Britney: de santa a pecadora

O beijo de Madonna é um terror. Faz surgir imagens estranhas na cabeça de uma garota que até então achava virgindade o máximo. Inspira a letra de uma canção sobre masturbação. E transforma a voz ingênua de animadora de programa infantil em gemidos e urros de fazer inveja a atrizes pornô. Britney Spears não é mais uma menina. E não quer deixar dúvidas sobre sua nova condição de ?femme fatale?.A causa da reviravolta responde pelo nome de In The Zone (Na Zona), seu quarto disco lançado pela gravadora Jive. São 12 músicas, sendo sete compostas por ela e parceiros como Moby e Red Zone. E aí cabe a Britney responder em que espécie de zona está. Sua música, a princípio, não ficaria mal como trilha sonora para noites de amor. A produção feita nos moldes de Music, da amiga Madonna, é pensada para deixar os sussurros em primeiro plano. Britney até canta, mas seus sussurros são muito melhores.Britney Spears está cansada de entrar nas páginas de jornais e revistas pela porta dos fundos. Sempre que falam dela é sobre o ex-namorado Justin Timberlake dizendo que a deflorou em uma noite tal, sobre a casa de US$ 5 milhões que quer comprar de Guy Ritchie, sobre o fato de ela ter ou não ter virado lésbica depois de sentir os lábios de Madonna nos seus. ?Não. Foi somente eu interpretando no palco. Nada mais profundo. Não saí daquele palco, calcei botas de caubói, endureci o andar e fui namorar uma cowgirl?, respondeu em entrevista à revista Época.Sua missão agora é provar que a fase dos sorrisinhos meigos acabou. E ao menos do ponto de vista musical, ela vem conseguindo bons resultados. In The Zone não traz uma vírgula de novidade com relação ao que vem sendo feito nos Estados Unidos por um harém de cantoras de peso. Mas a crítica estrangeira se empolgou tanto com o novo momento da garota que a recebeu com grande estardalhaço. Britney foi eleita Mulher do Ano pela revista Glamour Magazine. Sua canção I?m Not a Girl, Not Yet a Woman teve o clipe eleito a melhor produção no Golden Music Awards. E o o TRL Awards a consagrou Primeira Dama de 2003.Quem viu Britney Spears há quatro anos pode não acreditar que o furacão que aparece recebendo prêmios na tevê seja a mesma jacu que evitava falar para não ser ridicularizada publicamente. Um ritmo mais intenso de exercícios em academia deixou suas pernas mais grossas e seu abdôme, um tanque. Leituras diárias de livros de auto-ajuda e com temas espiritualistas conseguiram, no mínimo, lhe dar auto-confiança na hora de abrir a boca. E as roupas simples de quem era preparada para conquistar um público infanto-juvenil diminuíram, ganharam decotes, ou simplesmente sumiram.A ?santa? domada e imaculada virou uma criatura selvagem, como estampou na capa de sua última edição a revista Q 4Music: ?Britney mais selvagem!? A patrulha conservadora soou as sirenes nos Estados Unidos como se estivesse no final dos anos 50 diante dos primeiros rebolados de Elvis. Isso porque a música Touch of my Hand (Toque da Minha Mão) fala de masturbação. Mas não de maneira explícita ou vulgar. Uma bobagem perto das letras de Eminem, que manda a mãe ir para aquele lugar. O espanto se deu pelo fato de a música ter saído da cabeça de Britney. Só para efeito de comparação, é como se Sandy desse um ponta-pé em Junior, deixasse de falar em estrelas, colocasse uma micro-saia e saísse cantando um dos funks nada sutis de Tati Quebra-Barraco.

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