Brad Mehldau se apresenta no Auditório Ibirapuera

Dragão tatuado no braço, canções pop de corpo aberto no espaço. Quem encontrasse Brad Mehldau na rua poderia chutar tudo sobre ele - que é um astro do rock indie, um universitário batalhando seu mestrado, qualquer coisa. Difícil seria afirmar peremptoriamente: aos 36 anos, eis aqui o mais celebrado pianista de jazz surgido na última década.Mas isso ainda é menos que a verdade. Brad Mehldau é gênio, como já o disseram ex-parceiros como Joshua Redman, Charles Lloyd e Wayne Shorter. No mítico clube Village Vanguard, na Sétima Avenida, em Nova York, sua foto está na parede, ao lado da de Thelonious Monk. Para o New York Times, ele se insere, ao lado de Cecil Taylor, como um dos genuínos "inventores" do jazz.Pela terceira vez no Brasil, o público poderá conferir de perto a animalidade de Mehldau, esta noite, no Auditório do Ibirapuera. Após dez anos se apresentando com o mesmo trio, Mehldau chega desta vez com sua seleção modificada: no lugar do velho amigo baterista Jorge Rossy, ele traz agora Jeff Ballard.O resto é tudo igual, inclusive seu gosto pela provocação. Pela terceira vez, ele grava uma canção do Radiohead. Agora é Knives out, do disco Amnesiac (antes, gravara Paranoid Android e Everything in Its Right Place). É inegável que é quase impossível enxertar algo na música da banda inglesa: parece que ela já contém tudo, da melodia à tensão, do fluxo contínuo à entrega, da contradição ao abandono.Mas, quando você ouve o pianista Brad Mehldau tocando Radiohead, compreende que sua intenção não é enxertar, nem homenagear, nem muito menos "tomar emprestado". Ele mesmo usa duas palavras para definir sua busca: paixão e ruptura."Há uma energia selvagem em Knives out. Tive a idéia de abrir meu disco com um nível realmente alto de energia, é o que tentamos com essa faixa", explica o pianista. Mehldau parece buscar a sua própria transfiguração no som do Radiohead, como se a experiência de tocar também implicasse correr alguns riscos. Mehldau toca Radiohead como aqueles malucos dos anos 70 ouviam Pink Floyd - é uma viagem, mas a nave tem um piloto que conhece a fundo a história da música, de Coltrane a Hancock, de Charlie Parker a Jimi Hendrix. É uma tentativa de buscar uma nova safra de standards para o gênero, em meio à crise de composição atual do jazz - mas Mehldau não gosta da expressão."Não creio que exista um consistente bloco de canções desde os anos 1950 que possa ser chamado de standards. A música pop, começando talvez nos Beatles ou Bob Dylan, mudou. Tornou-se mais idiossincrática, mais ligada a um compositor específico ou a um performer específico, menos passível de ser interpretada por outro cantor ou instrumentista. A arte de interpretar como Frank Sinatra, Cole Porter, Jobim, Rodgers e Hart, etc., tornou-se menos relevante. Não acho que isso seja bom ou ruim para a música, é apenas algo que aconteceu. Também pode acontecer de tudo mudar e a arte de interpretar tornar-se de novo relevante. Então, quando eu ou outro alguém descobre e interpreta uma canção de uma banda como Radiohead, é mais uma interseção individual entre o intérprete e aquela canção particular, algo que só existe em seu próprio pequeno universo. Amo Radiohead, mas muito de sua música não é imediatamente acessível para mim como músico de jazz. É diferente de um compositor como Jobim ou Cole Porter, dos quais você tem um catálogo inteiro de canções para escolher. Acho que Radiohead é relevante porque eles trazem uma certa verdade no meio da alienação e angústia geral do mundo atual. A angústia é temperada com uma esperança louca."Brad conhece música como poucos. No iTunes, o seu novo disco, Day Is Done, vem com duas faixas extras. Uma delas é Viver de Amor, do brasileiro Toninho Horta, que ele já tocou aqui ao vivo, durante o TIM Festival, em 2004. Perfeccionista, chegou a pedir um afinador de piano poucos minutos antes de entrar em cena, naquela ocasião.É um "desconstrutor", para usar uma palavra da moda. Sua argamassa é feita de tijolos triturados de composições de outros, como Nick Drake, Paul Simon, Beatles. Ritmos como funk, pop e rock só lhe servem como ponto de partida, nunca de chegada."Eis como eu vejo o jazz - uma interseção entre o músico improvisador e o que ele possui e toca de seu próprio material. Geralmente, ao menos sob meu ponto de vista, esse material se torna irrelevante depois de um certo ponto. É como uma peça de roupa que a gente tira conforme a performance evolui", diz. Brad Mehldau Trio. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º,portão 2, Parque do Ibirapuera, 5908-4299. Hoje e amanhã, 20h30; dom., 21 h. R$ 30

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.