Bowie protesta contra o pop fácil

Quando fez a turnê Sound and Vision, em 1990, David Bowie prometeu que nunca mais iria fazer um show apenas com seus hits. A promessa demorou a ser cumprida, já que nos últimos anos ele incluiu vários sucessos em formatos variados de shows. Mas para o lançamento de Heathen, o primeiro álbum de seu selo próprio, o músico resolveu arriscar: mostrou uma versão do mais denso e experimental trabalho de sua carreira, o disco Low, de 1977, e todas as músicas do novo álbum. A performance de mais de duas horas de duração deixou o público confuso. Na metade dos anos 70, depois de trocar a Europa por Los Angeles para aproveitar a fama obtida por sucessos como Young Americans, Golden Years e Fame, Bowie resolveu ir passar uma temporada em Berlim, onde viveu em reclusão total, estudou arte, se dedicou à pintura e gravou com Brian Eno. O resultado da parceria foi Low, um trabalho experimental que se apropriava dos sintetizadores e de conceitos da música eletrônica. Quando subiu ao palco do Roseland Ballroom esta semana, Bowie disse que, quando a gravadora ouviu o trabalho, ofereceu-se para pagar todos os custos para a realização de um outro álbum. Assim, em clima casual e acompanhado de sua melhor banda da última década, ele mostrou versões das músicas de Low, incluindo Sound and Vision e Always Crashing in the Same Car. A apresentação foi ficando mais difícil quando a banda tocou versões fiéis das instrumentais Art Decade, Weeping Wall e Subterraneans, que na época eram revolucionárias, mas hoje apenas remetem a uma desinteressante sonoridade new age/ambient. Depois de um intervalo de 15 minutos, Bowie voltou ao palco para interpretar as 12 músicas de Heathen, um álbum recheado de baladas e músicas sem melodias inspiradas. Gravado com a participação de Pete Townshend e David Grohl, o disco tem como melhores momentos três covers: Cactus, clássico dos Pixies, I´ve Been Waiting for You, escrito por Neil Young em 1969, e I Took a Trip on a Gemini Spaceship, nova versão para I Took a Trip (On a Space Shuttle), do Legendary Stardust Cowboy. Ao fazer um manifesto contra o pop comercial (há uma razão para a combinação do material de Low e Heathen), Bowie mostra uma dose de coragem cada vez mais difícil de achar em artistas hoje em dia. Do alto de seus quase 40 anos de carreira, dirigindo o próprio selo fonográfico e contando com a fiel base de fãs conectados via internet (boa parte do público do show nova-iorquino era de membros do clube virtual Bowie.net), ele pode se dar o direito de seguir caminhos pouco óbvios. O problema é que nem sempre a técnica de deixar de lado os excessos significa criatividade. Nos últimos anos, Bowie tomou outros caminhos arriscados (como o criticado disco de quase drum-´n-bass Earthling, de 1997) que soaram mais esforçados. Heathen é mais um trabalho para embalar os fãs na espera pelo próximo grande disco de Bowie. E presenciar a mesma espera, ao vivo, sem o tempero de alguns clássicos para ajudar a digestão, é uma experiência doída até para os fãs.

Agencia Estado,

13 de junho de 2002 | 14h19

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