AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Boogarins deixa o posto de revelação e vai atrás do estrelato

Primeiro álbum da banda goiana, 'As Plantas que Curam', ganha reedição com lançamento em março

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 03h00

Os dois se encontravam, aqui e acolá, pelo campus do Instituto Federal de Goiás. Cursavam o ensino médio com o violão nas costas. A diferença de idade de um ano levou aos gracejos do mais velh0, mas a maldade deu lugar à parceria. Benke Ferraz, o mais novo, ouvia rock clássico, adorava solos de guitarra. Fernando Almeida, o Dinho, era fã de Mutantes, Clube da Esquina, Jupiter Maçã. A troca de experiências foi inevitável. É curioso como a vida segue e, seis anos depois daquele primeiro encontro, em 2014, Dinho e Benke realizaram 101 apresentações no exterior, ao lado de Raphael Vaz (baixo) e Hans Castro (bateria). Juntos, eles formaram o Boogarins, a banda de rock brasileira mais promissora da atualidade – e com um novo disco no forno, a ser lançado em junho. 

O próprio termo “promissor” já é passado para o Boogarins, pelo menos no ambiente da música independente. O primeiro álbum, As Plantas que Curam, gravado de forma caseira, em Goiânia, ganhou um lançamento direto pelo selo Other Music Recording, uma gravadora de Nova York especializada em buscar a vanguarda e novidades da cena underground, em 2013. 

O trabalho será reeditado e lançado no Brasil pelo selo StereoMono, braço independente da gravadora Skol Music, em março deste ano, com músicas inéditas. A versão gringa, contudo, ganhou um público cativo e crítica, com destaque em listas de melhores do ano no Brasil e em países como Estados Unidos, Espanha e Inglaterra. Para encontrar o trabalho, contudo, era preciso acessar sites de música em streaming (Deezer, Spotify e Rdio), de compra digital (iTunes) e durante os shows dos garotos, com poucas cópias à venda.

Às vésperas da aclamação, no fim de 2013, era possível ainda ver Benke circulando pelos bastidores de festivais independentes e shows realizados em Goiânia, de chinelos de dedo e cabelos presos em um rabo de cavalo, distribuindo fitas cassetes com um EP de seis músicas gravadas antes do primeiro álbum ser lançado. 

Ali, já se encontrava muito do que representa o Boogarins, uma banda de jovens, que canta em português, com sonoridade vintage e um apreço pela psicodelia, em um encontro entre as loucuras da carreira solo de Sid Barret, primeiro vocalista do Pink Floyd, com Os Mutantes, temperados por Clube da Esquina. A associação com Tame Impala, banda detentora do trono quando o assunto é psicodelia e guitarra no rock atual, surgiu na hora, mas logo foi deixada para trás pela brasilidade do quarteto. 

“Fiquei muito surpreso quando tocamos em Goiânia nas primeiras vezes, antes mesmo de lançar o disco”, lembra Dinho. “Já tinha tido banda, mas as pessoas pareciam estar gostando, cantando as músicas. Foi a primeira vez que fiquei chocado”, completa o vocalista. Benke concorda que logo os primeiros shows na cidade natal mostrava o caminho a ser seguido. “Lançamos algumas músicas antes dos primeiros shows. Goiânia tem uma cultura forte de música ao vivo, mas as bandas não gravam discos”, destaca o guitarrista. 

O ano passado foi marcado pela expansão do Boogarins. A banda passou grande parte dos 365 dias entre shows e festivais mundo afora, nos Estados Unidos (pelo festival SXSW, no Texas), por Portugal, Espanha (no Primavera Festival), Reino Unido. Tocaram ao lado de The Clean (dona do hit Tally Ho!), Of Montreal e Tame Impala – banda com quem eles praticamente encerraram o ano, no Popload Festival, realizado em São Paulo.

É no palco o grande trunfo da banda. A voz de Dinho, quase feminina, é solta, preguiçosa, enquanto Benke esmiúça o instrumento, para criar camadas e mais camadas viajantes. O baixo de Vaz é um pulso forte e acrescenta peso e sustentação à banda, enquanto Hans é o responsável por manter todos ali juntos, em sinergia. 

Foram, no total, 101 shows no exterior, com uma pequena volta ao Brasil no meio do ano, mas o sacrifício causou uma baixa na banda, com a saída do baterista. Ele se tornou pai de gêmeas no meio da turnê e decidiu deixar a banda. Ynaiã Benthroldo, ex-integrante do trio Macaco Bong, foi uma sugestão do produtor, que a banda aceitou. “Achamos a ideia boa demais”, conta Dinho. “Ele estava pronto para entrar, querendo morar em Goiânia. Ele é irmão.” Curiosamente, Castro e Benthroldo moram no mesmo prédio, na capital de Goiás. 

Novo disco. Desta vez, o segundo álbum do Boogarins será lançado com uma gravadora brasileira. Diferentemente da estreia, quando Dinho e Benke trouxeram o material das experimentações deles já como base para o trabalho, o álbum será mais colaborativo. Durante a estadia na Europa, o grupo passou três semanas na cidade de Gijon, na Espanha, gravando parte do que será ouvido em junho, com o músico e produtor Jorge Explosión, em seu estúdio. “Gravamos algo muito analógico”, diz o vocalista. “Mas só agora que voltamos ao Brasil é que conseguimos achar o ponto certo.” 

O período de volta a Goiânia, após o viajador 2014 e o promissor 2015, , é uma calmaria bem-vinda. “Só agora percebemos como as coisas mudaram. Temos uma rotina mais calma”, diz Benke. “Agora, não precisamos fazer mais nada. Vivemos de música.” 

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