e as superações do homem comum.

Em Wrecking Ball ela vai da alta voltagem de We Take Care a baladas solenes, como Jack of All Trades. Cada canção é composta através do olhar de um personagem cotidiano. Há um desempregado que se transforma em bandido, em Easy Money; um marido que perde o emprego, mas assegura sua mulher de que tudo vai dar certo; um casal que se apoia durante os tempos difíceis.

Além de explicar o sucesso, a fé em uma luz no fim do túnel é o maior trunfo da produção de Springsteen. Sua música parece afirmar continuamente que tudo vai dar certo no final ou, como diria Cartola, depois da tempestade, o sol nascerá. Esta esperança, calcada em tons religiosos comuns na música de Springsteen, faz de Wrecking Ball uma digna adição à discografia do cantor. Através de suas 11 faixas, vista pelo olhar de seus diversos personagens, ela soa sincera em sua perseguição do sonho americano, um gesto resoluto e empolgante.

O ápice do disco vem na faixa-título - a mais grandiosa de todas - feita para ser ouvida em um estádio. You’ve Got It, uma canção romântica com bons solos de guitarra (os de sax, feitos em outros discos pelo finado Clarence Clemons, deixam saudade), inicia uma boa sequência perpetuada pelo apaziguante refrão feminino de Rocky Ground.

A aparente hipocrisia de Springsteen, um milionário que canta sobre o sofrimento do povo, é vez ou outra questionada em resenhas sobre seus discos. Seu currículo dispensa qualquer necessidade de uma satisfação. O que sobra, no entanto, é a apreciação pela arte de um cantor (talvez até um ator) que, aos 60 anos, é capaz de encarnar a alma de um povo como poucos show men. Poderia quiçá ser eleito em novembro.

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