Botika lança o disco 'Picolé da Cabeça'

Escritor e cantor da banda Os Outros mescla narrativas sonoras

Jotabê Medeiros , O Estado de S.Paulo

12 Junho 2014 | 19h00

Dos mais irrequietos artistas do espectro pop nacional, o escritor carioca Botika lançou um livro muito festejado em 2006, Autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue Editorial) e seu segundo trabalho, Búfalo (2010, Editora Língua Geral), foi editado também em Portugal e na Argentina. Nascido no Rio, Bernardo Botkay, o Botika, vingou na literatura seguindo uma forte influência do "antipsicologismo" de José Agrippino de Paula, além de confessar influências de Jorge Mautner e John Fante. Paralelamente ao seu trabalho como escritor, ele sempre foi músico e compositor, integrante da banda Os Outros (que gravou disco com a sambista Teresa Cristina).

Agora, Botika estreia em carreira solo com o álbum Picolé da Cabeça (Bolacha Discos), viabilizado por meio de financiamento coletivo pela internet no final do ano passado e que arrecadou, segundo o artista, mais dinheiro do que ele almejava (123% do total). O disco foi gravado no famoso estúdio Toca do Bandido, do produtor Tom Capone (morto num acidente de moto nos Estados Unidos quando participava da festa do Grammy).

Picolé da Cabeça, explica Botika, é uma expressão que significa quem não se leva muito a sério. "É quem se joga rachando costelas, de peito aberto. É quem é doido nos melhores dos sentidos. Estilo Balada do Louco, dos Mutantes. É quem é livre", explica o cantor, escritor e compositor. O álbum será lançado em São Paulo no dia 20 deste mês, em show no Sesc Belenzinho.

Botika tem convidados de outras praias artísticas na empreitada. No disco, a faixa O Mundo de Marlboro é uma parceria com Carolina Bianchi, atriz da Companhia dos Outros, de São Paulo. E Pipoca é uma parceria com Bruna Beber, escritora que também vive em São Paulo. E, no show, ele convidou para participar Diogo Soares (da banda acriana Los Porongas) e Daniel Groove, dois amigos seus que moram em São Paulo e são ativos na cena independente atual.

O estilo literário de Botika permeia tudo que faz, inclusive o espírito "Picolé da Cabeça" lisérgico. "Também gosto de olhar um picolé derretendo debaixo do sol, como um símbolo do tempo passando, nos lambuzando com seu conteúdo, mudando o cheiro e a textura da pele. O picolé também se desmancha dentro de nossa cabeça, enquanto tudo acontece incessantemente."

Com a banda Os Outros, ele fez dois discos (Nós Somos Os Outros e Pacote Felicidade, Bolacha Discos) e participou do mais recente trabalho de Teresa Cristina (só com músicas de Roberto Carlos). Picolé foi produzido por Bernardo Pauleira, baterista da banda. No baixo, ele tem Daniel Castanheira; na guitarra, Gabriel Mayall. A coprodução é de Felipe Rodart e Antoine Midani (que também mixou o disco).

Ao lado da banda Os Outros, Botika passeou por muitas encruzilhadas: a música deles muitas vezes soa como new wave, noutras como Jovem Guarda, às vezes Erasmo, outras uma Blitz pós-punk. Agora, a assinatura é bastante autoral não só na voz e nas letras, mas também no som. Há uma certa vibração psicodélica, mas Botika não concorda com essa assertiva.

"Eu não diria psicodélico. O som está bem conciso, compacto, eu acho. Sou eu cantando, mais três músicos. Gravamos tudo ao vivo, em duas noites. A voz gravei depois. Arranjos simples. A cozinha bem colada e Bubú (como é chamado o músico Gabriel Mayall, que tocava com a banda Do Amor e também com Los Hermanos) mais solto com seus timbres e efeitos guitarrísticos”, ele pondera. “Talvez você possa ter achado psicodélico por causa da mixagem, de Antoine Midani (que também co-produziu o disco, ao lado de Felipe Rodart e Daniel Castanheira). Antoine é responsável por boa parte da pintura do disco. Digamos que deu uma boa regada nas músicas, molhando bastante as vozes e criando narrativas sonoras de acordo com as letras”, explica o músico, que conta não estar ouvindo nada psicodélico. "A música que tenho ouvido em loop por aqui é a versão de Dream A Little Dream Of Me do The Mamas and Papas. Ou Itamar Assumpção."

Em 2013, Botika passou das páginas dos segundos cadernos dos jornais para as de Polícia e Política. Ele interpelou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, na saída do restaurante Yumê, no Horto. Seguiu-se um diálogo áspero e Botika foi agredido por seguranças do prefeito, chegando a registrar um Boletim de Ocorrência. Paes pediu desculpas aos eleitores pelo acontecido. E Botika, como digeriu aquilo?

"Legalmente, eu não quis ir adiante. Considerei que a questão ia muito além da boçalidade do prefeito", conta. Ele também diz que temeu o seu poderio político e econômico. Mas não se arrepende. “Duas semanas depois, começaram as passeatas. Gosto de pensar que eu ter falado o que sentia na cara do dodói, sem economizar energia, foi mais um empurrãozinho, humilde, ligado a tantas milhares de outras questões seríssimas que levaram as pessoas a causar o barulho que se causou e até agora se causa."

BOTIKA

Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, 2076-9700.

Dia 26/6, às 21 h.

Ingressos: de R$ 4 a R$ 20.

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