Brasil vira o novo Eldorado do show biz

Circuito pop e rock infla o mercado musical e o faturamento bruto é estimado em US$ 500 milhões

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

06 de novembro de 2009 | 01h00

Público na Chácara do Jockey assiste ao show da do Radiohead, no início do ano. Foto: Tiago Queiroz/AE

 

Dois grandes festivais com 41 atrações internacionais no mesmo dia, neste sábado, o Maquinária e o Planeta Terra. Anteontem, foi o Eletronika, em Belo Horizonte. Na terça, será o Indie Festival, em São Paulo, com Gogol Bordello e Super Furry Animals. Daqui a mais alguns dias, será a vez do About Us Festival, que traz Sting e Jason Mraz. Sem contar que foram confirmados em cima da hora shows de Joss Stone e Beach Boys. O grupo The Killers chega nos próximos dias. O Colplay e o Franz Ferdinand vêm aí, e o U2 acaba de assegurar quatro datas de sua milionária turnê 360º, três em São Paulo e uma no Rio (em novembro de 2010).

 

lista  Confira a programação e mapa dos festivais

 

O que está se passando no show biz nacional? O superaquecimento é evidente em relação a todos os gêneros, e todas as casas estão com suas agendas lotadas. Publicações como a Pollstar e a Billboard têm analisado o fenômeno em números e estimam que, num espelho parcial do desempenho da região, o faturamento bruto do show biz aqui ultrapasse US$ 500 milhões.

 

O dólar baixo está no centro dessa euforia, avaliam os empresários do ramo. Curiosamente, a outra questão que inflacionou os palcos neste final de ano e no início do próximo tem relação com a crise do final de 2008, início de 2009. "Muitos artistas postergaram as turnês, muita banda suspendeu suas excursões para não permitir que baixassem o valor dos seus cachês", analisa Milkon ‘Mac’ Chriesler, da Groove Concept, organizadora do festival Maquinária. Com a retomada econômica, começam a voltar ao batente.

 

A consolidação e a profissionalização do show biz nacional são os outros fatores. Ontem, a empresa de capital nacional Time for Fun (T4F) enfrentou em Nova York, durante festa da Billboard, as duas maiores corporações do setor, AEG Live e Live Nation, na disputa dos Billboard Touring Awards. Disputando na categoria melhor produtora e melhor produtora independente (nesta última, contra a MCD da Irlanda e a Michael Coppel Presents da Austrália), a Time for Fun é o maior retrato dessa euforia que ronda a América do Sul.

 

A T4F incorporou a CIE Argentina e a CIE Chile em 2007, numa operação de US$ 150 milhões, e hoje já é uma das maiores do setor no mundo. Este ano, foi responsável pela vinda de diversos artistas internacionais: Kiss, Oasis, Keane, Simple Red, Backstreet Boys, Damien Rice, Aha, Jerry Lee Lewis, Prodigy, Pet Shop Boys, Sarah Brightman, Il Divo. Radiohead e Kraftwerk abriram o ano em alto estilo, em show impecável na Chácara do Jockey.

 

"Creio que, quando se está em um momento difícil, as pessoas precisem desses espaços de lazer para ouvir boa música em companhia dos amigos, se reunir", ponderou anteontem, em entrevista ao Estado, o cantor espanhol Alejandro Sanz. Segundo Alejandro (banido da Venezuela por ordem de Hugo Chávez por declarações críticas contra seu governo), a América do Sul é a bola da vez. "Hoje, está ocorrendo o contrário do que acontecia no passado, quando os artistas latinos buscavam conquistar o mercado da América do Norte. Agora, você vê artistas como Nelly Furtado se ‘latinizando’, para atingir o mercado do Sul", considerou.

 

"É natural um aquecimento pós-crise. Os festivais que acontecem na Argentina e Chile também facilitam a vinda de artistas no mesmo período aqui no Brasil", analisa William Crunfli, dono da Mondo Entretenimento, que realiza este mês o festival About Us. "Claro que o dólar baixo facilita, é um bom fator, mas não é um grande parâmetro", analisa ‘Mac’ Chriesler, do Maquinária.

 

Roberto Verta, Gerente de Shows Internacionais da T4F, não conecta a euforia do show biz atual com o aquecimento econômico. "Grande parte das turnês que estão vindo para o Brasil, pelo menos em nosso caso, já estavam programadas para a America Latina em 2009. Os efeitos da retomada econômica talvez só sejam sentidos em 2010, então o que posso afirmar é que nossos resultados até o momento são fruto de um trabalho desenvolvido nos últimos anos pela T4F. A sazonalidade é uma característica do mercado pop internacional: no verão do hemisfério norte os artistas ficam por lá e fora desse período, no meio do ano, sempre há chances de que turnês de primeira linha venham para cá."

 

Segundo Verta, não houve mudança no perfil da agenda, embora seja comum, agora, que shows de artistas de grande projeção, como Joss Stone e outros, sejam anunciados em cima da hora, como se estivessem sendo ‘encaixados’ na América do Sul. "Nossa companhia sempre procura evitar trabalhar assim. A turnê do Coldplay vai acontecer em fevereiro e março de 2010 e foi anunciada 4 meses antes, por exemplo", diz.

 

Para Verta, o tamanho do mercado sul-americano está se configurando ainda. "O mercado sul-americano tem potencial de expansão e a profissionalização tem vindo juntamente com esse crescimento. Mercados como o Peru e a Colômbia vivem momentos especiais com resultados bastante expressivos em turnês de artistas que visitaram esses mercados pela primeira vez. Brasil, Argentina e Chile já estão no clube há algum tempo. No momento, talvez a única exceção seja a Venezuela."

 

Paradoxalmente, a grande oferta de shows não fez os preços dos ingressos baixarem. Pelo contrário: entraram na lista dos mais caros do mundo. O Maquinária, por exemplo, tem tickets de até R$ 450. Segundo Chriesler, o fato de sua empresa não ter um patrocinador influi no preço, mas ele também cita investimentos no conforto do público, no cast diferenciado e o atendimento como motivos.

 

O mercado em polvorosa cria problemas de agenda nas poucas estruturas para concertos que há em São Paulo e Rio de Janeiro. Para ocupar a Chácara do Jockey, por exemplo, o festival Maquinária teve de se programar com grande antecedência. O Pacaembu está vetado para shows. O Morumbi cobra valores muito altos, segundo os empresários, inviabilizando turnês. O Anhembi não se mostrou adequado. Há uma semana, a empresa Time for Fun teve de alugar o Via Funchal para "encaixar" o gigante da eletrônica inglesa The Prodigy.

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