Bratke explora raízes da composição americana

O pianista brasileiro radicado em Londres Marcelo Bratke fará, no início de setembro, no Teatro Arthur Rubinstein, em São Paulo, uma apresentação ao lado da pianista argentina Marcela Roggeri, com quem ele gravou o CD Open Prairie (Etcetera), com obras do compositor norte-americano Aaron Copland. Esta será apenas uma das quase 30 apresentações que o pianista faz este ano pelo País. Integrante do Circuito Cultural Banco do Brasil, ele tem, desde o começo do ano, feito uma verdadeira peregrinação por algumas das principais cidades do País.O disco resgata originais para dois pianos de Copland que, a partir deles, estruturava suas versões para grande orquestra. Estão presentes The Open Prairie, Street in a Frontier Town, Billy and His Sweetheart, Mexican Dance, Celebration after Billy´s Capture, Billy´s Demise, Danzón Cubano Variations on a Shaker Melody, Danza de Jalisco, Dance of the Adolescent, Hoe Down, Saturday Night Waltz e El Salón Mexico. "Copland iniciava seu processo de composição desenhando partituras para dois pianos e só depois fazia a orquestração", lembra Bratke, para quem o resgate desses "primeiros traços" dá uma nova visão sobre a obra do compositor. "Com a orquestra, você ganha um grande colorido, mas a leitura para pianos mostra uma música mais transparente: deixando de lado a massa sonora emerge uma música menos datada", completa.Afinidade - O concerto, no entanto, não tem apenas composições de Copland. "Nos concertos que fazemos, dedicamos a primeira parte ao disco e a segunda a peças de compositores que se aproximaram, tanto pessoalmente como esteticamente, de Copland, como Gershwin e Bernstein", indica Bratke.Para ele, sua completa integração com Marcela Roggeri é o principal destaque do disco. "Apesar de sermos pessoas completamente diferentes, temos musicalidades muito parecidas." O trabalho de gravação foi bastante divertido. "Não precisava de muita explicação ou discussão, o trabalho fluiu com mais leveza e, além disso, foi muito divertido: essas músicas são muito rítmicas, com influências do jazz e de ritmos da música latina."Outro aspecto ressaltado é a busca de raízes. "A influência latina é bastante evidente e os três compositores estavam preocupados em explorar a linha entre o popular e o erudito", diz. E completa: "De certa forma, eles buscavam o que os brasileiros procuram hoje: uma identidade musical e cultural, mesmo que no nosso caso essa procura venha com alguns anos de atraso."Nesse sentido, a escolha de Copland como tema do CD não se deu ao acaso. Bratke lembra de um seminário dado pelo maestro Leonard Slatkin em que, perguntado sobre a fórmula ideal para se fazer música americana, respondeu que bastava viver nos Estados Unidos e compor. "O que ele quis dizer com isso é que o ambiente de cidades norte-americanas é multicultural, agrega influências de diversas culturas e civilizações." É nesse sentido que surgiu a escolha de Copland. "Ele, talvez, seja o compositor que melhor traduziu o espírito de compor norte-americano - ele fez a música americana por excelência." E acrescenta: "Sua música sofreu influência do jazz, da música indígena, da música européia, dos ritmos country: ele levou adiante o flerte entre o poular e o erudito."Circuito - Responsável pela parte da música erudita do Circuito Cultural Banco do Brasil, Bratke já se apresentou este ano em 11 capitais brasileiras e tem recitais marcados para mais nove cidades. "É uma oportunidade única na minha vida de experimentar uma liberdade de interpretação e repertório: em cada concerto, buscamos relacionar a minha apresentação com um fenômeno local, o que faz com que eu não fique tocando sempre a mesma coisa." Um exemplo expressivo é o concerto feito em Salvador, no qual Bratke e o Olodum, tendo como palco uma igreja colonial, estabeleceram um diálogo entre Bach e a música de raízes populares africanas.

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