'Bossas Novas' reúne Milton Nascimento e o Jobim Trio

Álbum homenageia e propõe novas harmonias a clássicos de Tom Jobim

Flávia Guerra,

05 de março de 2008 | 17h29

Em 1958, um trio de músicos já reconhecidos no Brasil passou meses tentando gravar uma nova canção. Ninguém queria apostar em uma batida ‘estranha’ e desconhecida. A empreitada parecia fadada a não sair da partitura até que um dos diretores da Odeon resolveu ‘emprestar’ o estúdio em uma madrugada para o trio gravar a tal canção e revolucionar o modo como o mundo via, e ouvia, a música brasileira. O produtor era Adail Lessa. A canção: Chega de Saudade. O trio: Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Nascia a bossa nova.   Ouça trecho de 'Chega de Saudade'    E 14 anos depois, o mesmo Lessa defenderia a brincadeira de um garoto de 16 anos, um certo Lô Borges, com um também já famoso músico brasileiro. Mais uma vez, ninguém da EMI-Odeon queria bancar a ousadia de lançar um álbum duplo (até então algo inédito no Brasil). O nome da brincadeira: Clube da Esquina. O outro músico: Milton Nascimento.   "Não fosse o Lessa, talvez não houvesse a bossa nova como a conhecemos. Nem o Clube da Esquina. Ele foi responsável por muita coisa. Apostava nos novos. Sempre ressalto seu trabalho", observa Milton, que jamais pensara em ter o mesmo ‘padrinho’ da bossa nova. Assim como jamais planejou o seu novo trabalho: o CD Novas Bossas, que lança com os velhos amigos e parceiros do Jobim Trio (formado por Paulo Jobim, Daniel Jobim e Paulo Braga, respectivamente filho, neto, e baterista do Maestro Soberano). "Na minha vida tudo sempre foi espontâneo como em um clube da esquina. Só trabalho assim", filosofa o ‘mineiro carioca’, que foi apresentado a Jobim por Eumir Deodato e passou a freqüentar a casa do maestro.   Novas Bossas é mais que simples releitura da obra de Jobim. É o primeiro lançamento do selo fundado por Milton, a Nascimento Música (com distribuição da EMI). É também homenagem justa ao Tom. E é uma brincadeira séria entre amigos que literalmente se reuniram na casa de Bituca (como Milton é chamado pelos amigos) para, entre uma conversa e outra, inventar novas harmonias.   De faca e língua amolada, Milton responde com categoria a cutucada da reportagem, que pede ao quarteto uma avaliação da mania de se chamar de velha a bossa nova. "É atual, mundial sim e clássica. Continua nova e está aí tocando no mundo. Vamos citar os EUA. Lá os jovens músicos continuam gravando mestres como Cole Porter e George Gershwin. Ninguém diz que é ultrapassado. Esta síndrome de vira-lata é coisa de brasileiro. E não é boa", brada Milton. "Conversa repetitiva. Não precisa falar. Canta e ouve, que é mais produtivo", diz Daniel Jobim, que já no berço cantava as canções do avô e, em seu aniversário de 3 anos ganhou um show de Milton de presente.   "Ele cresceu no palco, comigo, com Milton, com meu pai", completa Paulo. "O que meu filho de 11 anos escuta? Chega de Saudade. E não é porque é filho de músico. Outro dia me disse: ‘’Este Tom canta para caramba!’ Chato é quem não tem nada a ver com nossa música e pega carona. Nossas referências não podem ser negadas", completa Braga, que era baterista de Elis Regina e foi agregado à trupe de Tom quando a dupla gravou Elis & Tom.   Que atire o primeiro disco quem nunca cantarolou Chega de Saudade. Patriotismo à parte, obedecer ao pedido de Tom nunca é perda de tempo. O maestro, antes de morrer, pediu a vocês que continuassem tocando sua música quando ele partisse para a ‘grande viagem’, não? Os olhos de Paulo Braga marejam: "Lembro o dia em que ele nos pediu isso."   Promessa cumprida. Novas Bossas nasceu no ano passado, quando Milton se juntou ao Jobim Trio para se apresentar no Jardim Botânico (onde conversaram com o Estado e onde está o Centro Tom Jobim de Cultura e Meio Ambiente), em um concerto em homenagem aos 80 anos de Tom. "No CD, incluímos não só clássicos como Chega de Saudade (que surge com som do trem mineiro ao fundo) e Samba do Avião como composições novas (Dias Azuis, de Daniel)", conta Milton. "Há ainda canções do povo do Clube da Esquina como Cais e Tarde", diz Paulo.   Não faltam Caymmi (O Vento) e Vinícius (Medo de Amar). "Tivemos liberdade graças ao modo como a Nascimento permite fazer", diz Braga. "Fundei o selo para gravar trilhas de espetáculos e novos talentos, como Marina Machado. Fico feliz com o modo ‘clube da esquina’ de trabalho", completa Milton que sobe ao palco com o Jobim Trio dia 14, no Mistura Fina, no Rio. Em São Paulo, chega só em maio. "Em um lugar intimista, como a sala lá de casa."      A repórter viajou a convite da gravadora.

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