Maciej Jazwiecki/Agencja Gazeta via REUTERS
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Pianista Bruce Liu, vencedor do prestigioso Concurso Chopin, se apresenta em São Paulo

Músico canadense vai interpretar obras de Chopin em apresentação que terá transmissão ao vivo pela internet

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

14 de dezembro de 2021 | 05h00

No começo da tarde da última sexta-feira, 10, Bruce Liu se preparava para dar um pulo na praia. O pianista canadense havia chegado ao Rio de Janeiro algumas horas antes. “Eu devo dizer que não consegui ainda processar tudo o que aconteceu, isso é certo. Parece que faz muito tempo e não faz, apenas um pouco mais de um mês”, ele diz. “Mas caminhar na areia deve ajudar”, completa, com um sorriso.

Um pouco mais de um mês atrás, Liu, de 24 anos, teve uma experiência que redefiniu seu caminho. Venceu o Concurso Internacional Chopin de Piano, em Varsóvia. É uma das competições mais importantes do calendário internacional. Acontece de cinco em cinco anos - a data original da nova edição era o ano passado, mas acabou transferida para meados deste ano por conta da pandemia do coronavírus.

Foram sete dias de provas, observadas de perto por um júri formado por músicos como Nelson Goerner, Akiko Ebi, Sa Chen, Dmitri Alexeev, Kevin Kenner, Krzysztof Jablonski e pelo brasileiro Arthur Moreira Lima, um dos vencedores da sétima edição, realizada em 1965 (a argentina Martha Argerich e o brasileiro Nelson Freire, pouco antes de morrer, estavam no júri, mas se retiraram pouco antes do início da competição).

Sete dias de provas - e um mês de recitais de premiação e de viagens pelo mundo, além do lançamento de seu primeiro disco pelo selo Deutsche Grammophon, feito em tempo recorde com algumas das peças tocadas por Liu ao longo da competição, que foram transmitidas ao vivo pela internet de Varsóvia para todo o mundo.

“Eu ainda não fui para casa no Canadá desde que a competição terminou”, diz Liu em entrevista ao Estadão. “Fiz vários recitais ainda na Polônia, viajei para concertos no Japão, Coreia do Sul, Bélgica, Israel e agora estou aqui. Eu não parei, mas o humor é dos melhores, até pela possibilidade de conhecer lugares como o Brasil.”

A turnê brasileira de Bruce Liu

Liu iniciou sua turnê pelo País no último domingo, quando tocou com a Orquestra Sinfônica Brasileira na Sala Cecília Meireles, no Rio. Sob regência do maestro Roberto Tibiriçá, interpretou o Concerto nº 1 para Piano e Orquestra e peças para piano solo de Chopin. A gravação do concerto, transmitido ao vivo, está no canal da orquestra no YouTube.

Nesta terça-feira, 14, é a vez de o pianista subir ao palco da Sala São Paulo para recital solo, no qual mais uma vez vai interpretar apenas obras do compositor polonês (a apresentação também terá transmissão ao vivo pelo canal do YouTube da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - Osesp). O programa tem o Scherzo nº 4 op. 54, a Sonata op. 2 op. 35 e as Variações op. 2 - e será repetido na quarta-feira, 15, em apresentação em Brasília, no Teatro Poupex.

Chopin, naturalmente, tem sido companheiro constante após a vitória no concurso. “É um compositor que te permite a cada interpretação novas possibilidades de interpretação. Antes de cada prova no concurso, enquanto esperava para entrar no palco, eu repassava a música na minha mente e encontrava uma ou outra ideia nova. A partitura está ali, você a segue, mas sente que há quase espaço para improvisação.”

O compositor é uma das especialidades do atual professor de Liu, o vietnamita Dang Thai Son, que venceu o concurso em 1980, com quem ele diz ter aprendido o interesse por mergulhar na obra do autor em busca de algo novo. “No final das contas, a arte de Chopin se trata disso”, diz o pianista. “É muito comum, quando você se prepara para uma competição, você montar um repertório da maneira mais impecável possível e, durante as provas, reproduzir aquilo que você tanto treinou e sabe fazer. Buscar, a cada dia, algo novo, é bem mais arriscado. Mas dessa forma você não fica entediado com você mesmo.”

A entrevista termina e Liu pede licença. Hora de ir para a praia. No domingo, postou em sua conta no Instagram uma foto em que, da piscina do hotel, observa o mar, antes de seguir para a apresentação. “Rituais pré-concerto”, escreveu. “Mas agora o padrão ficou muito alto.” Vista como essa, com certeza, vai ser difícil de encontrar.  

‘Eu me sinto uma mistura de várias culturas’

Bruce não é o nome verdadeiro de Bruce Liu. Ele se chama Xiaoyu, mas acabou adotando Bruce. Há quem diga que, na verdade, a escolha se deu pelos amigos o considerarem parecido com o ator Bruce Lee. Ele só ri da história. “Sim, e não. A escolha também funciona porque a pronúncia fica bem mais fácil para todo mundo.”

Liu nasceu em Paris, onde seus pais, chineses, se conheceram. Viveu na cidade até os 6 anos, antes de se mudar para o Canadá, onde tem residência até hoje, em Montreal. Sua relação com o piano começou aos 8 anos - e as primeiras apresentações se deram apenas três anos depois. Formou-se no Conservatório de Música de Montreal, aluno de Richard Raymond, antes de seguir para a Universidade de Montreal, membro da classe de Dang Thai Son.

“Eu me sinto como uma mistura de várias culturas”, ele conta. “Isso quer dizer abraçar todas elas, por um lado. E, por outro, experimentar algo que esse histórico me deu: a abertura na maneira de pensar, em me relacionar com várias culturas. E isso, acredito, vale também para o intérprete que sou, talvez fique mais fácil ir de um repertório para o outro, da música russa para a francesa ou para a alemã. Você absorve linguagens diferentes de forma mais rápida.”

O disco lançado pela Deutsche Grammophon com peças gravadas durante o Concurso Chopin é seu primeiro álbum. “Foi realmente rápido, eles escolheram o que iam colocar no disco, me mandaram a lista e eu só disse que tudo bem.”

Para o próximo disco, no entanto, os planos são diferentes. “O que eu realmente gostaria de fazer agora é me dedicar, em estúdio, ao repertório francês.” Talvez, ele diz, isso tenha a ver com a cultura francesa que absorveu no Canadá. Mas é provável que exista alguma relação também com Chopin e como a vida em Paris foi decisiva para sua trajetória e para sua música. “Ou então é mais simples do que tudo isso. Como intérprete, a música que você toca, que você escolhe tocar, de alguma forma está simplesmente relacionada com sua própria personalidade, com quem você é.”

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